Dia de poesia – Álvaro de Campos – Soneto a Raul de Campos

Poesia da casa – Visita ao passado (Memória)

Eu entrei na morada do passado
Respirei fundo, vesti o casaco da ousadia
Calcei as botas da coragem, e entrei.


Demorei enxergar porque não era claro
Algumas frestas do futuro, entretanto, permitiam
A passagem de fachos de luz e claridade
E fui adiante. Com medo. Trêmula. Hesitante.
Mas fui. Tentando adivinhar no que pisava e o
Que me esperava naqueles cômodos empoeirados
Há tanto tempo abandonados, frios e tristonhos


Quando meus olhos se acostumaram à luminosidade
Comeceia enxergar o que deixara para trás
Vi que pisava em sonhos desfeitos e esperanças vãs
Tudo transformado em pó e cinzas, mistura de
Lágrimas, decepções e dores suportadas


Consegui avistar em um canto bastante alegria
E toda a antiga felicidade que não sabia

Onde a teria perdido
Podia até mesmo ouvir as risadas - aquelas mesmas Risadas que nunca mais dei


Encontrei, totalmente esquecido, encostado a uma Parede, meu cajado de arrojo
E então reencontrei minha antiga intrepidez,

Minha bravura, toda a coragem que sempre tive
Com ele fui abrindo caminho entre os escombros


E assim revi os velhos amores rompidos,

As tantas e antigas paixões esmorecidas,
Tão acabrunhados de tantas humilhações
E ainda a sede do conhecimento, que se perdera
Nas obrigações sem fim e correria de cada dia


Vi minhas antigas moradias, os sofás onde a família
Se reunia para trocar a impressões do dia
A velha e imponente mesa de jantar,

Com suas cadeiras, toalhas rendadas,
E a linda louçaria, todas inesquecíveis
E podia quase sentir o cheiro acolhedor da comida
De minha casa de infância...


De tanto remexer naquelas cinzas, achei até mesmo
Uns poucos traços, agora arruinado, da menina leve
E feliz - fragmentos do que um dia eu fui


E, finalmente, entre tantos destroços, encontrei,

Sob as mesmas cinzas, que com todo cuidado Protegiam uma brasa - esta ainda ardente,
Uma brasa que sobrevivera nestas ruínas,
Que não deixara morrer, alimentando com seu calor
Uma saudade sem fim, da lembrança que guardei de
Você. Mantendo viva em mim a recordação que ficou
De tudo aquilo que não pôde ficar.

(Imagem: banco de imagens Google)

Pedro, meu amigo (“in memoriam”)

Tenho milhares de conhecidos. Tenho muitos colegas. Tenho alguns amigos.

Dentre esses poucos amigos, tenho o Pedro. Mais que conhecido, mais que colega e muito mais que um amigo. É como um irmão. Podemos conversar horas a fio e o assunto não acaba. 

Antigamente fumávamos juntos, hoje ele fuma sozinho, mas eu fico junto.

Bebemos juntos. Brigamos juntos.

Rimos juntos, cantamos juntos, choramos juntos.

E, sempre que podemos, estamos juntos.

Essa amizade é um esteio para minha vida. 

Publico, hoje, poema do Pedro, meu mais que amigo:

Chagas

(Pedro Hideite de Oliveira)

Silêncio e solidão,

Que habitam o meu ser.

Ferindo o coração,

Cansado de tanto sofrer.

Sofrimento e dor,

Faz sangrar os ferimentos.

Trazidos de um amor,

Vividos só de momentos.

Momentos que não se esquece,

Por mais não se queira lembrar.

Vem a noite e amanhece,

Tudo vai recomeçar.

Recomeça com a saudade,

E com ela a solidão.

Mas no dia em que forem embora,

Restará, cicatriz no coração.