
Com a palavra, Lu Nascimento

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Foi-se o mês de junho… com suas cantigas populares, suas festas animadas, suas comidas tão apreciadas. Missas, rezas, mastros e quermesses…
E, neste ano, veio o frio. Claro, alternado com sol, com um pouco de calor, mas, fato que não tem acontecido nos últimos anos, tivemos uma prévia de inverno.
Temperaturas baixas. Muitas reclamações (mais ou menos o tanto de reclamações que temos no verão quando a temperatura sobe à estratosfera…)
Mas a humanidade é assim, se úmido, quer seco. Se quente, quer frio. Se noite, quer dia. Se sol, quer chuva. Nunca se satisfaz nem se contenta.
Principalmente nesta época de egocentrismo e imediatismo, as pessoas estão perdendo a vida reclamando, sem perceber a maravilha da natureza.
Os dias se sucedem. Não iguais. Cada um com suas características da estação – neste ano já atravessamos um verão e um outono.
Aos 20 de junho, com a ocorrência do solstício de inverno, este teve início e se estenderá até o dia 22 de setembro.
Algumas manhãs de muita neblina, o que nos coloca em um cinzento cenário mágico, como em um sonho.
Dias curtos, noites longas.
Céu muito alto, muito azul, sem nuvens, o que torna as estrelas muito mais visíveis nas longas noites invernais, propícia ao recolhimento da alma, ao aconchego do corpo.
Ventos frios levando as folhas secas em constante canto rouco pelo chão.
Manhãs geladas e preguiçosas.
A estação mais bonita e agradável em terras tropicais onde o calor castiga.
Há beleza invernal.
Sem comparar com as outras estações, cada uma com suas características e surpresas sazonais.
E, de quebra, junto com esse frio, hoje acaba o mês de junho.
Amanhã, começaremos nossa rotineira caminhada rumo ao fim de ano.
Que venha julho e suas surpresas!
(Imagem: foto de Maria Alice)


Ela Cerveja, Ele Coca Cola. Ela disco, ele tinta. Ela toca, ele pinta. Ela dança, ele tenta. Ela sorri, ele não aguenta. Ela escandalosa, ele calado. Ela festeira, ele sossegado. Ela quer ir, ele tá de boa. Ela desiste, ele ‘me perdoa’. Ela pontual, ele demora. Ela tem pressa, ele sem hora. Ela espera, ele vai embora. Ela pergunta, ele enrola. Ela desencana, ele peleja. Ela explica, ele boceja. Ela respira, ele fraqueja. Ela entende, ele a beija. Ela ponto, ele porém. Ela forte, ele do bem. Ela do momento, ele do além. Ela ama, ele também.
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Me acostumei sem tua presença
nesta enjoada forma diária...
Sem sabedoria, nem cafés da manhã.
É mais um desencontro,
feroz e insensível,
nesta realidade que é apenas minha,
assim como é minha tua ausência.
(Nancy Alcântara, in A fé no existir)

Solidão… tema recorrente…
A solidão não chega tocando a campainha e entrando porta-a-dentro, como uma visita indesejada. Nem precedida de ventos, raios e trovões como uma tempestade se anunciando.
A solidão chega de mansinho. Tímida. Vai-se encostando na sua alma, entra sem ser percebida. Em profundo silêncio. E ali se instala. Faz sua eterna morada.
Você só percebe no dia em que se dá conta que a solidão já ocupou todos os espaços, expulsou todos os desejos, dominou todos os pensamentos.
E conclui, então, sem tristeza nem desespero, mas com resignação, que se tornou um ser extremamente solitário.
Traz a solidão um novo existir, uma inovadora forma de se conviver consigo mesmo. E, paradoxo existencial, a única coisa que se leva desta vida é exatamente a solidão. Quem já se acostumou a ela enfrenta a morte com mais galhardia e até mesmo uma ponta de alegria. Enfim, só. Para todo o sempre.
Tem-se, no existir solitário, a exata dimensão do próprio valor, da beleza interior que se carrega, da riqueza que é a própria companhia.
E, com o passar do tempo, qualquer convivência social convencional torna-se dispensável. Não por se ter tornado um ser antissocial. Mas, simplesmente, porque se está tão preenchido com a calma da solidão, que festas ruidosas, pessoas vazias, situações deprimentes, conversas idiotas, não fazem o menor sentido e entendiam mortalmente. Acaba-se querendo a própria companhia, na calma de um lugar isolado.
A companhia de uma boa música, por vezes uma dose de whisky e excelentes livros bastam.
Não se pode viver no completo isolamento. A não se que se tenha a sorte venturosa de poder viver em um farol…
Então escolhe-se, atentamente, as poucas companhias, as escassas reuniões sociais, a mínima convivência com seres indesejados.
Mas a solidão não é vazia.
É um estado de alma totalmente preenchido.
Do que é feita, com o que é preenchida a solidão?
A solidão é construída com as pedras que foram atiradas, com as mágoas causadas, com as dores suportadas em silêncios, com os abandonos sofridos.
Com a lembrança do que já foi. E não lembrança seletiva, mas lembrança integral – do que foi bom, do que foi ruim. De quando se foi feliz e de quão infeliz se foi.
E, principalmente, a solidão é preenchida de tantas ausências. Porque ausência é algo concreto, palpável.
O vazio que deixaram na alma se torna integrante da solidão.
E tudo que o que está lá guardado não pode ser repartido. Solidão é egoísmo. Recordações que não se partilham, desejos sufocados que não se pode dividir. Grandes alegrias que se quer inteiras e dores que não se pode cindir e distribuir.
Assim, como peças de montar, as lembranças compõem a solidão. Pode-se brincar com elas – fazer muros, pontes e até castelos ou casinhas. Pode-se pegar uma ausência que é mais dolorida e deixar por cima, para ser sempre a primeira a se sentir.
Há ausências tão doloridas na solidão, que preenchem todos os cômodos da alma. A ausência que preenche a solidão pertence integralmente a quem foi deixado um dia. A mais ninguém.
E, no feliz fecho do poema de minha querida amiga Nancy Alcântara, “Nesta realidade que é apenas minha, / assim como é minha tua ausência.”
(Imagem: foto do acervo pessoal da autora)
