O dia amanheceu do avesso. Ou ele estava do avesso. Acordou atrasado, noite mal dormida, muitos problemas.
Um misto de ressaca com ansiedade. Esse dia seria decisivo. Se a empresa mantivesse a palavra, assinariam o contrato e o ganho poderia ser contado em milhares de euros. Poderia ser mais da metade de sua aposentadoria. Não tinha um segundo a perder.
Tudo já deveria estar pronto, mas na última hora, há duas semanas, os holandeses não vieram e pediram adiamento para assinatura. Amarelaram? Arrependeram? Como saber, a um oceano de distância?
Enquanto tomava seu café expresso, em pé mesmo, abriu a caixa de mensagem do celular. Dezenas de inutilidades. Desde “Bom dia” cercado de flores e musiquinha, até a pergunta do sócio: “e aí, tudo certo para hoje?”.
Repassou rapidamente as mensagens, pois logo as apagaria todas, quando se deparou com uma mensagem de um número desconhecido: “Amor, cansei de esperar sua ligação. Preciso dormir. Te amo. Bjs”.
E agora, quem seria essa Amor? ou esse Amor? quem se esqueceu de telefonar para quem? pensou divertido.
Resolveu responder “Desculpe-me por não ter ligado. Fiquei sem bateria, pus o celular para carregar e peguei no sono. Estava muito cansado. Bj”
Pensou que assim o relapso – ou traidor – seria perdoado. Apagou todas as mensagens recebidas até então e foi para o escritório.
Chegando no escritório, o telefone tocou, era a própria secretária, avisou que estava subindo. O celular vibrou novamente. Olhou. Era o número desconhecido.
“Eu sei que você está mentindo. Não ligou porque não quis. Ou porque estava com outra pessoa. Ou você acha que não sei que você é um cafajeste?”
Divertido, entrou na brincadeira para salvar a pele do cafajeste.
“Não sei do que você está falando. E acabou de chamar de amor e agora já vem jogando pedras?”
Instantaneamente recebeu a resposta:
“Cafajeste ou não cafajeste, você sabe que te amo. E sofro. E não joguei pedras. Mas você está em falta comigo e me magoou. Estou carente.”
Guardou o celular e foi para a primeira reunião.
Ela mandou outra mensagem “Ficou quieto? virá aqui hoje?”
Ele já estava mais interessado na brincadeira do que na explanação sobre balancetes “O que eu disse a você? que não iria? eu não fiquei quieto, cheguei no trabalho”
“Chegou onde???? que trabalho? desde quando você trabalha????”
Antes que ele respondesse, chegou a última mensagem: “PQP, mandei a mensagem para número errado…” e bloqueou o interlocutor…
(Imagem: banco de imagens Google)