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Sem fome (memória)
A beleza que seduz poucas vezes coincide com a beleza que faz apaixonar. (José Ortega y Gasset)

Vejo as esquálidas modelos da semana da moda de São Paulo. Sei que fotos e câmaras “aumentam” visualmente o equivalente a uns cinco quilos. Então constato que elas são ainda mais magras do que aparentam.
Que crueldade essa ditadura da magreza extrema.
Para elas, que sonham com o estrelato das passarelas e se submetem a exigências antinaturais, que contrariam a própria essência de sua humanidade, que é a total negação do prazer do paladar.
E também cruel para todas nós, as outras. Porque vivendo uma vida normal, em um mundo onde há abundância de comida, cômodos meios de conservar essas comidas – já não temos medo da seca nem do inverno, porque sabemos que nosso alimento não faltará mais, não atravessamos épocas de escassez nesta parte do mundo, o que é uma conquista do homem do XXº – é totalmente impossível, se formos saudáveis, mantermos essa magreza.
No século XIX o norueguês Knut Hamsun escreveu o livro Sult (Fome), uma história sobre um jovem escritor sem teto, incapaz de arranjar trabalho e morrendo de fome vagando pelas ruas da Christiania (atual Oslo). Apesar de suas roupas estarem em farrapos e de sua aparência famélica, ele consegue manter sua dignidade e seu toco de lápis. Durante a narrativa ele vaga pelas ruas da cidade e eventualmente tem seus artigos publicados por jornais locais. Percebendo a queda de seus cabelos e já não mais conseguindo manter no estômago suas poucas refeições duramente conseguidas, ele acaba indo como marujo num navio russo a caminho da Inglaterra.
Enquanto você lê esse livro tem remorso de se alimentar. A fome do protagonista é tão aguda, tão doída, que faz você se sentir mal por não compartilhar tamanha privação. E mostra a crueldade da fome, e a luta do jovem para não perder sua dignidade em razão da total falta de recursos e perspectiva.
Mas nós, cidadãos do século XXI, habitantes de um país onde a comida não falta, temos motivo para passar fome, somente porque os organizadores de desfiles de moda endeusam os esqueletos e detestam as carnes?
A extrema magreza ou é fruto de doença ou de privação de alimentos. Não é natural.
Então porque fazermos moda para cabides de arame (nem podem ser equiparadas aos gordinhos cabides de madeira) que se movem?
Sei que os trajes ali mostrados não servem para a rua, mostram tendências, idéias e delírios de criadores inventivos.
Mas o festival de ossos pontudos não atrai.
Da mesma forma as fotos femininas em revistas – nunca, jamais, teremos aquela perfeição. Porque mesmo aquelas mulheres ali retratadas não a possuem.
Antigamente era fita crepe e retoque a caneta. Hoje, mais práticos, os photoshops da vida se encarregam de criar uma perfeição virtual.
E as mulheres, em sua grande maioria, se desesperam, frequentando massagistas malucas, clínicas clandestinas de cirurgias plásticas, se deformando e até perdendo a vida em busca de uma perfeição inatingível e inexistente.
Será que não sabem que os homens não diferem celulite de estria, gordura localizada de celulite, e assim por diante? Veem o conjunto da obra, mas não analisam centímetro a centímetro o material? Na verdade, o carrasco são as outras mulheres, essas sim, que se comprazem em enxergar defeitos nas outras.
Uma mulher normal – nem gorda, nem magra, sem excessos – que se ama e se aceita, sensual sem vulgaridade, alegre e de bem com a vida é atraente por natureza.
A excessiva preocupação com a aparência somente tem gerado, de um lado, infelicidade para as mulheres, e de outro, lucros astronômicos para homens e mulheres que se aproveitam desse desespero.
Por isso, quando surgem nas passarelas aquelas mortas-de-fome pálidas e com cara de infeliz, preparo minha taça de frutas com uma generosa porção de sorvete, e aproveito as noites do verão para curtir esse prazer. Sem medo de ser feliz.
(Imagem criada por IA)
Da solidão

de Tempo

Tempo. O que é Tempo? Ou o tempo? Acredito que apenas Tempo, substantivo masculino, singular e eterno.
Tempo dispensa artigo definido. E dispensa também qualquer numeral bem como pronome demonstrativo. Não há O tempo. Nem Um tempo, ou Esse tempo. Apenas Tempo.
Seria Tempo um círculo? Continente de tudo mais que existe? Porque o círculo – forma mais perfeita conhecida – termina exatamente no ponto em que começa e não mostra qualquer alteração em seu existir, pois que indefinidamente analisado, estará sempre imutável, fechado, sem começo e sem fim.
Há luz sem Tempo? Ou Tempo sem luz? Tem-se a noção da existência do tempo através dos ciclos da luz? Que são os responsáveis pelos ciclos da natureza – brotar e morrer e pelos ciclos do mar – maré alta e maré baixa… será que realmente o Tempo influi em tudo isso, ou nem existe nessa eterna alternância dia/noite, claro/escuro/vida/morte, ordem/caos?
Tudo o que existe contém matéria ou representação. Mas Tempo não – é sem substância, sem imagem…
O céu – que não existe – é visível a quem olha para cima ou para o horizonte. E o vento, invisível, pode ser sentido.
E Tempo? Não pode ser visto, sentido, tocado, representado nem apreendido.
Talvez nem mesmo exista. Talvez seja, mesmo, apenas a ilusão que nos foi imposta, no entender de Schopenhauer.
Mas, inexplicavelmente, paira, domina e controla tudo.
Reina, absoluto, desde o princípio e estará depois do fim.
Nunca passou, não passa nem passará.
Porque é fleumático e impassível.
Já estava aqui antes de tudo. Presenciou o início. O desenvolver. O brotar e o florescer de tudo. E estará aqui quando tudo for passado, destruído.
Só ele – Tempo – ficará.
Existe vida fora do tempo?
Tempo, fragmentos da eternidade, com seus momentos luminosos e seus instantes sombrios.
Tão generoso quanto escasso, tanto nos falta quanto nos sobra. Tudo nos tira daquilo tudo que nos dá.
É o tempo. Apenas tempo sendo tempo.
Esse ser concreto e invisível que nos precede e nos sucede, nos mostra a nossa precariedade. Imóvel em seu eterno passar.
Coerente sem coerência. Acelerado sem pressa. Vagaroso sem pausa.
Tão contraditório, impenetrável, amigo e assustador.
Tudo e todos passamos. E ele permanece.
Não existe, para nós nenhum tempo. Apenas nossos momentos.
Do conjunto de nossos momentos podemos imaginar o tempo. Mas não podemos avaliar sua dimensão.
Poderemos, sempre, contemplar uma nanopartícula de sua existência, mas não a compreender nem nela penetrar.
Um dia passaremos. E, para nos enganarmos, na arrogância de nossa mortalidade e de nossa reduzida importância, diremos “O tempo passou…”
Porque não temos a noção de que nós, sim, estamos passando, não o tempo.
E passaremos.
Inúteis e supérfluos perante o Tempo.
Séculos, milênios e eras se sucederão indefinidamente, em seu interminável desfile perante o senhor de tudo isso.
Quem nos dera ser o Tempo – aquele que vê tudo passar, envelhecer e desaparecer, mas continua, ele próprio, sempre o mesmo, imune a todas as mudanças…
(Imagem gerada por IA)
Texto classificado em 3° lugar – Categoria prosa – no concurso literário internacional – Antologia Tempo, promovido pela A.C.I.M.A. – Itália, 2026
Texto de Pedro Salomão

Imenso mar (memória)
Senhor, não permita que eu seja um cordeiro perante os fortes, nem um leão perante os fracos.

Incessante, incansável, o mar canta em frente de minha casa noite e dia, dia e noite.
Espetáculo por si só, sua presença, sua cor, sua forma, seu movimento, tudo encanta.
Mistério insondável, de onde vem tanta água, tanta força, tanto equilíbrio. Uma imensa superfície, uma evaporação desmedida, mas não diminui seu volume. E a chuva não o aumenta.
Onde está a aquarela com a qual se tinge periodicamente – águas azuis, águas verdes, águas cinzentas, águas marrons. Será que muda a cor conforme o humor?
E a altura das ondas, por vezes tão baixinhas, tão mansas, que nos convidam a caminhar mar adentro; outras vezes tão altas, tão fortes que nos expulsam logo nos primeiros passos.
Caminho horas à beira-mar e nem a atração nem o encantamento diminuem com o passar dos dias.
A primeira ação ao acordar se tornou abrir a janela e olhar para o mar. É uma graça divina morar neste lugar, poder admirar o mar desde o acordar até a hora de dormir novamente. Sempre ouvindo seu canto de paz.
Bálsamo da alma e do corpo, esse presente divino me prende definitivamente nesta cidade, já não consigo ficar muitos dias fora daqui, sinto falta do mar, da imagem do mar, do cheiro do mar, de seu marulho.
Quando dele distraio ele se agiganta e levanta ondas de um verde esmeralda transparente coroadas de espumas tão brancas que é impossível permanecer indiferente. Então deixo o que estou fazendo e fico a olhá-lo, cheia de paixão e admiração.
Nada sou diante do mar, pouco mais que um grão de areia, um bichinho terrestre que se quer marítimo, insignificante, que poderia ser tragado de imediato ao me aproximar, mas ele brinca comigo, me puxa e me devolve.
Como se fosse um cavalheiro às antigas, que corteja, que requesta, mas só pelo prazer de arrastar a dama, não para levá-la consigo de vez.
E eu me deixo levar, qual namorada apaixonada, me solto em seu regaço, e delicadamente ele me traz e me deposita sobre a areia, sua constante guardiã.
Talvez um dia ele se apaixone por mim e me leve para suas profundezas…
(27.03.2009)
(Imagem: foto de Maria Alice)