Dia de Poesia – Walter Duarte – Sombras

A lembrança teve fim,

cicatrizada a ferida,

sei que zombaste de mim,

mas, arrumei minha vida.

 

Sou feliz, não mais te quero,

já escapei do teu enredo,

há tempos não mais te espero,

tu perdeste o teu brinquedo.

 

Com alívio vejo agora

que minha alma não mais chora,

morreu essa dor tirana.

 

Hoje sei que não me gostavas,

e que apenas encarnavas

talvez maldição cigana.

(Imagem: foto de Maria Alice)

No escuro. Sempre (Memória)

A vida acontece lá fora.

Não aqui entre essas paredes.

Sou prisioneira de um pesadelo sem fim.

Talvez haja luzes e cantos. Mas não os posso escutar.

Talvez haja calor e aconchego. Mas não os posso sentir.

Talvez haja pessoas brindando à alegria. Mas não posso participar.

Continuarei aqui.

No escuro.

Frio.

Silêncio.

E tristeza.

Totalmente sem futuro.

Presa a um longo passado.

Onde havia luzes, calor e alegria.

Não estou viva.

Apenas continuo aqui…

(Imagem: banco de imagens Google)

Alma Cigana (Memória)

Que correria no dia-a-dia. Mas me mantenho firme no propósito de postar aqui diariamente.

Enquanto conseguir…

Trabalho, família, escritos, quatro casas para administrar…

Por viver essa vida tão corrida e sem rotina, recebi há algum tempo o título de “administradora do caos”. Não me ofendi.

Pensei que, se conseguir, realmente, administrar o caos, já estarei fazendo muito.

Porque não é fácil não morar de verdade em nenhum lugar, não ter parada, ficar indo de um lugar para outro, vivendo à moda nômade.

Sou cigana do século XXI. Cigana do Terceiro Milênio.

Lembro-me dos belos ciganos húngaros, que nos receberam naquela noite mágica, e me pergunto se algum dia voltarei lá, para jantar novamente num sítio nos arredores de Budapeste, vendo a neve caindo suavemente sobre o azul Danúbio.   

E, depois de saborear um inigualável goulash original, feito por mãos ciganas, acompanhado de vinho feito em casa naquele sítio no meio do nada, passar o resto da noite dançando as danças típicas com uma família cigana.

Não sou desse tipo de ciganos, aqueles que têm sua pequena propriedade e passam a vida morando no mesmo lugar.

Talvez tenha, na verdade, raízes nômades de outros lugares, das tribos de beduínos que atravessam sem cessar os desertos, a procura de tudo e ao encontro de nada.

O silêncio do deserto me atrai. A solidão também. Mas não o calor.

Ou apenas carrego nos ombros mais do que posso realizar, então fico nesse vai-e-vem cumprindo agendas alheias, tentando dar conta de três ou quatro vidas em uma.

Mas aí teria de somar todas essas vidas aos meus já tantos e tão cansado anos e seria muito velhinha para estar dando conta.

Então continuo só tentando entender porque não consigo parar numa casinha de porta-e-janela e ali plantar meus temperos e minhas flores e ficar sossegadinha em uma cadeira de balanço, sonhando o que já foi e esperando, com tranquilidade, a morte chegar.

(Imagem: Pinterest)

Saudade – Ângela Caboz – in Confissões da miúda gira

Saudade é às três da manhã sentir-me perseguida por uma insónia, que me tortura e me rouba o sono. E num acto de loucura, vestir a primeira roupa que encontrar no roupeiro, sem me preocupar se estou bem ou mal vestida. Fechar a porta à pressa, sem verificar se apaguei as luzes, que fui acendendo por onde passei. Entrar sem saber como no carro. Lembrar-me de que nem coloquei perfume, mas a saudade já não dá tempo de volta a casa. Seguir sem rumo certo pelas ruas desertas da cidade, em que os normais dormem o sono da beleza. Enquanto eu, vou para onde a loucura me leva. De repente olhar para o número 10 de uma rua, de que nem sei o nome e saber como estou em frente da tua casa. Olhar para a porta e perceber que já a abriste, ainda antes de eu ter chegado. Sair do carro e não fechar a porta, tanta é a urgência em te abraçar.

Saudade é isso, esta urgência de não sentir saudade. A urgência de matar esta vontade de te beijar. Esta vontade de gritar ali mesmo à porta da tua casa que te amo loucamente. Não ter receio de acordar os teus vizinhos a meio da madrugada. Voltarmos juntos para fechar a porta do carro, perdendo a conta ao número de beijos que demos pelo caminho. Regressar ao teu colo, sem ter a noção de ter subido os degraus da escada, por estar distraída com as promessas de amor que te ia fazendo ao ouvido.

Saudade é amarmo-nos no teu quarto, que de repente me parece pequeno demais para o tamanho do nosso amor. Mas que importa isso, se o que quero mesmo é ficar ali no espaço apertado do teu abraço. Ficar ali a escutar o teu coração a bater no meu peito e respirar o teu ar que desenha remoinhos de paixão na minha pele.

Saudade é acordar com o cheiro da tua pele na minha roupa, que está espalhada pela casa. Sentir o perfume do nosso amor por todas as divisões e, quem sabe até no jardim lá fora. Vestir-me com o meu melhor sorriso, descer as escadas descalça, seguindo o cheiro do café que estás a preparar para nós dois. Sentar-me à mesa, disfarçando a minha nudez com a flor que coloco no cabelo, a rosa azul, que foste comprar na florista ao final da rua e que me querias oferecer ao pequeno-almoço.

Poesia da casa – Amor e infinito

O infinito não tem ângulos, apenas curvas

– linhas que se curvam, que se encontram, mas não se tocam


Não tem começo, não tem fim


É perfeito em sua forma


Passa direto do passado ao futuro, volta do futuro ao presente


E se laça, e se entrelaça, se enlaça, mas sem nós


Há um ponto, no infinito, onde tudo se encontra...




Nosso amor não tem pontas – somente laços


– linhas que nos ligam e nos mantêm unidos


Não tem começo, não tem fim


É perfeito em seu existir.


Sem passado, sem futuro, nada cobra nem promete


E se revela e se realiza, mas sem nós


Há um ponto, no amor, onde tudo se alegra...




No meu amor hoje eu te guardo...




No infinito, aguardo, é lá onde eu te espero...


(Imagem: foto de Maria Alice)