A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Foram-se os amores que tive ou me tiveram: partiram num cortejo iluminado. O tempo me ensinou a não acreditar demais na morte, nem demais na vida: cultivo alegrias num jardim onde estamos eu, os sonhos idos, os velhos amores e seus segredos. E a esperança - que rebrilha como pedrinhas de cor entre as raízes.
Dans l’Histoire des temps la vie n’est qu’une ivresse, la Vérité c’est la Mort. ( L.-F. Céline)
Seria a morte apenas o reverso da vida? da mesma forma que o lado cara de uma moeda jamais poderá ver o lado coroa, a vida e a morte nunca se poderiam ver nem encontrar?
Ou a morte é a continuidade da vida em outro lugar, como acontece quando nos mudamos de cidade, e continuamos com a mesma vida, mas ao redor tudo se torna diferente?
A morte é apenas o fim da vida, ou o começo de outra existência, da mesma forma que a fase borboleta sucede a fase crisálida?
A vida só vai até a morte. E a morte, é para sempre?
O que é a morte? Ou melhor, o que é a vida?
O que vale mais a pena – viver ou morrer?
Tudo o que se faz na vida é provisório – o trabalho, o amor, a moradia, porque a morte virá. E na morte, tudo é definitivo?
Em um momento você está aí, hígido, alegre, trabalhando, pensando, comemorando. Daí a instantes, dentro do conceito tempo infinito, está morto, cremado ou enterrado em um caixão. Você só está vivo até morrer. Mas estará morto para sempre.
A vida, nesse conceito do infinito, seria, então um lampejo, um breve instante, porque todos passam mais tempo morto do que vivo.
Talvez a vida fosse, então, como um aperitivo, uma avant-première, para se ter uma ideia do que é viver. Porque, na verdade, estão, todos, sendo preparados para morrer.
E alguns sequer aproveitam essa prévia que nos é graciosamente concedida. Não vivem por medo de morrer.
Respiram o mínimo possível, comem o mais saudável possível, não bebem bebidas alcóolicas, não se entregam às paixões. Vivem apenas para se guardarem para a morte.
Ou nem vivem. Apenas esperam morrer. Alguns até se matam antes que morram.
Sem consciência de que todos morrerão, quantos passam a vida acumulando bens, sem aproveitar o que a vida lhes oferece, apenas pensando em aumentar patrimônio. Sem entender que tudo ficará nessa Terra, para favorecer quem nunca fez nada para ter o sacrifício de uma vida não vivida.
A vida é tão curta, tão frágil! Tem a duração e a resistência da chama de uma pequena vela. Começa a queimar no nascimento e não para até se extinguir na morte.
Como uma onda do mar, que se desfaz e desaparece logo que arrebenta e se torna visível com suas espumas. Ou uma nuvem, feita de nada, que o vento espalha e some no céu azul sem deixar vestígios.
Qualquer abalo, um mínimo sopro, e a chama se apaga. A vida se acaba subitamente. Não há meio de preservá-la ou prolongá-la.
Se somos tão diferentes no curso da vida, a morte nos iguala a todos.
Por isso, ame mais um pouco, apaixone-se mais intensamente, beba mais um copo, dê mais um sorriso.
Com meu bebé no colo, um suspiro suave dança entre nós, enquanto o sol derrama sua luz pela janela, espalhando dourado pelos cabelos dele, pelo meu peito que acolhe. Este é o momento em que o mundo se reduz ao pulsar delicado, ao calor das suas mãos pequeninas, dedos que se abrem e fecham, como um segredo contado em gestos.
Na minha pele, sinto o pulsar da vida, pequenas batidas, um ritmo que segue, sereno, quase mudo, mas tão forte, forte como a raiz de uma árvore que cresce sem pressa, mas com certeza. Ele é um botão, um início, uma promessa feita ao futuro que guardo junto ao meu peito, com todo o cuidado de quem acaricia a pétala mais frágil.
E há uma música que nasce, não no silêncio, mas na respiração, no ar que entra e sai, como um mar que vai e volta, e nos carrega em ondas suaves, levando-nos para longe de tudo que não seja este momento, onde o amor flutua entre nós, leve como o sopro de uma brisa que beija as folhas ao cair da tarde.
No balanço do meu corpo, ele encontra o seu lar, no meu olhar, ele descansa, e eu vejo nele, tão pequeno, um universo inteiro, feito de possibilidades, de sonhos ainda não sonhados, mas que já se entrelaçam no ar que compartilhamos, numa dança lenta, uma melodia feita de nós.
Com meu bebé no colo, o mundo fica mais simples, mais certo, mais belo. E no sussurro do seu sono, eu ouço a promessa de amanhã, uma esperança que cresce, na doçura do presente, na ternura deste instante, onde só existimos nós dois, e a vida, que começa agora.
Ele era exatamente assim. E tudo o que falava se aproveitava mais do que a laranja que tão cuidadosamente descascava sem perder uma gota do suco… deixou saudade, sem dúvida, mas deixou tantos ensinamentos, que a sensação é de que ainda está aqui, orientando, explicando, mostrando o rumo… quanta saudade do meu avô…
(recebi essa mensagem, e, ao lê-la, “enxerguei” meu avô, na “varandona” do sítio, rodeado pelos netos, ou apenas comigo e minha avó… não resisti e publiquei).
Saudade é ponte afetiva aludindo a incompletude geográfica daqueles que se escolheram fronteiras. Estamos fragmentados, como ilhas de um arquipélago, atravessados por um rio de caudalosas lembranças. Pela ponte da saudade transita o tempo áureo da nossa história, os senãos e os contudos que contam da gente na ternura lenta das horas. Nossos extremos não se tocam, nossas pontas não se unem, somos dois pilares da mesma ponte interligados pela saudade que se infinita no horizonte.