Poesia da casa – de saudade

Sou feita só de saudade. 
Não sou massa nem sou visível.
Esse corpo fraco que ocupo não é meu.
Pairo sobre os mortais preocupados em viver.
Não tenho esses sentimentos de apego à vida
E muito menos de ter medo da morte.
Flutuo, leve, em um mundo de pesos-pesados
Não sei lidar com os humanos. 
Nem com suas vontades.
Porque minha essência é a saudade
Sou apenas sentimento.
E um único sentimento.
De saudade me alimento.
Com saudade adormeço
Por saudade amanheço
Só de saudade eu vivo
E de saudade hei de morrer.

(Imagem: banco de imagens Google)

(in)Competência em tempos modernos

Aparentemente a burrice veio para ficar, instalada nos cérebros humanos como se fosse um programa de computador – que, principalmente aqueles que mais o utilizam, enchem a boca para dizer “software”.

A cada dia que passa, as relações humanas – principalmente no campo das relações comerciais, se tornam mais difíceis.

A internet – computador, celular, redes sociais etc., só demonstra o encolhimento da massa cinzenta correspondente ao cérebro dos seres humanos.

Chego no caixa da padaria. Ele me dá a conta: “R$ 18,10”. Pego uma nota de R$ 20,00 e uma moeda de R$ 0,10 e tento pagar.

De imediato ele devolve a moeda. E pergunta: “Tem trocado?”, respondo “Não.”

A pessoa olha para a nota, olha para a tela, pega uma calculadora, liga, mexe, mexe e pergunta: “Tem dez centavos?”

Eu pego de volta a mesma moeda que foi devolvida e coloco na mão da criatura, que a pega novamente, e pega também a nota de vinte reais, liga de novo a calculadora para ver qual o troco

Vou a uma loja de material de iluminação procurar uma peça para reposição. Escolho uma dourada e pergunto para a criatura que grudou nas minhas panturrilhas desde que pisei no show room:

“Tem de outra cor, que não seja dourado?

“Tem.”

“Quais cores você tem?

“Que cor a senhora quer?

“Prateado.”

“Não tem.”

“E quais as outras cores que você tem?

Ele, com toda a pompa, vai até uma mesa, mexe no computador, olha atentamente para a tela e responde:

“Tem ouro, cobre, prata, branco, preto e vermelho.

“OK, quero prata.”

“De que material?”

“Do que tiver.”

“Que cor?”

“Prata”

“De prata nós não fazemos”

“Pode ser de outro material que vocês fazem”

“De que cor?”

“Prata”

“Alumínio ou aço?”

“De qualquer material que tiver, desde que seja na cor prata.”

O cidadão, ainda imbuído de ostentação, abre um armário sob a mesa e pega algumas amostras – quadradinhos de uma liga com metal, de várias cores. Escolhe algumas e me mostra:

“Temos essas cores.”

Escolho uma amostra, na cor prata.

“Quero dessa cor.”

“Ah, a senhora quer escovado.”

“Escovado?”

“Sim, esta cor se chama escovado.”

“OK, então eu quero escovado” (E nem tinha essa cor no rol que ele leu duas vezes no computador).

“Mas a senhora não queria prateado?”

“Tem prateado?”

“Não.”

“Tudo bem, se não tem prateado, levo o escovado.”

“De que cor?”

É muito para mim. Desisto. Chega. Vim embora sem comprar nada…

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Ana Acto

Tenho os pés feridos
Doridos...
Do caminho percorrido
Não esquecido
Mas passado 
Desci tantas vezes descalça 
Sobre afiadas escarpas 
E caminhei em plantas 
sobre silvas bravas
E ferida
Continuei...
Trilhei só 
Em caminhos cerrados 
E de coragem em braços 
Os desbravei
Desbastei mato bravio
E em lama me afundei
Mas cada etapa 
Cada prova 
Que se me deparou
Superei...
Tenho os pés feridos 
Doridos
Do caminho percorrido
Sentidos...
Mas cicatrizaram
E calejaram 
E mais fortes 
Seguem seu destino
Da vida a sorte
Na esperança o caminho

O dono do livro – Martha Medeiros

Escutei outro dia um fato engraçado contado pelo escritor moçambicano Mia Couto. Ele disse que certa vez chegou em casa no fim do dia, já havia anoitecido, quando um garoto humilde de 16 anos o esperava sentado no muro. O garoto estava com um dos braços para trás, o que perturbou o escritor, que imaginou que pudesse ser assaltado. Mas logo o menino mostrou o que tinha em mãos: um livro do próprio Mia Couto. “Esse livro é seu?”, perguntou o menino. “Sim”, respondeu o escritor. “Vim devolver.” O garoto explicou que horas antes estava na rua quando viu uma moça com aquele livro nas mãos, cuja capa trazia a foto do autor. O garoto reconheceu Mia Couto pelas fotos que já havia visto em jornais. Então perguntou para a moça: “Esse livro é do Mia Couto?”. Ela respondeu: “É”. E o garoto mais que ligeiro tirou o livro das mãos dela e correu para a casa do escritor para fazer a boa ação de devolver a obra ao verdadeiro dono.

Uma história assim pode acontecer em qualquer país habitado por pessoas que ainda não estejam familiarizadas com livros – aqui no Brasil, inclusive. De quem é o livro? A resposta não é a mesma de quando se pergunta quem escreveu o livro. O autor é quem escreve, mas o livro é de quem lê, e isso de uma forma muito mais abrangente do que o conceito de propriedade privada. O livro é de quem lê mesmo quando foi retirado de uma biblioteca, mesmo que seja emprestado, mesmo que tenha sido encontrado num banco de praça.

O livro é de quem tem acesso às suas páginas e através delas consegue imaginar os personagens, os cenários, a voz e o jeito com que se movimentam. São do leitor as sensações provocadas, a tristeza, a euforia, o medo, o espanto, tudo o que é transmitido pelo autor, mas que reflete em quem lê de uma forma muito pessoal. É do leitor o prazer. É do leitor a identificação. É do leitor o aprendizado. É do leitor o livro.

Dias atrás gravei um depoimento para o rádio em que falo aos leitores exatamente isso: os meus livros são os seus livros. E são, de fato. Não existe livro sem leitor. Não existe. É um objeto fantasma que não serve pra nada.

Aquele garoto de Moçambique não vê assim. Para ele, o livro é de quem traz o nome estampado na capa, como se isso sinalizasse o direito de posse. Não tem ideia de como se dá o processo todo, possivelmente nunca entrou numa livraria, nem sabe o que significa tiragem. Mas, em seu desengano, teve a gentileza de tentar colocar as coisas em seu devido lugar, mesmo que para isso tenha roubado o livro de uma garota sem perceber. Ela era a dona do livro. E deve ter ficado estupefata. Um fã do Mia Couto afanou seu exemplar. Não levou o celular, a carteira, só quis o livro. Um danado de um amante da literatura, deve ter pensado ela. Assim são as histórias escritas também pela vida, interpretadas a seu modo por cada um.

(Imagem: banco de imagens Google)