A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Vivia à beira-mar
E à beira da loucura
Amava o mar
Intensamente
E amava amar
Com toda paixão
De tanto mar
De tanto amar
Um dia ela se vestiu de mar
E nele mergulhou para sempre...
Eu entrei na morada do passado Respirei fundo, vesti o casaco da ousadia Calcei as botas da coragem, e entrei. Demorei enxergar porque não era claro Algumas frestas do futuro, entretanto, permitiam A passagem de fachos de luz e claridade E fui adiante. Com medo. Trêmula. Hesitante. Mas fui. Tentando adivinhar no que pisava e o Que me esperava naqueles cômodos empoeirados Há tanto tempo abandonados, frios e tristonhos Quando meus olhos se acostumaram à luminosidade Comeceia enxergar o que deixara para trás Vi que pisava em sonhos desfeitos e esperanças vãs Tudo transformado em pó e cinzas, mistura de Lágrimas, decepções e dores suportadas Consegui avistar em um canto bastante alegria E toda a antiga felicidade que não sabia Onde a teria perdido Podia até mesmo ouvir as risadas - aquelas mesmas Risadas que nunca mais dei Encontrei, totalmente esquecido, encostado a uma Parede, meu cajado de arrojo E então reencontrei minha antiga intrepidez, Minha bravura, toda a coragem que sempre tive Com ele fui abrindo caminho entre os escombros E assim revi os velhos amores rompidos, As tantas e antigas paixões esmorecidas, Tão acabrunhados de tantas humilhações E ainda a sede do conhecimento, que se perdera Nas obrigações sem fim e correria de cada dia Vi minhas antigas moradias, os sofás onde a família Se reunia para trocar a impressões do dia A velha e imponente mesa de jantar, Com suas cadeiras, toalhas rendadas, E a linda louçaria, todas inesquecíveis E podia quase sentir o cheiro acolhedor da comida De minha casa de infância... De tanto remexer naquelas cinzas, achei até mesmo Uns poucos traços, agora arruinado, da menina leve E feliz - fragmentos do que um dia eu fui E, finalmente, entre tantos destroços, encontrei, Sob as mesmas cinzas, que com todo cuidado Protegiam uma brasa - esta ainda ardente, Uma brasa que sobrevivera nestas ruínas, Que não deixara morrer, alimentando com seu calor Uma saudade sem fim, da lembrança que guardei de Você. Mantendo viva em mim a recordação que ficou De tudo aquilo que não pôde ficar.
Pedro, hoje você se foi. Na sua viagem solitária. Nós, seus amigos, desta vez não pudemos ir com você. O vazio de sua ausência doerá eternamente em nós.
Vá em paz, meu amigo querido.
Que os anjos agora cantem com você e o céu se alegre na sua alegria contagiante. (Trago, em memória, post publicado em 06 de abril de 2019).
Tenho milhares de conhecidos. Tenho muitos colegas. Tenho alguns amigos.
Dentre esses poucos amigos, tenho o Pedro. Mais que conhecido, mais que colega e muito mais que um amigo. É como um irmão. Podemos conversar horas a fio e o assunto não acaba.
Antigamente fumávamos juntos, hoje ele fuma sozinho, mas eu fico junto.
Bebemos juntos. Brigamos juntos.
Rimos juntos, cantamos juntos, choramos juntos.
E, sempre que podemos, estamos juntos.
Essa amizade é um esteio para minha vida.
Publico, hoje, poema do Pedro, meu mais que amigo:
Chagas
(Pedro Hideite de Oliveira)
Silêncio e solidão,
Que habitam o meu ser.
Ferindo o coração,
Cansado de tanto sofrer.
Sofrimento e dor,
Faz sangrar os ferimentos.
Trazidos de um amor,
Vividos só de momentos.
Momentos que não se esquece,
Por mais não se queira lembrar.
Vem a noite e amanhece,
Tudo vai recomeçar.
Recomeça com a saudade,
E com ela a solidão.
Mas no dia em que forem embora,
Restará, cicatriz no coração.
(Imagem: foto do acervo pessoal da autora, tirada quando do lançamento do livro “O pescador de Sorrento”, São Paulo, maio de 2019)