Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Em algum canto de jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim
Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim
Poesia da casa – …de saudade…

Sou feita só de saudade.
Não sou massa nem sou visível.
Esse corpo fraco que ocupo não é meu.
Pairo sobre os mortais preocupados em viver.
Não tenho esses sentimentos de apego à vida
E muito menos de medo da morte.
Flutuo em um mundo de pesos-pesados
Não sei lidar com os humanos.
Porque minha essência é a saudade
Sou apenas sentimento.
E um único sentimento.
De saudade me alimento.
Com saudade adormeço
Por saudade amanheço
Só de saudade eu vivo
E de saudade hei de morrer.
(Imagem: óleo sobre tela, Maria Alice)
Amigos de uma vida, neste Dia Internacional do Livro (Memória)

Quando eu morrer o que será feito de meus livros?
Quem os olhará com orgulho,
Quem os manuseará com carinho?
Esses livros – companheiros de vida
que se foram somando e se deixando ficar,
estão comigo há décadas e décadas.
Por os ter, assim comigo, nunca senti solidão.
Quando eu morrer o que será feito de meus livros?
A quem interessará manter todos eles
assim juntos, numa ordem que só eu conheço?
Lidos e relidos a cada tempo certo
Trazendo tantas respostas
Fazendo companhia e dando conselhos
Não me deixando esquecer tantas tristezas
e proporcionando incontáveis alegrias
Quando eu morrer o que será feito de meus livros?
Não mais os poderei ter comigo
E nem sei a quem os deixar para adoção,
como filhos que não queremos ver separados
Eles estão juntos há tanto tempo
já se amoldaram uns aos outros para
dividirem o mesmo espaço. Tantas mudanças,
Tantas casas, tantas cidades, e eles comigo.
Sem ordem de preferência, todos amados.
Como garimpeira urbana eu os encontro
em sebos, livrarias, velhas bibliotecas abandonadas.
Alguns com a dedicatória do autor
Outros até mesmo com a capa estragada
Muitos vieram direto das lojas, novíssimos
Cada um traz sua história e sua verdade.
Um dia – cada vez mais próximo – terei de deixá-los
e partir na viagem sem nenhuma bagagem
Entristecida com a sorte de todos eles, eu pergunto:
Quando eu morrer o que será feito de meus livros?
Lembrança (Memória)
Esse texto foi escrito há mais de cinco anos… mas as lembranças continuam…
Dai-me, Senhor, a perseverança das ondas do mar, que fazem de cada recuo um ponto de partida para um novo avanço. (Gabriela Mistral)
Caminhando hoje ao longo das praias Pitangueiras e Astúrias, na altura das pedras que as separam, o mar dificultava a passagem, pela maré alta.
As fortes ondas traziam coroas de espuma tão branca que era um espetáculo quando se chocavam contra as pedras. Parei ali, para atravessar passo a passo só enquanto as ondas recuavam para nova investida.
Cenas de um passado muito distante voltaram-me à mente.
Um grupo de jovens entre 18 e 22 anos, todos amigos, alguns irmãos, outros namorados.
Todos apaixonados por praia, ficávamos horas entre a areia e os banhos de mar. Até o corpo não aguentar mais. Daí casa, banho, um cochilo, e rua de novo. Ser jovem é não sentir cansaço, ter disposição para tudo.
Reuníamo-nos na pizzaria. Era um festival de muitas pizzas, porque o apetite era enorme. E devorávamos tudo, e ainda sempre terminávamos com as infalíveis pizzas doces – califórnia, romeu e julieta, morango com chocolate. Hoje eu não comeria nenhuma. E, no máximo, como duas fatias de pizza básica. Mas aos 20 anos a história era outra…
Alimentados e felizes, era hora de ir para o apartamento da família da Sílvia, namorada do Fernando. Exatamente naquele ponto da cidade, onde as praias se dividem, no Edifício Sobre as Ondas.

E, luzes apagadas, sentados no chão, alguém tocando violão, todos cantando, fascinados deixávamos o tempo escoar enquanto olhávamos a força do mar, em ondas com brancas espumas, “entrando” sob o edifício para bater nas pedras.
Cada um seguiu seu caminho, Carlos se casou com Marta, Fernando com Silvia, uns casais se separaram, outros nem se formaram…
Mas a doce lembrança daquele tempo vadio, onde tudo era alegria, ficou cravado na saudade que não desaparece…
Cecília, sempre, Cecília Meireles.
Encostei-me a ti, sabendo que eras somente onda. Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti. Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino, frágil, Fiquei sem poder chorar quando caí. (Cecília Meireles) (Imagem: Banco de imagens Google)
Dia de Poesia – Sophia de Mello Breyner Andresen- Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.