Amigos de uma vida – (Memória, neste Dia Mundial do Livro)

Quando eu morrer o que será feito de meus livros?

Quem os olhará com orgulho,

Quem os manuseará com carinho?

Esses livros – companheiros de vida

que se foram somando e se deixando ficar,

estão comigo há décadas e décadas.

Por os ter, assim comigo, nunca senti solidão.

Quando eu morrer o que será feito de meus livros?Pode ser uma imagem de livro

A quem interessará manter todos eles

assim juntos, numa ordem que só eu conheço?

Lidos e relidos a cada tempo certo

Trazendo tantas respostas

Fazendo companhia e dando conselhos

Não me deixando esquecer tantas tristezas

e proporcionando incontáveis alegrias

Quando eu morrer o que será feito de meus livros?

Não mais os poderei ter comigo

E nem sei a quem os deixar para adoção,

como filhos que não queremos ver separados

Eles estão juntos há tanto tempo

já se amoldaram uns aos outros para

dividirem o mesmo espaço. Tantas mudanças,

Tantas casas, tantas cidades, e eles comigo.

Sem ordem de preferência, todos amados.

Como garimpeira urbana eu os encontro

em sebos, livrarias, velhas bibliotecas abandonadas.

Alguns com a dedicatória do autor

Outros até mesmo com a capa estragada

Muitos vieram direto das lojas, novíssimos

Cada um traz sua história e sua verdade.

Um dia – cada vez mais próximo – terei de deixá-los

e partir na viagem sem nenhuma bagagem

Entristecida com a sorte de todos eles, eu pergunto:

Quando eu morrer o que será feito de meus livros?

(Imagem: foto de Maria Alice)

Poesia da casa – Um beijo

Esse beijo tão esperado,
em um desejo sem fim,
Sons de folhas caindo,
perfume de vento calmo.
Raios de brilhos intensos,
nuvens em dia de chuva.
Cores de águas cristalinas,
Tudo o que se contém num olhar
Traz de volta o sentido de uma vida.
Envolto no feitiço da paixão,
Esperança de um futuro feliz,
É o beijo do amor renascido,
É um beijo cheio de encanto,
Nascido da luz de um amor, 
entregue no aconchego do amar.

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Meu silêncio (memória)

Não diga nada.
Apenas ouça meu silêncio.
Em silêncio.
Ouça tudo que meu silêncio diz
Mesmo que eu não o possa dizer
Por mim ele diz tudo para você
Mesmo que você não o queira ouvir
Ele irá dizer, tudo dirá por mim
Diz que ainda amo você 
Que a paixão existe e me domina
E também que jamais o esquecerei
E para sempre esperarei sua volta
Ele diz que sua partida me destruiu
E vivo imersa em mágoas e lágrimas
Que a minha vida perdeu todo o encanto
Apenas ouça o que meu silêncio diz
Enquanto pensa no que você
Também gostaria de me dizer 
Mas não, não diga nada
Seu silêncio de todos esses meses
E a forma como você me deixou
Já disseram tudo por você
Não precisa dizer mais nada
Mas não fuja, enfrente:
Ouça, agora, o meu silêncio

(Imagem: foto de Maria Alice)

Colcha de retalhos – Cora Coralina

Sou feito de retalhos. Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma. Nem sempre bonitos, nem sempre felizes, mas me acrescentam e me fazem ser quem eu sou.

Em cada encontro, em cada contato, vou ficando maior…

Em cada retalho, uma vida, uma lição, um carinho, uma saudade… que me tornam mais pessoa, mais humana, mais completa.

E penso que é assim mesmo que a vida se faz: de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente também.

E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados… haverá sempre um retalho novo para adicionar à alma.

Portanto, obrigado a cada um de vocês, que fazem parte da minha vida e que me permitem engrandecer minha história com os retalhos deixados em mim.

Que eu também possa deixar pedacinhos de mim pelos caminhos e que eles possam ser parte das suas histórias.

E que assim, de retalho em retalho, possamos nos tornar, um dia, um imenso bordado de nós.

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Amor estranho

Ah, esse estranho amor que não se mostra

Não se assume, não demonstra

Na paixão explícita ele se esconde

Quer ser vivido sem compartilhar

Recebe com alegria, mas não se dá

Que não busca e não se aceita

Faz chorar, mas não suporta o pranto

Amor estranho como sol entre nuvens

Quando surge brilha forte e muito aquece

Depois se esquiva e simplesmente desaparece

Tão estranho esse amor, como a chuva na praia

Como estrelas na tarde ensolarada

Tal qual um pôr-do-sol que não precede a noite

Um triste rio de água parada

Um pássaro com asas temendo voar

Ou um barco sem leme que não pode atracar

Esse arco-íris interminável de contradições

Esse quero-não-quero do medo de querer

Do medo de se entregar, esse amor assim inseguro

Um amor estranho de tanto medo que tem de amar

(foto: Flaverson Sbardelatti, Rio Madeira)