Texto de Miguel Esteves Cardoso – Alma gêmea

Como é que se reconhece a alma gémea? No abraço.

O coração pára de bater.

A existência é interrompida.

No abraço do irmão, do amigo, da amante, há sensação, do corpo, do tempo, do coração. Há sempre a noção dum gesto posterior.

No abraço de duas almas gémeas, mesmo quando se amam, o abraço parece o fim. Uma pessoa sente-se, ao mesmo tempo, protegida e protectora.

E a paz é inteira – nenhum outro gesto, nenhuma outra palavra, é precisa para a completar.

Pode passar a vida toda. Não importa.

Quando duas almas gémeas se abraçam, sente-se o alívio imenso de não ter de viver.

Não há necessidade, nem desejo, nem pensamento.

A sensação é de sermos uma alma no ar que reencontrou a sua casa, que voltou finalmente ao seu lugar, como se o outro corpo fosse o nosso que perdêramos desde a nascença.

(Imagem: banco de imagens Google)

Prece

Qualidade da prece por Allan Kardec - Kardec.Blog

Que você se cure das desculpas que nunca vieram, do perdão que nunca chegou.
Que você se cure do silêncio que deixaram quando tudo que você queria era uma explicação.
Que você se cure da falta de respeito e entenda que nem sempre o outro vai ter a mesma consideração e isso não diminui o que você é.
Que você se cure das promessas que nunca se cumpriram, das palavras que não se tornaram atitudes.
Que você se cure do adeus sem despedida, do vazio que fica quando alguém que amamos decide ir e não nos levar juntos.
Que você aceite que quem te feriu não vai te curar, porque muitas vezes, essa pessoa nem tem dimensão da ferida que ficou aberta no seu peito.
Que você se cure de quem te magoou.
Que você se cure de todas às vezes que se doou e doeu na mesma proporção.
Que você se cure, pois nada nessa Vida te faz mais forte do que superar o que um dia te magoou. (Autor desconhecido)

(Imagem: banco de imagens Google)

Vento e paixão

Wo sollte man bei einem Tornado Schutz suchen? - myHOMEBOOK

“O sol e o vento falam apenas de solidão.” (Albert Camus)

O que é, em que consiste, do que é feito o vento?

Não quero definições científicas, que existem nos almanaques. Quero que o vento me diga quem é, de onde vem, o que quer de mim e para onde vai.

Por que em dias mansos ele também vem manso, disfarçado de brisa e apenas levemente balança as folhas da pontas dos galhos das árvores?

Por que em dias atribulados, ele vem rápido, ventando, derrubando e fazendo barulho?

E, nos dias de tormento, ele se avoluma, zune, grita e assovia, leva tudo consigo, desarranja os cabelos de todos, desmancha sonhos e desfaz realidades? Ah, vento, de onde você vem? O que já viu nos lugares por onde passou?

E essa pressa, vento, para onde você vai que não pode parar um só instante e ficar aqui comigo?

O vento é igual a uma lufada de paixão. Vem sem se saber de onde, arrasta tudo, bagunça nossos cabelos, muda a realidade.

E se vai. Subitamente como veio, segue embora e nos deixa ainda mais solitários e desvalidos.

Vento e paixão são feitos da mesma matéria .

Não se pode prender a paixão, ou deixará de ser paixão. Esse laço não pode ser apertado para não virar nó e estrangular a paixão. Tem de ser livre, vir quando quiser, ir quando bem lhe aprouver. Assim como o vento. Tente prender o vento. Se barrado, instantaneamente desaparecerá. E ele morrerá.

Porque, preso, contido, limitado, deixará de ser vento.

Sua essência é a liberdade.

(Imagem: banco de imagens Google)

Vivendo na madrugada

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Madrugada. A hora mais escura na noite, que precede o amanhecer. A hora em que o mundo se cala. Ouço o silêncio, às vezes quebrados pelos metais e pedras se chocando. Como um chocalho a embalar a criança que resiste dentro de mim.

Madrugada não foi feita para dormir. Mas para pensar. Sonhar acordada.

São vários conjuntos, nem todos sonoros, ao redor da minha varanda. De todas as formas – golfinhos, sinos, borboletas, pedras, pássaros, mandalas, estrelas; feitos de pedras variadas, de cobre, de madeira, de vidro… cada um com sua beleza.

Quando um deles vem me chamar na madrugada e me transporta para meu outro mundo, saio de mim e o sigo numa jornada única, partilhada entre mim e minha alma.

E atravesso o portal do tempo, da distância, da vida e do querer.

Por algumas horas, antes que o sol quebre esse encanto, renasço na alegria de existir, na companhia da solidão amiga, no regresso a mundos onde nunca fora antes.

Meus mensageiros trazem até mim quem está longe, quem partiu, quem não está. E vozes, e luzes, e cantos e carinhos há tanto já perdidos.

Brincamos de roda, cantamos ritmos, tudo envolto no mais absoluto e solene silêncio da madrugada. Nessas horas, em que estou mais viva do que durante o dia, sinto o prazer da vida, abrigado pelo escuro e pelo silêncio.

E, quando a brisa os avisa que está partindo antes que a aurora a flagre desarrumando a ordem da noite, eles se calam, minha alma volta para mim, e então adormeço, até o raiar do novo dia.

(Imagem: Foto de Maria Alice)

Dia de poesia – Mia Couto – Saudade

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

(Imagem: foto de Adriano dal Molin - Pôr-do-sol sobre o Rio Madeira, Mirante II, Porto Velho, RO - em 01.02.2007, às 17h02)

Memória do blog – Tristeza

As 10 palavras mais tristes da língua portuguesa | ncultura
Por que sou triste? Não sei...
Como também não sei se deveria ser alegre.
Às vezes nos cansamos da felicidade breve
porque ela sempre se vai e a tristeza vem.
A felicidade sempre traz tristeza,
enquanto a tristeza nunca se torna alegria...
Melhor ficar triste de uma vez
e não ficar temendo a tristeza,
porque ela, sim, é inevitável.
Há duas certezas nessa vida:
Ser triste e morrer.

(Imagem: banco de fotos Google)