Categoria: Sem categoria
Dia de poesia – Eugénio de Andrade – Até Amanhã

Sei agora como nasceu a alegria
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.
É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.
É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.
Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Confusões virtuais

O dia amanheceu do avesso. Ou ele estava do avesso. Acordou atrasado, noite mal dormida, muitos problemas.
Um misto de ressaca com ansiedade. Esse dia seria decisivo. Se a empresa mantivesse a palavra, assinariam o contrato e o ganho poderia ser contado em milhares de euros. Poderia ser mais da metade de sua aposentadoria. Não tinha um segundo a perder.
Tudo já deveria estar pronto, mas na última hora, há duas semanas, os holandeses não vieram e pediram adiamento para assinatura. Amarelaram? Arrependeram? Como saber, a um oceano de distância?
Enquanto tomava seu café expresso, em pé mesmo, abriu a caixa de mensagem do celular. Dezenas de inutilidades. Desde “Bom dia” cercado de flores e musiquinha, até a pergunta do sócio: “e aí, tudo certo para hoje?”.
Repassou rapidamente as mensagens, pois logo as apagaria todas, quando se deparou com uma mensagem de um número desconhecido: “Amor, cansei de esperar sua ligação. Preciso dormir. Te amo. Bjs”.
E agora, quem seria essa Amor? ou esse Amor? quem se esqueceu de telefonar para quem? pensou divertido.
Resolveu responder “Desculpe-me por não ter ligado. Fiquei sem bateria, pus o celular para carregar e peguei no sono. Estava muito cansado. Bj”
Pensou que assim o relapso – ou traidor – seria perdoado. Apagou todas as mensagens recebidas até então e foi para o escritório.
Chegando no escritório, o telefone tocou, era a própria secretária, avisou que estava subindo. O celular vibrou novamente. Olhou. Era o número desconhecido.
“Eu sei que você está mentindo. Não ligou porque não quis. Ou porque estava com outra pessoa. Ou você acha que não sei que você é um cafajeste?”
Divertido, entrou na brincadeira para salvar a pele do cafajeste.
“Não sei do que você está falando. E acabou de chamar de amor e agora já vem jogando pedras?”
Instantaneamente recebeu a resposta:
“Cafajeste ou não cafajeste, você sabe que te amo. E sofro. E não joguei pedras. Mas você está em falta comigo e me magoou. Estou carente.”
Guardou o celular e foi para a primeira reunião.
Ela mandou outra mensagem “Ficou quieto? virá aqui hoje?”
Ele já estava mais interessado na brincadeira do que na explanação sobre balancetes “O que eu disse a você? que não iria? eu não fiquei quieto, cheguei no trabalho”
“Chegou onde???? que trabalho? desde quando você trabalha????”
Antes que ele respondesse, chegou a última mensagem: “PQP, mandei a mensagem para número errado…” e bloqueou o interlocutor…
(Imagem: banco de imagens Google)
Para pensar – 09

Texto de Carlos Cabrita

Há dias, perguntaram-me qual foi a dor mais forte que consegui suportar. Fiquei em silêncio por um instante, não porque não soubesse a resposta, mas porque algumas dores não se explicam com palavras.
Pensei nas dores físicas – aquelas que marcam a pele, cortam a carne. Sim, já senti algumas. Mas a dor mais intensa que já suportei não deixou cicatrizes visíveis. Ela não sangrou, não latejou de uma forma que pudesse ser curado com remédios ou repouso. Foi uma dor que se alojou na alma, que silenciou o meu riso, que tornou os meus dias longos e as noites insuportáveis.
Foi a dor da perda, da despedida inesperada, do vazio deixado por alguém que partiu sem aviso. Foi a dor de um adeus sem retorno, de um amor que se desfez sem explicação, de um sonho que desmoronou diante dos meus olhos sem que eu pudesse segurá-lo.
E o mais curioso? Sobrevivi. A dor atravessou-me, rasgou-me por dentro, mas não me destruiu. Porque, no fim, descobri que algumas dores não são feitas para serem esquecidas, mas para serem transformadas. E, talvez, a maior força que temos seja essa: a de seguir adiante, mesmo carregando as marcas invisíveis do que um dia nos feriu.
Caminhos do tempo – José Luiz Ricchetti

Há um silêncio que chega com os anos, e ele não é feito apenas da ausência de ruídos, mas da transição suave entre o que éramos e o que nos tornamos.
Aos 60, você começa a sentir a sutileza do distanciamento. A sala que antes pulsava com suas ideias agora parece cheia de vozes que não pedem mais sua opinião. Não é uma rejeição, é o ritmo da vida. É quando aprendemos que nossa contribuição não está no presente imediato, mas nos rastros que deixamos nos corações e mentes ao longo do caminho.
Aos 65, você percebe que o mundo corporativo, outrora tão vital, é um fluxo incessante. Ele segue, indiferente ao que você fez ou deixou de fazer. Não é uma derrota, é a libertação. Esse é o momento de olhar para si mesmo, despir-se do ego e vestir a serenidade. Não se trata mais de provar, mas de ensinar, de compartilhar, de ser mentor. A verdadeira realização não é a que se exibe, mas a que inspira.
Aos 70, a sociedade parece lhe esquecer, mas será mesmo. Talvez seja apenas um convite para reavaliar o que realmente importa. Os jovens não o reconhecerão pelo que você foi, e isso é uma bênção disfarçada: você pode agora ser apenas quem você é. Sem máscaras, sem títulos, apenas a essência. Os velhos amigos, aqueles que não perguntam “quem você era”, mas “como você está”, tornam-se joias preciosas, diamantes que brilham no crepúsculo da vida.
E então, aos 80 ou 90, é a família que, na sua correria, se afasta um pouco mais. Mas é aí que a sabedoria nos abraça com força. Entendemos que amor não é posse; é liberdade. Seus filhos, seus netos, seguem suas vidas, como você seguiu a sua. A distância física não diminui o afeto, mas ensina que o amor verdadeiro é generoso, não exigente.
Quando a Terra finalmente chamar por você, não há motivo para medo. É a última dança de um ciclo natural, o encerramento de um capítulo escrito com suor, lágrimas, risos e memórias. Mas o que fica, o que realmente nunca será eliminado, são as marcas que deixamos nas almas que tocamos.
Portanto, enquanto há fôlego, energia, enquanto o coração bate firme, viva intensamente. Abrace os encontros, ria alto, desfrute os prazeres simples e complexos da vida. Cultive suas amizades como quem cuida de um jardim. Porque, no final, o que resta não são as conquistas, nem os títulos, nem os aplausos. O que resta são os laços, os momentos partilhados, a luz que espalhamos.
Seja luz, seja presença, e você será eterno.
Dedico a todos que entendem que o tempo não apaga, mas apenas transforma.
(Imagem: banco de imagens Google)