
Para pensar 22

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Por tudo que fomos.
Por tudo o que não conseguimos ser.
Por tudo que se perdeu.
Por termos nos perdido.
Pelo que queríamos que fosse e não foi.
Pela renúncia.
Por valores não dados.
Por erros cometidos.
Acertos não comemorados.
Palavras dissipadas.
Versos brancos.
Chorei pela guerra quotidiana.
Pelas tentativas de sobrevivência.
Pelos apelos de paz não atendidos.
Pelo amor derramado.
Pelo amor ofendido e aprisionado.
Pelo amor perdido.
Pelo respeito empoeirado em cima da estante.
Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda-roupa.
Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados.
Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa.
Por tudo que foi e voou.
E não volta mais, pois que hoje é já outro dia.
Chorei.
Apronto agora os meus pés na estrada.
Ponho-me a caminhar sob sol e vento.
Vou ali ser feliz e já volto.

Se a ausência é a presença possível
A solidão se torna a única companhia
E a distância voltou a se instalar entre nós
A saudade tudo cobriu com seu manto
De tantas lembranças e tristezas
Percebi, então, nessa hora,
Que foi no seu silêncio que mais ouvi sua voz
E que foi, no momento em que me calei
Que mais eu disse o que sentia
(Imagem: banco de imagens Google)

Por algum motivo, simples ou não, o homem resolveu escrever. Fixar em uma superfície dados de sua realidade. Para se tornar imortal? Para deixar um registro de sua passagem pelo planeta ou alertar os que viriam depois das mazelas da existência? Para registrar seu pensamento? Não sabemos. Não temos como saber. Nem mesmo exatamente quem deu início à escrita.
Apenas aprendemos (e temos de acreditar) que provavelmente entre 4.000 e 3.000 anos antes de Cristo, na distante Mesopotâmia, surgiu uma forma de escrita ou desenho através de cones – por isso denominada cuneiforme – terra dos sumérios, o que teria sido a primeira forma escrita sistematizada.

(Imagem: banco de imagens Google)
Muito evoluímos. Não usamos cinzel nem formão e martelo para inscrevermos nossos sinais em pedras.
Temos um sistema de símbolos reconhecido em todo o mundo e usado por mais da metade da população mundial. E conhecemos os sistemas de símbolos de outras origens utilizados por alguns povos. Tudo é decodificado e universalizado. A comunicação se tornou automática e instantânea, a ponto de ninguém mais se surpreender por entender e ser entendido em qualquer idioma.
Durante muitos séculos a escrita, já manual e sobre pequenas superfícies – pergaminhos e papiros, evoluindo para o papel, o uso de pedras, do carvão, da tinta, o grafite, tudo foi evoluindo desde as pinturas rupestres, de aproximadamente 40.000 anos, passando pelos hieróglifos do Egito, e, por volta de 2.500 anos a.C., de forma simultânea e independente, o homem passou a escrever em várias partes do mundo, ainda que não se comunicassem entre si, mas da China à América Central, em várias partes do mundo surgiu a escrita praticamente da forma que a conhecemos.

(Imagem: banco de imagens Google)
Nossa escrita é baseada em um alfabeto – conjunto de símbolos de uma raiz determinada – alfabeto latino, do ramo românico. Há, ainda, alfabeto arábico, hebraico, grego, dentre outros. Alguns foram deixados de lado, caindo em desuso, outros resistem bravamente.
Aprendi a escrever no alfabeto latino, com nossos símbolos que decodificam nossa língua falada de acordo com a fonética. Há um interessante entrelaçamento entre visão e audição para chegarmos à escrita.
No começo era o uso do lápis.

Tive de preencher cadernos de caligrafia. Usar caneta de pena, com o tinteiro fixado na mesinha da carteira escolar.

Embora se tenha evoluído para a esferográfica, até hoje uso caneta-tinteiro, mas com reservatório próprio, sem necessitar do tinteiro e seu inseparável mata-borrão.

Os monges cuidaram de preservar o hábito da escrita, não só o utilizando para transcrição de livros, mas ensinando no mundo ocidental.
No século XIX surgiu a máquina de escrever mecânica, de ferro, pesada.

E, no século XX, quando tudo se tornou obsoleto a cada cinco anos, surgiram as máquinas de escrever elétrica, eletrônica e o computador pessoal.
Usuária de todos esses modernismos, com o advento da Word Wide Web, ou www. ou, para nós, rede de alcance mundial, em 2008 “inaugurei” esse blog. O que significa blog? Que palavra é essa? Simplesmente, a contração de web log, ou seja, o registro em um site – o que começou há 40 mil anos em uma caverna, agora é feito no imaterial, no impensável mundo virtual para aquele homem que cortava a pedra com seu cinzel para registrar suas impressões…

Não tenho memória de quando comecei a escrever textos – crônicas, poemas, contos…, mas sei que escrevo há muitas décadas. E, desde 2013 passei a publicar livros. De início, aqui no blog, textos meus, quase diários.
Com o tempo, resolvi abrir espaço para outros autores – conhecidos, famosos, desconhecidos, anônimos… basta chegar às minhas mãos um texto interessante, que abro um post para esse autor.
E hoje, em mais um recorde que me desafiei, completo 365 postagens diárias sucessivas.
Reconheço, não é fácil.
Mas é divertido. Animador. Um auto desafio vencido é mais importante do que qualquer reconhecimento público. Porque é compromisso assumido comigo mesma. Eu me desafio, eu me cobro, e, hoje, eu me venço.
Com textos meus e de outros autores, são 365 posts diários.

Não continuarei nesse ritmo. Mas tentarei não abandonar minha saletinha virtual de visitas, também chamada Blog de Alice…
(Imagens: fotos de Maria Alice)

Que a gente não dependa do amor do outro para ser feliz. E que reaprenda a caminhar com as mãos livres, braços leves e a alma exposta. Que a gente recupere o olhar carinhoso para com nós mesmos, cuidando do que ouve, do que sente, do que guarda, do que vê. Que nossa memória aprenda a filtrar lições, imunizando a mágoa, o desamor e a falta de afeto. Que sejamos responsáveis por nossas escolhas, nossos caminhos, por nossos amores. E que tenhamos a fé de sempre e o sorriso no rosto para aliviar os dias nublados, já que é certo que o sol sempre volta.

E fui caminhar.
Quando as paredes não mais deixaram passar o ar e as cortinas e janelas afastaram a luz, não havia um som sequer além do bater do meu próprio coração, eu saí. Precisava de ar. Precisava de luz. Precisava enxergar além dos metros até a próxima parede. Precisava ouvir a vida.
Então saí.
Segui por ruas, atravessei praças. Vi casas. Vi árvores. Vi pessoas.
Eu apenas via. Porque nada enxergava.
Não sei se havia sol. Sabia que estava claro.
E ouvi.
Ouvi sons – vozes, buzinas, gritos e freadas. Sirenes pedindo passagem. Trechos de músicas defronte bares.
Nada escutava. Apenas ouvia tudo.
Senti o vento se chocar contra mim.
Respirava o ar que encontrava, puro, poluído, indiferente o que fosse.
E fui.
Caminhei até a completa exaustão. Não havia onde chegar, porque só importava ir. Talvez ali houvesse vida. A vida que não havia no meu ponto de partida.
Resolvi não voltar.
(Imagem: foto de Maria Alice)