Pânico (Memória)

Sinto frio. Mesmo não sendo inverno. Muito frio. E aqui está bem escuro, quase treva. Tenho medo, muito medo.
Eu não consigo me segurar, deslizo rumo ao fundo desse abismo que me engole. Estou apavorada, tento me manter à tona, mas tudo é liso, escorregadio.
Caio.
A cada momento caio um pouco mais, não tem fundo esse poço em que me encontro, só frio e escuridão. E pavor. Um pavor brutal.
Não sei onde estou, não posso ver nada, estou indo em direção ao inferno. Novamente terei de atravessá-lo. Sozinha.
Mesmo que eu grite ninguém me ouvirá. O som fica preso em minha garganta, ouço meus soluços e choro. Estendo a mão. Não há outra mão à minha espera. Até mesmo quem prometeu estar sempre a meu lado, cuidar de mim, agora não pega na minha mão, deixa-me cair nesse lugar horrível, afundo mais e mais. E choro.
Quero chamar por meu pai, ele sempre me acudiu, me protegeu. Mas ele partiu em sua viagem sem volta, não está mais aqui. Choro ainda mais pela falta de meu pai, pela saudade torturante que sinto dele. Estou sozinha.
Abandonada. Até por mim mesma eu estou abandonada, já não me tenho. Minha fraqueza me mostra o quanto era falsa minha força.
Ouço vozes, risadas. Em algum lugar há pessoas despreocupadas e alegres. Provavelmente o lugar em que estão é iluminado. Essas pessoas não virão em meu socorro. Estão ocupadas em sua despreocupação. Não têm tempo nem vontade de ver que há pessoas sofrendo em volta.
Eu me encolho, começo a sentir dores. Não consigo respirar direito. Facas se movem dentro de mim e as dores são terríveis. Já não consigo mais me mexer. Ainda choro, mas até os soluços provocam dores intensas.
Até quando aguentarei viver imersa nesse pesadelo? Peço a Deus que tenha misericórdia. Estou no final de minhas forças.
O ar acaba. Meus pulmões queimam em busca de oxigênio. Preciso respirar. Estou me afogando nesse fundo lamacento em que tento me levantar. Estou com sede, preciso de água. Tateio em busca de algum objeto. Minha mão encontra algo.
Não consigo enxergar o que peguei. Parece um comprimido, um medicamento. Não tenho como identificar o que é no meio dessa escuridão, mesmo assim, em desespero total, coloco na boca e engulo a seco.
Sinto mais sede.
Não sei onde tem água.
Continuo a procurar água ou alguma coisa para beber. Encontro um rosário. Avidamente me ponho a rezar. As palavras me acalmam. O medicamento me acalma. Está frio e muito escuro. Ainda choro, já não sei quem eu sou.
A oração e o remédio fazem efeito.
Adormeço.
(Imagem: banco de imagens Google)
Poesia da casa – A solidão da flor (Memória)

A flor
tão altiva e convencida
cheia de orgulho e soberba
se olhou no espelho.
E se viu tão solitária,
sozinha no vaso, sem amor,
deitou a cabeça
e morreu…
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Vinicius de Moraes – Ternura (Memória)
Quando bate a saudade dolorida, quando a tristeza embaça o encanto, só nos resta o grande Poetinha…

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.
(Imagem – banco de imagens Google)
Poesia da casa – Por que?

Se não era para ficares, por que chegaste tão cedo?
Se era para partires, por que vieste um dia?
Igual uma chuva, tão desejada, mas que não dura,
Porque vem o sol que apaga todos os sinais.
Ou um deslumbrante luar em noite clara,
E, depois que vem o amanhecer, o dia faz desaparecer.
Se era para acabar e causar tanta dor, por que começou?
Se era para caíres em seguida, por que alçaste esse voo?
Da mesma forma que as marcas deixadas na areia
São em seguida desfeitas pelas ondas do mar;
E os frutos, tão caprichosamente concebidos na natureza
São derrubados e destruídos pelo vento insensível.
Se não pretendias amar, por que o juraste em falso?
Se não era para ser amor, por que surgiu esta paixão?
Como nuvens formando as mais lindas figuras
Que não permanecem, somem à primeira brisa.
Tudo que temos são as brancas espumas do mar
Que se desfazem quando se deitam em sua amada areia.
Se não era para beijares, por que me abraçaste?
Se não pretendias me levar, por que me chamaste?
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Augusto Branco – Poema da noite

Já chorei vendo fotos e ouvindo musica;
Já liguei só para ouvir uma voz;
Me apaixonei por um sorriso;
Já pensei que fosse morrer de saudade;
E tive medo de perder alguém especial... (e acabei perdendo)
Já pulei e gritei de tanta felicidade;
Já vivi de amor e fiz muitas juras eternas... "quebrei a cara muitas vezes!"
Já abracei para proteger;
Já dei risadas quando não podia;
Já fiz amigos eternos;
Amei e fui amado;
Mas também já fui rejeitado;
Fui amado e não amei...
(Imagem: banco de imagens Google)