
Para pensar 04

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Todas as manhãs ele passa pela mesma esquina. Geralmente o semáforo está fechado.
Ele para a moto, a estabiliza e acelera suavemente enquanto espera o sinal abrir, para então continuar seu caminho até o trabalho.
Quase sempre no mesmo horário – tanto hora quanto minutos. Seria possível marcar a hora por sua passagem pelo local.
Seu gestual se repetia como se fosse uma gravação: parava lentamente a moto, na faixa da esquerda, colocava o pé direito no chão. Puxava, com a mão direita, a manga esquerda do casaco preto impermeável que usava, com ou sem chuva, olhava a hora, levantava os olhos e os fixava nas luzes coloridas do semáforo. Não alterava um gesto, um segundo, nada. Parecia uma máquina. Moto preta, roupa preta, luvas pretas e capacete preto. Nada variava. Nunca.
Ela, por outro lado, era o improviso na forma humana.
Morava exatamente naquela esquina. A janela de seu quarto, no primeiro andar, ficava exatamente sobre o ponto de parada dos veículos, do lado esquerdo da via.
Não tinha muita hora para acordar. Às vezes até acordava cedo, mas a preguiça a impedia de se levantar logo e continuava deitada.
Quando percebia que iria perder a hora do serviço, faltando meia hora para sair de casa, ela se levantava correndo da cama, abria a janela para ter certeza de que o dia já avançava e precisava ir trabalhar.
E, mesmo em meio à correria matinal para o banho e os minutos para se preparar e sair, notou a regularidade da moto.
Com o passar dos dias, conhecia até o barulho da moto, com seu acelerar suave sob sua janela.
E começou a prestar atenção no motociclista.
Não era um motoqueiro qualquer. A moto era maior, mais imponente. Sua postura sobre o veículo mostrava sua habilidade e familiaridade com a máquina.
Assim, achando um motivo real para se levantar um pouco mais cedo, começou a abrir a janela antes que ele chegasse no cruzamento.
Detestava as manhãs em que o sinal abria quando ele ia chegando e a moto simplesmente passava reto sob sua janela…
E ia arrumando o quarto enquanto esperava a aproximação da moto para ir até a janela ver o quadro que se repetia exatamente igual, dia após dia.
Com o tempo, começou a imaginar quem seria o rapaz misterioso, se era jovem, se era mais idoso. Não havia nada visível – nem um único centímetro de pele nem cabelo ou mesmo das vestimentas – sob o traje de motociclista. Era um enigma completo.
Sem perceber, ele passou a ocupar seu pensamento.
Criava um rosto, um sorriso, a cor dos olhos…
Depois apagava tudo – e se fosse uma mulher?
Na manhã seguinte, já o esperava ansiosamente, e analisava cada gesto, cada centímetro e concluía que era mesmo um homem.
E, assim, também sem perceber, estava se apaixonando pela ideia que fazia dele.
Um dia, sabe-se lá por qual acaso da vida – ou da sorte, ao parar a moto no sinal fechado, antes de olhar a hora, ele olhou para cima. Então a viu na moldura da janela.
E, desse dia em diante, todas as manhãs ele olhava para cima, para conferir sua janela.
E ela, então, a partir desse dia, sempre o imaginava sorrindo dentro do preto capacete…
(Imagem: banco de imagens Google)

Nas asas do vento
da noite em que chove
O som à distância
O medo da noite
“Não vá” – diz o vento
“Eu vou” – diz a chuva
e corre ligeira
em busca do mar
Um risco no céu
um estrondo na terra
um raio no espaço
O vento ventado é nada
a chuva caída é água
a esperança que volta é vida

Não era apenas água – era uma gota escorrendo
Uma gota de chuva
Uma gota de lágrima
Uma gota de dor
Não era apenas amor – era um mundo inteiro
Um mundo de paixão
Um mundo de encantamento
Um mundo de dor
Não era apenas entrega - era um ato de amor
Era entrega de um corpo
Era entrega de uma vida
Era prenúncio da dor
Não era apenas adeus - era a separação
Era o fim de um amor
Era o rompimento de um coração
Era uma explosão de dor
Era uma vida que se acabava
Era uma entrega recusada
Era um amor que morria
Como um rio que seguia
(Imagem: foto de Sofia Pedraza Ferreira)

Voo cego – solidão não é liberdade
Abismos esperam o passo em falso
Precipícios da alma, escuridão no dia claro
As flores se despetalaram ao vento
A vida se desfez em um breve instante
O que era já não está mais
O que existia não mais acontece
Tudo é nuvem que se desfaz e desaparece
Não é mais preciso remar – viver à deriva
Que a vida não vale a pena ser vivida
Rochedos esperam depois da curva
Fechando de vez o caminho incerto
Já não há para onde ir
A noite cai em uma vida inútil
E então, finalmente, sem sofrimento,
Sem lágrimas, sem dores – em paz,
Alma e corpo irão descansar –
Flutuar na eternidade
(Imagem: banco de imagens Google)

Quando eu for,
não aprenda a viver sem mim,
aprenda a viver com o meu amor,
de um jeito diferente.
Se precisares me ver,
fecha os olhos…
ou busca na tua sombra,
quando o sol brilha.
Eu estou lá.
Senta-te comigo no silêncio,
e sentirás: eu não fui embora.
Almas que se misturam jamais se separam.
Quando eu for,
não tente me esquecer,
mas aprende a me encontrar nos momentos.
Eu estarei lá.