
Para pensar 13

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –



Caminho pelo infinito em busca de lugar nenhum
o céu me cobre e protege o vento me acompanha
a neblina me espera e não deixo sequer pegadas,
pois que a chuva apaga as marcas de meus passos nesse caminho de ida, um caminho sem volta
trago no embornal restos das idas ilusões,
cacos dos sonhos desfeitos
e um pouco dos carinhos recebidos
Não tenho comigo sobras de amor, nunca o conheci,
sempre me faltou, insuficiente e falso
nem trago qualquer tipo de esperança
Apenas pedras duras da realidade
Um pouco do calor das mãos que me tocaram
E muita saudade de quem eu fui um dia
(Imagem: banco de imagens Google)

Adoro gente doida.
Não a doida perigosa, destrutiva, vazia.
Adoro a doida intensa.
A que sente demais,
a que vive sem filtro,
a que não aprendeu a ser morna.
A que ri alto,
chora fundo,
ama sem manual de instruções.
A que diz o que pensa.
Não quer chocar; só não sabe mentir.
A doida que se emociona com um cão na rua,
que vê beleza numa esquina suja,
que se despede das coisas como se fossem pessoas.
A que se entrega até quando sabe que pode partir-se.
A que se parte tantas vezes que já perdeu a conta.
A gente doida de humana.
Os outros, os que se orgulham do equilíbrio,
da racionalidade perfeita,
das emoções controladas como quem gere um orçamento,
esses é que me assustam.
Quem nunca enlouqueceu um dia enlouquece de vez.
Coitado de quem nunca perdeu o chão.
De quem nunca chorou sem saber porquê.
De quem nunca quis gritar no meio da rua sem motivo.
Os que evitam a loucura ficam malucos num instante.
E o pior é que nem sequer dão por isso.
Texto publicado em 26 de março de 2020, 8° dia do isolamento compulsório imposto em razão da pandemia – covid 19…
Não se trata de uma ordem, mas, sim, de uma firme recomendação: FIQUE EM CASA.
Há um vírus de difícil controle atingindo a população mundial. Os repórteres de TV, sem muito assunto e aproveitando para destilar o ódio que sentem do resultado da eleição presidencial, tocam terror 24 horas por dia na população. Que, oscilando entre o medo, o pavor e a ignorância, repercutem sem parar as notícias mais alarmistas e trágicas. Sem se importar com a verdade.
Quarta-feira, 18 de março de 2020.
Cheguei em São Paulo dia 12/03. Sozinha e com muitos assuntos para resolver. Continuo em São Paulo. Saindo, comendo em restaurante (afinal, nem cozinha tenho aqui no meu cantinho paulistano). E não pretendo morrer de inanição.
Medo? Não me dou esse luxo. Se tivesse medo de morrer não estaria mais viva.
Tudo começa a fechar. Reuniões desmarcadas. Tenho um compromisso em Belo Horizonte. Passagens compradas. Hotel reservado.
A Prefeitura de Belo Horizonte suspende o evento.
Desmarco o hotel por telefone. Eles não opõem obstáculos. Sou a 20ª desistência do dia. Morro de pena. Sei que teremos desemprego e miséria. Mas não me perguntaram nada a respeito quando decidiram que seria melhor o Brasil ter mais falidos do que falecidos em razão da peste chinesa.
Não consigo acesso à Latam. Encontro Myriam, amiga de todas as horas e vamos a uma loja TAM. Duas funcionárias completamente desocupadas. Não podem me atender porque não comprei as passagens naquela loja. Explico que comprei pelo site, mas que o mesmo se encontra inacessível. Elas só informam que o problema não é delas.
Myriam e eu vamos a Congonhas. Eu lhe digo que lá pode ser lugar de contaminação. Ela responde que, se eu posso ir, ela pode ir também. E lá vamos nós. O taxista, feliz pela corrida, que sabe ser das últimas em razão da insegurança que se desenha no horizonte, pergunta se pode ficar esperando. Peço dois minutos, vou até a loja da TAM – fila interminável.
Pego a senha preferencial, afinal, passei dos 60 anos há alguns anos, e volto até o Alexandre. Informo que vou demorar muito. Não há condições de me esperar.
Assim ficamos por cerca de uma hora. Sou atendida. Walter, com toda a gentileza, abre a passagem até 31 de dezembro de 2020. Espero que até lá consigamos voltar ao normal nesse país.
Voltamos para casa. Descemos no supermercado, pegamos alguns produtos e vamos a pé, cada uma para sua casa. Oito dias atrás. Parece que há uma década.
Consigo antecipar a outra passagem, e vou para Ribeirão Preto, onde está meu marido e onde minha mãe – ambos de grupo de risco real, residem. E me interno na minha casa.
Há oito dias aqui. Estética, massagista, depilação, tudo fechado. Ao final desse período estaremos verdadeiros ursos polares: gordos, pálidos e peludos.
Não tenho a menor dificuldade em permanecer em quarentena.
Minha casa (qualquer uma, resido simultaneamente em três – São Paulo, Guarujá e Ribeirão Preto, enquanto mantenho fechada uma quarta casa, em outra cidade no interior de São Paulo) – é meu reino. Aqui dentro tenho tudo o que preciso.
Enquanto não completar 15 dias do meu retorno estou sem contato direto com minha mãe, irmã e sobrinhos.
Não posso arriscar transmitir a eles um vírus com o qual possa estar contaminada, ainda que assintomática.
E há 24 anos iniciei meu trabalho em sistema home office. Eram dez a quatorze horas/dia, em média, dentro do escritório. Portanto, venho em quarentena há mais de duas décadas.
Detalhe: adoro ficar em casa. Detesto sair na rua. Não gosto de shoppings; supermercado para mim é tortura. Sempre saí apenas para o estritamente necessário. Não sei nem o preço da gasolina, porque demoro tanto a completar o tanque do carro, que quando vou de novo já me esqueci o quanto foi da última vez. Tenho o mesmo carro há oito anos, tirei novo e ele está com 26.000 km.
Não sou miss gasolina. Não “bato perna”, não fico por aí e nem na casa das outras pessoas. Aliás, detesto fazer visitas. Sou bem bicho-do-mato e antissocial.
Assim, chego ao meu 8º dia de isolamento social ouvindo um concerto de violoncelo enquanto escrevo.
Tranquila, sem qualquer medo de contrair o vírus, a gripe, a insuficiência respiratória ou morrer. Porque de tiro, faca, pancada ou vírus, um dia morrerei. Nem antes nem depois. No dia exato. E, como sou pessoa de fé, sei que a Graça do Pai não nos coloca onde Sua Misericórdia não nos pode alcançar.
Sem sofrimento nem mudar meus hábitos, cumpro a quarentena. Com medo do dia em que me proibirão de ficar em casa. Aí vou me desestruturar…

Às vezes, dá vontade de sentar à beira do caminho e por ali ficar, até que os ventos mudem, até que as nuvens chorem, até que a dor passe.
Sei que, às vezes, dá vontade de abandonar o barco, engavetar os projetos, esquecer os sonhos, porque o tempo é difícil demais.
Porque, muitas vezes, a vida atravanca, se perde num labirinto, pesa, machuca os ombros.
Mas sei também que, muitas vezes,
é preciso retroceder pra respirar,
olhar de longe o que de perto não se vê,
ganhar fôlego pra caminhar mais um tanto.
O tempo não para, mas é preciso vagarosas pausas pra aliviar a alma e descansar o coração.
(Imagem: foto do acervo pessoal da autora)