
Para pensar 01

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Às vezes, sim, a solidão era dolorida. Mas em geral era bem-vinda.
Nasce-se sozinho. Mesmo que alguns tenham sido gerados em gestação múltipla. Mesmo que alguém tenha dividido uma placenta com outro ser, o nascer é solitário. Porque só nasce um de cada vez.
Assim como a morte. Nada mais solitário do que a morte.
Ainda que cercado de dezenas de pessoas, morre-se só. Ninguém morre junto. No máximo, ao mesmo tempo e no mesmo ato. Mas cada um morre por si.
Também é assim o aprendizado – ninguém aprende pelo outro. A caminhada – cada um caminha por suas próprias pernas, mesmo acompanhado.
E o sofrimento? Ah, esse é o mais solitário. Porque a felicidade, a alegria, ainda podem ser partilhadas. Mas o sofrimento? Nunca. Mesmo porque ninguém se apresenta para partilhar o sofrimento o outro.
Sempre fora a imagem da solidão.
Nunca fora capaz de se enturmar, de pertencer a grupos. Praticamente vivera sempre sem amigos.
Quando isso machucava, o jeito era sair ao livre, deitar-se no chão, no pasto, na grama, na rede, onde fosse possível, e olhar para o céu. Sentia paz, sentia acolhimento.
O céu era sua válvula de escape, a esperança de dias melhores, a companhia nas horas difíceis, tristes e mais solitárias.
Para viver neste planeta não era permitido viver solitariamente.
Era imperioso pertencer a um grupo, uma sociedade ou uma tribo.
Tentou. E falhou.
Buscou os colegas do mesmo ano escolar. Mas só encontrou desprezo. Era diferente de todos. Rejeitado. Crianças não são bondosas. Crianças são más e agressivas.
Depois tentou se enturmar com colegas de trabalho. Sua competência e dedicação era motivo de deboche, muitas gozações e algumas ofensas – em suma, de muita inveja. Por isso se fechou ainda mais.
E foi procurar um amor. Afinal, os humanos vivem aos pares. Diz a lenda que nasceram com uma só asa, para serem amados e conseguirem voar fazendo par com a asa do outro que voará junto. Só encontrou traição e abuso.
Percebeu que não há interação de almas entre os membros das tribos. Apenas aqueles que lideram aceitam os que são úteis momentaneamente. Ninguém é necessário. Apenas útil.
Agem de forma coordenada quando na tribo, como se fossem manietados por um mesmo controle. Um grupo homogêneo que impede que cada membro tenha o próprio pensamento, expresse a própria opinião. Todos devem se comportar igualmente, pensar da mesma forma e se vestir de forma parecida. Não conseguia se integrar a nenhum grupo. Era um ser pensante. Tinha personalidade.
Buscando outras pessoas, uma companhia, apenas encontrou sofrimento e traição. Muitas palavras e pouco caráter.
Se as crianças são más, descobriu que os adultos são cruéis. Usam o outro enquanto é útil. Depois descartam como bagaços inúteis.
Os adultos são indiferentes ao sofrimento alheio.
Não conseguia pertencer a essas tribos de hipócritas.
Quanto mais o tempo passava, mais a solidão se consolidava como companheira de uma vida.
Porém, ultimamente a solidão se aguçara e começara a machucar. Cortava a alma e feria os sentimentos, chegando a causar dor física. Estava difícil de aguentar.
Tudo perdera o encanto. Viver era um fardo. O sonho de ter um amor se esvanecera por completo. A solidão seria, realmente, sua única companhia.
Caminhou a passos lentos até uma praça arborizada, onde gostava de ficar nas horas livres.
Deitou-se no macio gramado, sentindo o abraço cálido da natureza.
Olhou para o céu.
Uma paz nova, estranha e acolhedora foi invadindo seu corpo sua alma de maneira suave.
Entendeu que era o chamado do céu. Chegada sua hora, bastava ir.
Mexeu-se com alegria e abriu as longas asas. Porque as possuía duas, o par completo.
Deixou o chão e foi em direção a sua casa. Um voo solitário. Como fora a vida.
O céu estava a sua espera…
(Imagem: foto de Carlos Eduardo Ferreira)


A minha vida é o mar o abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada
(Imagem: foto de Maria Alice)

E assim começa um novo ano. Com fogos de artifício, ruas quase vazias de pessoas e veículos.
Amanhece silencioso.
Aos poucos algum movimento, escapamentos de motos estourando no semáforo da esquina, poucos carros e um ou outro atleta corajoso e dedicado caminhando ou correndo.
O ano passado? Parece que foi ontem…
Dia da Paz Universal… não sei, as guerras continuam da mesma forma que no ano passado…
Mas, sem qualquer dúvida, dia da preguiça universal.
E agora, já anoitecido o dia, relâmpagos e trovões.
E o ano novo? Não existe mais. O Ano Novo já acabou, já está usado.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Le temps est le grand art de l’homme. (Napoléon Bonaparte)

31 de dezembro.
Mais um ano se finda. Amanhã será “Ano Novo”. Depois de amanhã já não será mais nada.
A vida realmente é só o agora, neste instante. Já não o é mais quando comecei a escrever, alguns segundos atrás. Já foi, passou.
Este instante, algo tão fugidio que não podemos reter, é o que nos mostra que estamos vivos.
Um dia, por razões que não sei, alguém resolveu fatiar o tempo.
Os dias, todos iguais – amanhecia, clareava, nascia o sol. Subia ao centro do véu, começava a descer. Sumia, escurecia e anoitecia. Surgiam a lua e seu séquito de estrelas.
E tudo se repetia indefinidamente, e ninguém se preocupava, porque era natural.
Mas – e aí vem o histórico e inevitável “mas” – alguém chamou esse ciclo de infinita repetição de dia (ou day, jour, ditë, дия, prům, dag, tag, giorno, den e outros nomes a cada diferente idioma).
Não contente, agrupou-os de acordo com as fases que enxergava na lua. E finalmente, quando se deu conta de que esta também se repetia, separou as luas e fez os meses. Daí para o ano deve ter sido um pulinho.
E outro, ainda mais esperto, provavelmente mercador de champagne, decidiu que quando se completasse o ciclo do ano, deveríamos comer muito, dançar muito e, para completar tudo isso, beber muito. Champagne, é claro.
Com o tempo, como tudo tende a ser esculhambado em alguns países menos desenvolvidos, passaram a beber cerveja para comemorar (ou bebemorar, já nem sei bem) essa passagem de um ano para o outro.
Tudo porque durante alguns dias alguém não foi trabalhar e percebeu que o sol aparecia e sumia, num ritmo tão certo que poderia ser marcado em um ponto no chão e seria sempre igual. Foi o primeiro relógio.
Amigos, leitores, a todos vocês, pegando carona na ideia genial que um dia alguém teve, desejo que todos tenham seu champagne para estourar nesta noite e que recebam de braços e de corações abertos o novo ano, que será novo somente até amanhã à noite.
(Imagem: banco de imagens Google)