
Dá-me seu tempo
e eu te darei suas horas
no tempo de anoitecer.
E juntos caminharemos,
enquanto o tempo não passa
e as horas fingem não ver.
(Imagem: pintura de Marcos Moreira)
Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –

Dá-me seu tempo
e eu te darei suas horas
no tempo de anoitecer.
E juntos caminharemos,
enquanto o tempo não passa
e as horas fingem não ver.
(Imagem: pintura de Marcos Moreira)

O sabor do último beijo será sempre eterno na memória de quem olha para o passado e encontra razões para não esquecer aquele amor que afinal nem fazia parte da sua história, mas que mesmo assim lhe deixou marcas que ninguém saberá como apagar.
A vida é assim, há futuros que não se prolongam na estrada do que lembramos. Há futuros que nos esticam os braços para que não nos recordemos dos abraços que trazemos na bagagem, porque é ali que mora a dor que nos impede de continuar a sorrir.
As lágrimas não doem e por isso é preciso parar de chorar para aproveitar o que temos para viver.
(de Confissões da Miúda Gira)

Hoje eu queria
Que você quebrasse
O tédio do meu dia frívolo
Queria você desbancando
O morno que se instala
Quando um sol como o seu não brilha
Hoje eu só queria que você me amasse
Queria que despisse da capa
Que você veste,
Das normalidades sem mim.
Dos sorrisos sem cor
Pra vir de encontro ao meu,ainda Incolor
Os nossos juntos são estrelas.
Queria que você do nada,
Tivesse sede de mim
Fome das palavras que se cruzam
Quando nos cruzamos.
Quero você ardente
Quero aquela alma que eu conheço
Sua calma,sua serenidade
Em que a minha pode ficar nua
E a sua não precisa se cobrir.
Hoje a lua seria minha casa
Se você viesse assim.
Hoje os planetas se desestabilizariam
E nos veriam
Indo para àquela galáxia de novo


Às vezes, sim, a solidão era dolorida. Mas em geral era bem-vinda.
Nasce-se sozinho. Mesmo que alguns tenham sido gerados em gestação múltipla. Mesmo que alguém tenha dividido uma placenta com outro ser, o nascer é solitário. Porque só nasce um de cada vez.
Assim como a morte. Nada mais solitário do que a morte.
Ainda que cercado de dezenas de pessoas, morre-se só. Ninguém morre junto. No máximo, ao mesmo tempo e no mesmo ato. Mas cada um morre por si.
Também é assim o aprendizado – ninguém aprende pelo outro. A caminhada – cada um caminha por suas próprias pernas, mesmo acompanhado.
E o sofrimento? Ah, esse é o mais solitário. Porque a felicidade, a alegria, ainda podem ser partilhadas. Mas o sofrimento? Nunca. Mesmo porque ninguém se apresenta para partilhar o sofrimento o outro.
Sempre fora a imagem da solidão.
Nunca fora capaz de se enturmar, de pertencer a grupos. Praticamente vivera sempre sem amigos.
Quando isso machucava, o jeito era sair ao livre, deitar-se no chão, no pasto, na grama, na rede, onde fosse possível, e olhar para o céu. Sentia paz, sentia acolhimento.
O céu era sua válvula de escape, a esperança de dias melhores, a companhia nas horas difíceis, tristes e mais solitárias.
Para viver neste planeta não era permitido viver solitariamente.
Era imperioso pertencer a um grupo, uma sociedade ou uma tribo.
Tentou. E falhou.
Buscou os colegas do mesmo ano escolar. Mas só encontrou desprezo. Era diferente de todos. Rejeitado. Crianças não são bondosas. Crianças são más e agressivas.
Depois tentou se enturmar com colegas de trabalho. Sua competência e dedicação era motivo de deboche, muitas gozações e algumas ofensas – em suma, de muita inveja. Por isso se fechou ainda mais.
E foi procurar um amor. Afinal, os humanos vivem aos pares. Diz a lenda que nasceram com uma só asa, para serem amados e conseguirem voar fazendo par com a asa do outro que voará junto. Só encontrou traição e abuso.
Percebeu que não há interação de almas entre os membros das tribos. Apenas aqueles que lideram aceitam os que são úteis momentaneamente. Ninguém é necessário. Apenas útil.
Agem de forma coordenada quando na tribo, como se fossem manietados por um mesmo controle. Um grupo homogêneo que impede que cada membro tenha o próprio pensamento, expresse a própria opinião. Todos devem se comportar igualmente, pensar da mesma forma e se vestir de forma parecida. Não conseguia se integrar a nenhum grupo. Era um ser pensante. Tinha personalidade.
Buscando outras pessoas, uma companhia, apenas encontrou sofrimento e traição. Muitas palavras e pouco caráter.
Se as crianças são más, descobriu que os adultos são cruéis. Usam o outro enquanto é útil. Depois descartam como bagaços inúteis.
Os adultos são indiferentes ao sofrimento alheio.
Não conseguia pertencer a essas tribos de hipócritas.
Quanto mais o tempo passava, mais a solidão se consolidava como companheira de uma vida.
Porém, ultimamente a solidão se aguçara e começara a machucar. Cortava a alma e feria os sentimentos, chegando a causar dor física. Estava difícil de aguentar.
Tudo perdera o encanto. Viver era um fardo. O sonho de ter um amor se esvanecera por completo. A solidão seria, realmente, sua única companhia.
Caminhou a passos lentos até uma praça arborizada, onde gostava de ficar nas horas livres.
Deitou-se no macio gramado, sentindo o abraço cálido da natureza.
Olhou para o céu.
Uma paz nova, estranha e acolhedora foi invadindo seu corpo sua alma de maneira suave.
Entendeu que era o chamado do céu. Chegada sua hora, bastava ir.
Mexeu-se com alegria e abriu as longas asas. Porque as possuía duas, o par completo.
Deixou o chão e foi em direção a sua casa. Um voo solitário. Como fora a vida.
O céu estava a sua espera…
(Imagem: foto de Carlos Eduardo Ferreira)
