A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Conforme o tempo passa nossas vontades, nossos gostos vão se alterando. Coisas importantes, cuja falta seria fatal, já não importam.
Pessoas sem as quais não viveríamos se desfazem na fumaça do esquecimento.
Outras prioridades vêm e tomam conta do pensamento, do desejo e da necessidade.
Acho que isso é amadurecimento – ou envelhecer mesmo.
Por exemplo, coca-cola. Fazia parte da dieta, da rotina, de tudo. Agora passo meses sem um copo de coca-cola e descobri que não morri por isso, embora imaginasse, antigamente, que não sobreviveria sem ela.
Outra coisa é viajar.
Sempre adorei viajar.
Sempre estive pronta para pegar a mala (malinha, que não gosto de carregar a casa quando saio) e ir. Ia para todo lado. Sozinha, acompanhada, com todo mundo, com alguém… Mas ia.
Pegava o carro e cortava estrada para qualquer lado que me atraísse. Era um prazer dirigir, viajar sozinha. Hoje pago para não chegar perto de um volante (confesso que metade do problema são esses indecentes motoqueiros – cabriteiros, porque aquelas maquininhas estão mais para cabritas do que para motos). Se posso vou de táxi em todo lugar só para não tirar o carro da garagem.
Dirigir hoje, para mim, é castigo.
Também avião.
Avião era sapato, usava para me deslocar sem qualquer problema.
Agora estou acomodada – ou preguiçosa…
Só de pensar em aeroporto me dá arrepio.
Tenho uma vontade etérea de ver outros lugares, de voltar outras vezes para a Itália, novamente para Paris. Um desejo constante de estar lá.
Mas não tenho a menor vontade de ir até Paris. Não consigo mais me imaginar dando plantão no aeroporto, enfrentando a falta de educação da maioria das pessoas no interior do avião. A neura dos policiais aeroportuários, a esteira da bagagem.
Nem tudo é sobre você. Aliás, quase nada é. A vida acontece. As pessoas têm suas próprias dores, pressas e medos. O mundo gira por razões que não cabem na nossa lógica. Nem sempre o olhar atravessado foi pra você. Nem sempre o silêncio foi um recado. Nem sempre a ausência foi pessoal. Às vezes, a pessoa só está vivendo a própria tempestade. Solte o peso que não é seu. Respire. Você não precisa ser o centro da história. Aliás, que alívio não ser.
A mulher que se reconstruiu assusta, é óbvio, porque ela já comeu o pão que o diabo amassou, mas hoje ela escolhe a própria dieta emocional.
A mulher que já foi triturada emocionalmente, e que foi capaz de se refazer não está preocupada em ter alguém ao lado apenas para prestar contas a quem quer que seja. Não mais. Ela é livre, pois quebrou as amarras da busca pela aprovação alheia. Ela se pertence.
Aquela que encontrou o próprio caminho passou a ser guiada pela bússola da própria alma, abandonou os caminhos que não a seduzem. Ela carrega cicatrizes dos espinhos nos quais pisou ao andar fora do seu propósito, mas segue plena, percebendo essas marcas como símbolos de um aprendizado.
A mulher que saiu do fundo do poço entende de humilhação, mas optou pelo perdão aos outros e, principalmente, a si mesma.
Ela aprendeu a se abraçar, a se colocar no colo e a dizer para si mesma: “Não se culpe, você fez o que conseguiu fazer naquela época”. Foi subestimada, criticada e alimentada com migalhas, mas decidiu se levantar do chão, sacudir a poeira e iniciar um novo caminho. Ela experimentou a metamorfose, percebeu suas asas nascendo, deu-se conta de que o chão não é o seu lugar. Contudo, ela mantém os pés no chão, pois sabe que é fundamental saber onde está pisando.
Essa mulher aprendeu que nenhuma companhia compensa se tiver que deixar de ser ela mesma. A liberdade de ser quem é não caiu do céu, foi conquistada ao preço de sangue, e essa conquista não será negociada. Ela não quer guerra com ninguém, apenas sabe o que quer e o que merece.
Se há uma coisa que essa mulher tem de sobra é orgulho de si mesma, então ela não vai pensar duas vezes antes de abandonar situações e pessoas que ameacem o seu sagrado. Ela tem clareza do que pode negociar e daquilo que jamais vai abrir mão.
Uma mulher que se reconstruiu não negocia o seu Sagrado!