Mar, sempre o Mar

Não é sempre que sou tão assídua aqui no blog.

Porém tenho minhas razões para sumir de vez em quando. Eu sou nômade por natureza, tenho casa principal e filiais e por isso às vezes me ausento. E quando estou fora, dificilmente escrevo: não gosto do notebook, a telinha minúscula, acoplada ao teclado, forçando verdadeiras acrobacias para digitar. 

Que palavra linda: viagem. Viajar. Ir. Deixar tudo para trás, ainda que por poucos dias e ir. É tão simples. 

Eu realmente gosto de viajar, fui muito cedo contaminada pelo vírus do turismo e isso não tem cura. Só de pensar que vou já estou feliz, seja para onde for. Estou sempre animada para ir – ainda que seja até Presidente Prudente, para ver minha família prudentina. Mas, de qualquer forma, é um ir. 

Gosto de viajar perto, de viajar longe, de viajar de automóvel, de viajar de avião, de viajar de navio. 

Sou turista profissional – já saio de casa sabendo que as coisas podem não sair como o esperado, que quem quer conforto e hora certa deve ficar em casa. Então nada me aborrece nem estraga o prazer de ir. 

Se posso viajar para uma praia, aí a animação é contagiosa. Ninguém resiste e todo mundo quer ir também. Amo praia. 

Muitas vezes me vejo a pensar o porquê do fascínio exercido pelo mar, e não exclusivamente sobre mim. 

Cada um gosta do mar de um jeito e por uma razão, acho que depende da origem, da idade… 

As crianças adoram entrar na água, não importa se gélida. 

Como não sou mais criança – faz tempo – mudei minha relação com o mar. Se muito gelado já me afasto. Sou movida a água do mar e tenho bateria solar. Então a praia é, real e literalmente, minha praia. 

Gosto de ficar na praia horas a fio, o dia inteiro, em uma sombra, vendo, ouvindo e respirando o mar. Se a água é quente, aí está completo. Fico horas dentro d´água – horas mesmo, não é força de expressão. 

E outras pessoas gostam de ficar, de longe, apenas contemplando o mar. 

Fico a lembrar os mares” que já vi, Maceió, por exemplo, onde o mar tem uma cor inigualável. E quente. E manso. Um dia ainda vou morar lá, no edifício Beethoven, e vender bijuterias na praia. Mas isso só depois da aposentadoria, é claro, porque acho que vender bijuteria não me sustentaria lá. 

Os mares do nordeste do Brasil são lindos. E quentes. 

São tantos mares e tão lindos… 

E viajar de navio, então. É a glória. Literalmente. 

Dias e dias em pleno mar. Para onde se olha se vê mar. Céu e mar. 

Dormir com o doce balanço do navio. Quando embarcada tenho a impressão que minha avó me está ninando, todas as noites. 

Gosto de mar e de barcos. Um bote. Um caiaque já me basta. 

E vou confessar aqui: meu sonho dourado é viver embarcada, e todos os dias, ir. Porque o mar não pára e se estamos embarcados estamos, sempre, indo.

Há muitos anos mantenho minha prainha num canto da sala, com conchas diversas, desde conchinhas até enormes caramujos…

E o outro lado do mar? A emoção de Cabo das Rocas, “aqui, onde a terra acaba e começa o mar”, nas palavras de Camões… 

Entrei no mar do lado de lá em Nazaré. Não aguentei a vontade e…fui! Gelado! Voltei para a calçada, calcei as botas e continuei meu passeio. Mas estive dentro do mar, do outro lado do Oceano Atlântico.

O mar nas Bahamas, quente, límpido. No Caribe, na Cote d’Azur, na Madeira, o Mediterrâneo, o Egeu, o Tirreno, o Adriático… são tantos os mares e acredito que, no fundo, que o mar é um só. E a terra, de atrevida, o cobriu em algumas partes, e parece dividi-lo.

E deixo aqui trecho de uma mensagem linda, anônima, que recebi há muito tempo: Você sabe por que o mar é tão grande, tão poderoso? Porque teve a humildade de colocar-se abaixo da terra e dos rios. Porque se estivesse acima, não receberia todas as águas que correm e sim escoaria ele mesmo sobre as terras e se esvaziaria.

 

Capitão Bellini

Escrevi esse texto na manhã do dia 20/03/2014. Algumas horas depois recebi a triste notícia de seu falecimento.  

“O Hospital 9 de Julho confirma que o paciente Hideraldo Luiz Bellini está internado na instituição e esclarece que a família solicita a compreensão de todos, pois não autoriza a emissão de boletim médico.
Atenciosamente,
Assessoria de Comunicação do Hospital 9 de Julho” – 20.03.2014

 

Ao ser apresentada, certo dia, ao irmão de uma querida amiga, fiquei intrigada em ver que já o conhecia, mas realmente não consegui me lembrar onde o vira ou conhecera antes.

Passado algum tempo, estava na casa dela, quando chegou um tio. Não precisei de apresentações, de pronto reconheci o grande Bellini. O capitão. O campeão.

Aí liguei os pontos, e vi que não conhecia o sobrinho, mas que este, além do bom futebol,  herdara o sorriso e os lindos olhos do tio, o que o tornava familiar para mim.

Leio hoje que Bellini está internado, seu estado é muito grave.

Sabia que sofre do mal de Alzheimer, como também sei que já passou dos 80 anos, o que o torna especialmente vulnerável.

É uma lenda dos grandes esportistas do país que se vai aos poucos.

Como aves de rapina os jornalistas esperam a hora do desfecho para mil reportagens, para alavancar as vendas de seus jornais, com toda a matéria que lhe negaram em vida.

Antes de sua memória se apagar passou décadas ao lado da família na linda Itapira. Disse-me que ninguém se lembrava mais dele.

Mas eu lhe respondi que eu não o esquecera.

Quando fazia, ainda na infância, meu álbum de figurinhas das copas ficava fascinada com a cor de seus olhos. Por isso Bellini tanto marcou minha lembrança.

Divertiu-se quando lhe contei o quanto o tietara.

Contou-me histórias que não sabia, dele, da seleção, das conquistas…

Senti o orgulho de me poder sentir sua amiga.

Só posso agradecer a Deus e à vida de ter tido a oportunidade de conhecê-lo, de ver seus olhos maravilhosos e seu lindo sorriso, de apertar sua mão e beijar sua face.

Por isso aqui deixo meu recado – fé e força, Capitão, você não está sozinho – enquanto seu coração de atleta ainda bate.

Bellini. Meu capitão. Meu campeão!