
Para pensar 06

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Quem foi, me diz, quem foi
Que abriu o meu sorriso e iluminou o meu olhar?
Que trouxe tanta alegria, tanta fantasia e desenhou
Um futuro nessa minha vida, sempre triste e apagada?
Quem foi, me diz, quem foi
Que desmanchou meu penteado, bagunçou meu coração
Esparramou meus sentimentos, amassou os meus lençóis
Abriu as janelas do futuro e me mostrou um novo mundo?
Quem foi, me diz, quem foi
Que pegou na minha mão e me levou por tantos caminhos
Mergulhou comigo nos rios e juntos voamos entre as nuvens
Dançou comigo nas praças e me ensinou trilhar novos atalhos?
Quem foi, me diz, quem foi
Que um dia simplesmente partiu e me deixou,
Que apagou o brilho dos meus olhos
Pisoteou meus sonhos de menina e quebrou o encanto da minha paixão
Destruiu meu mundo feito de amor e cristal e me abandonou?
Quem foi, me diz, quem foi?
(Imagem:foto de Nelson O’Reilly Filho)


As despedidas mais tristes não são marcadas por raiva ou indiferença – elas são marcadas pelo amor que ainda permanece, por uma conexão que você preza profundamente, mas sabe que não pode mais sustentar.
É a dor de querer segurar-se, ficar naquele espaço familiar, mesmo quando cada parte de si sabe que é hora de deixar ir.
Deixar ir nem sempre significa que o amor ou o cuidado desaparecem. Às vezes, é um ato de coragem e compaixão, um reconhecimento de que se segurar demasiado forte pode causar mais mal do que bem – para ti, para eles ou para a vida que ambos estão destinados a levar.
Não se trata de apagar as memórias ou negar o vínculo. É sobre entender que alguns capítulos, por mais bonitos que sejam, não podem durar para sempre.
Estas despedidas são agridoces porque guardam verdades duplas: a alegria do que foi e a dor do que já não pode ser. Mas nessa dor reside um convite para crescer.
É um lembrete de que o amor não é apenas sobre proximidade ou permanência – é sobre presença, sobre a forma como alguém moldou a tua vida, mesmo que o seu papel mude ou o seu caminho diverja do teu.
Deixar ir não significa esquecer. Significa honrar os momentos, as lições e o crescimento que veio da conexão. Significa levar essas memórias para a frente como parte de quem você é enquanto liberta a si mesmo e à outra pessoa para evoluir da forma que a vida exige.
Não faz mal sofrer. Não faz mal sentir o peso desse adeus no seu coração.
Mas lembre-se: cada final, por mais doloroso que seja, abre espaço para novos começos.
O que você liberta com amor nunca o abandonará verdadeiramente – vai transformar-se, se instalar na sua alma como força, sabedoria e uma capacidade mais profunda de conexão.

Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um
Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum.

– Demorou, hein? Se eu não encontrasse essa sacada para ficar embaixo estaria completamente molhado da chuva, faz quase uma hora que estou aqui esperando! falou o Cravo, muito irritado.
– Desculpe-me, mas o compromisso atrasou, os convidados demoraram a sair e não podíamos desfazer a ornamentação… respondeu a Rosa, com suavidade.
– É, esqueci que lugar de gente chique não termina nunca na hora marcada como os enterros, sempre tem mais um champagne, um foie gras…
– Vai começar de novo? Já estou ficando cheia dessa sua conversa todas as vezes que nos encontramos. Nada posso fazer se sou uma rosa que tem compromissos tão sofisticados. É meu trabalho.
– Ah, sim, esqueci que você é de um roseiral especial, onde ervas daninhas e outros afins nem podem chegar perto, por isso temos que nos encontrar nas esquinas…
– Hoje você está atacado! Por que? Está com medo que eu pergunte onde você esteve ontem? E anteontem? Eu já sei…
– Ah, é? E onde eu estive?
– Em um buquê, com margaridas, cravinas, prímulas… tô sabendo de tudo…E anteontem em uma coroa, com margaridas, flores do campo e sua ex, aquela insuportável dália …
– Quem te contou? A prímula rosa? Vou acabar com a raça dela…
– Não foi ela. Foi o crisântemo.
– Só podia ser. Fofoqueiro invejoso. E vive arrastando as folhas para você. Pensa que eu não percebo…
– Nem fofoqueiro nem invejoso. Pelo visto é verdade.
– Invejoso sim, ele quer envenenar você comigo, para ficar com você. Diz que é um absurdo uma rosa tão fina como você namorar um reles cravo como eu.
– Não tem nada a ver. Você está procurando desculpas para brigar comigo.
– Bem chega de conversa e vamos que estão nos esperando para o novo canteiro.
– Sinto muito, mas não poderei ir.
– NÃO???? Você vai nem que seja à força, ou está com vergonha de ser vista comigo?
Pegou-a pelos espinhos e sacudiu-a com violência.
– Pare, me largue, você está me machucando, olhe o que fez com minhas pétalas, estão despedaçadas…
– Ai, olhe minhas pétalas, olhe minha beleza, minha classe, meu perfume… você só pensa em você, estou cheio…
Jogou-a longe. Ela gemeu.
– Some de minha vista, seu nojento, porco chauvinista, egoísta, você só pensa em você e em seu complexo de inferioridade. Não tenho culpa se você não passa de um cravo sem eira nem beira, nem sei como fui me apaixonar por você.
– Para, que você está indo muito longe, isso me machuca…
– Machuca, é? Vai lá ver se as cravinas e a dália não curam sua feridinha. Para mim está tudo acabado. Fim. Ponto final. Você me despetalou inteira e tenho um coquetel para ir agora.
– Vai pro seu coquetel e aproveita para ir pro meio do inferno também. Vai… Garanto que saio mais ferido que você desta conversa idiota.
Virou-se e foi embora para um lado, enquanto a rosa, chorosa, tomava outro caminho. E foi assim que
O cravo brigou com a rosa / Debaixo de uma sacada, / O cravo saiu ferido, / E a rosa despedaçada…
(Imagem: banco de imagens Google)