A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
O momento em que um pai morre é um dos mais complexos na vida de uma pessoa. Não importa quantos anos tenhamos ou quão bom ou ruim esse relacionamento tenha sido com o pai. Mesmo um pai distante ou ausente deixa um vazio profundo e uma série de sentimentos e emoções difíceis de processar.
Quando nosso pai morre, precisamos nos reposicionar mentalmente no mundo. Por um tempo, o lugar que ocupamos no planeta se torna um pouco difuso. Nós também temos que modificar nossa autopercepção. Sem o nosso pai, não somos iguais a antes.
Embora o habitual seja que tenhamos mais apego e proximidade com nossa mãe, a verdade é que o pai é uma figura que está sempre no horizonte. Mesmo quando não está lá, sua presença brilha no pano de fundo. É um guia e protetor, embora não o guie ou proteja. Nossa mente colocou nesse papel, mesmo sem perceber.
Quando o pai morre, a identidade muda
Somos nós quando temos um pai e outros quando nosso pai morre. Não importa se temos 30, 40 ou 50 anos no momento em que o evento ocorre. Enquanto nossos pais estão vivos, uma parte de nós continua a viver na infância. Nós sentimos que nossa vida é liderada por outro ser.
No momento da morte do pai, um pequeno terremoto ocorre em nossa identidade. Nós somos aqueles que lideram as gerações que nos seguem. Isso assusta e gera uma sensação de solidão.
Um processo de construção de uma nova identidade adulta começa então. Isso não é feito automaticamente e não está livre de sofrimento. Precisamos construir uma nova perspectiva sobre quem somos e nosso lugar na vida dos outros. Quando o pai morre, é como se tivéssemos perdido uma âncora. Por um tempo estaremos à deriva.
Nostalgia pelo que nunca foi
Nós nunca teremos outro pai. É uma perda absolutamente irreparável. Quer tenhamos um bom relacionamento com ele ou não, sentiremos nostalgia pelo que nunca aconteceu ou o que nunca aconteceu. Algo dentro de nós resiste a renunciar aos ideais, a aceitar o impossível.
Se nosso pai era próximo e afetuoso, vamos ver tudo o que ele nos deu. Seus sacrifícios e esforços para nos fazer felizes. Então, podemos pensar que não correspondemos adequadamente àqueles presentes generosos. Que nos faltava dar mais amor, mais atenção ou mais felicidade.
Se o relacionamento com o pai não foi bom, as coisas ficam um pouco mais difíceis. O normal é que as fraturas e os pontos de ruptura nessa relação começam a pesar mais. Agora não há mais a oportunidade de encurtar essas distâncias ou simplesmente dizer sim, que apesar de tudo, nós amamos isso.
Algo semelhante acontece no caso de pais ausentes. Para aquela ausência vivida e sofrida, seguramente por muito tempo, a força da ausência total é acrescentada agora. É como ser forçado a fechar um ciclo que nunca foi realmente aberto.
O imperativo para avançar
Não importa quais sejam as circunstâncias, se nosso pai morrer, a dor provavelmente aparecerá. Nós também vamos mudar às vezes de uma maneira positiva. Sem essa figura normativa atual, é possível que aspectos de nossa personalidade ou realidades que foram inibidas por sua presença venham à luz.
De qualquer forma, essa perda certamente irá doer intensamente por um bom tempo. Ao longo dos meses e anos, será mais tolerável. O mais aconselhável é entender que o sofrimento puro e duro antes da morte do pai é uma fase perfeitamente normal. Podemos ter 50 anos, mas mesmo assim vai doer, vai nos assustar.
A psicóloga Jeanne Safer recomenda dedicar um tempo para refletir sobre o legado que nosso pai nos deixou. E faça basicamente cinco perguntas: o que eu recebi do meu pai? O que eu quero manter disso? O que eu quero descartar? O que eu me arrependo de não ter recebido? O que eu gostaria de dar e não dizer?
Tudo isso permite identificar onde estão as fraturas e vazios. Isso, por sua vez, ajuda a gerar estratégias para processar essas lacunas e interrupções. Quando nosso pai morre, novas veias de crescimento também se abrem. O mais inteligente é tirar vantagem deles.
É verdade, houve um tempo em que éramos livres. Eu quase já me esqueci como era isso…
Viajávamos à vontade, carro, ônibus, avião, cruzeiros de navios…
Podíamos nos hospedar em hotéis em qualquer lugar do mundo. Íamos livremente às lojas, havia dinheiro girando pelo mundo, bastava trabalhar e já se ganhava o suficiente para viver e, muitas vezes, o bastante para esbanjar.
Esse tempo era tão bom…
Havia doenças, claro. Doenças dos mais variados graus. Desde simples resfriados e gripezinhas, até pneumonias duplas, tuberculose, pancreatite, vários tipos de câncer. E se morria, sim, de doenças, de reações adversas a medicamentos, de complicações em cirurgias.
Os hospitais estavam sempre superlotados. Principalmente hospitais públicos. Faltavam leitos em UTIs, cirurgias eram marcadas a longo prazo, muitas vezes a doença matava o paciente antes dos exames ou da cirurgia. Era um caos. Mas éramos livres.
Podíamos até mesmo optar entre a saúde e a doença.
E, se nos sentíamos saudáveis, podíamos ir à missa, ao culto, ao cinema, ao restaurante, ao parque, à praia.
Os amigos se encontravam, as famílias se reuniam, bares e restaurantes viviam lotados, conversas, risadas, cantorias, muita alegria. Podíamos sair à noite livremente.
Ah, como esse tempo era bom. Éramos livres. Éramos saudáveis. Éramos felizes.
Um dia inventaram que todos deveriam ficar doentes.
E todos deveriam empobrecer. Morrer de doença ou de fome. Montaram um grande circo.
E começaram a tocar pânico nas pessoas. Através de notícias dadas por repórteres histéricos.
Os mesmos que, a princípio, negaram a existência da doença e insistiram em fazer um carnaval mega-enorme, logo depois passaram a acusar o povo de espalhar a doença por ter participado do carnaval.
E aproveitaram a ocasião para cassar a liberdade de todos.
E vieram o isolamento compulsório, o toque de recolher e outras medidas restritivas do direito à liberdade.
O povo, acuado, e com medo, foi se acovardando.
Até isso acontecer, vivíamos um tempo bom.
Éramos livres. Éramos felizes. Éramos saudáveis. Não éramos covardes.
E, dia após dia, mês após mês, ano após ano, foram nos limitando. Destruíram os empregos, as empresas, as famílias, os afetos.
E o povo, com medo de morrer, se deixava matar.
Verdade, você agora me fez lembrar, houve um tempo em que éramos livres. Eu quase já me esqueci como era isso…
O senhor não tem vindo para nossas conversas. Como? Ah, entendi. O senhor ficou preocupado com as notícias de falta de liberdade de expressão, fake news e outras coisas que têm aparecido?
Tudo bem, vô. Respeito seu ponto de vista. Mas podemos conversar sobre outros assuntos, que não política…
Sim vô, estou vendo – e sofrendo junto – todo esse horror enfrentado pelo Rio Grande do Sul. E quando vejo algumas imagens, claro que penso no senhor. É muito triste ver esse monumento ilhado no meio dessa água, sendo que essa estátua, desde 1958 está na entrada da Avenida Farrapos em Porto Alegre, e não em uma ilha…
Todas as vezes que mostram essa estátua do Laçador, lembro-me de como o senhor gostava da réplica que eu lhe trouxe lá do Rio Grande desse gaúcho, e do local onde ela foi colocada na sala de sua casa pela vovó, e que o senhor dizia que se lembrava de mim todos os dias quando a via… quanto tempo, vô, quanta saudade…
Realmente está muito complicado lá. Se pensarmos que mais da metade do Estado está arrasada, não se sabe o que será encontrado quando as águas baixarem, e é preciso aguardar que toda a água escoe, o vento não sopre em outra direção, a chuva pare de cair e todo o aguaceiro se perca no mar… Tenho fé que tudo passará. E veremos exatamente isso. A vazante dará conta e a enchente secará.
Mas o que sobrará para os gaúchos? Destruição, desolação, perdas irreparáveis.
Não falo apenas de prejuízos materiais, mas de vidas, famílias separadas e destruídas.
Praticamente todos perderam tudo ou quase tudo.
Não se estimou ainda nem o número de mortos.
Então, vô, vendo esse povo lindo e forte, mas que no momento depende inteiramente da ajuda dos irmãos brasileiros, penso que, além desse auxílio que podemos dar, devemos rezar. Rezar muito, por eles, por nós, pelo Brasil, pela humanidade.
E, em alguma parte de nós que ainda consegue ver algo positivo, nos alegrarmos com as notícias de tantos brasileiros se unindo para ajudar lá, resgatando os ilhados. Outros se doando para receber todos eles em abrigos, preparando alimentos, providenciando roupas e algum aconchego em meio a tanta desgraça. Em outras partes do país muitos se mobilizando para arrecadar doações, separar e enviar.
É o Brasil tentando salvar o Brasil. É o povo brasileiro unido para salvar uma parcela do povo brasileiro que está submetido a essa provação.
Por isso ainda é possível acreditar na humanidade. Juntos, somos invencíveis.
Essa tristeza há de passar.
E, para sempre, nos emocionaremos quando ouvirmos o canto gaúcho embalando sua gloriosa bandeira contra o céu lindo do Rio Grande do Sul.
Volte logo, vô, o senhor está muito quieto. Na próxima conversa, espero ter notícias melhores para o senhor.