Dia de poesia – Fernando Pessoa – Ela canta, pobre ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e alida
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
(Imagem: Campo de trigo com ceifeiras, Van Gogh, óleo sobre tela)
Poesia da casa – Alvorecer

Alvorecer
A hora mágica em que a madrugada se esvai
E o dia ainda não chegou
As cores mais lindas da natureza se exibem
Orgulhosas entre a primeira claridade e os
Primeiros raios de sol.
A aurora, clara como a lua, se aproxima
E põe fim, então à madrugada.
Madrugada
Quando os pensamentos se encontram
E o poeta sofre e chora entre seus versos
Momento em que o mundo, buscando a paz, respira tranquilo
Não há cores. Apenas o escuro do céu e algumas
Luzes de estrelas que teimam em brilhar,
Procurando amantes desgarrados
Que ainda estão nas ruas
Madrugada
Fim das noites de tristeza ou de alegria
Fim das festas e dos velórios
A troca dos turnos dos dias
Que se revezam com noites imensas
Tudo faces da mesma moeda
Calmaria no silêncio da natureza.
Alvorecer.
Instante único em que a madrugada se veste de branco
E traz de volta a esperança da vida
O último momento antes do raiar do dia
A alvorada dos pássaros em algazarra
O despertar da vida até então em repouso
A vida voltando a acontecer
E a saudade da madrugada que se foi
(Imagem: foto de Maria Alice)
Dia de poesia – Cecília Meireles – Improviso do Amor-Perfeito

Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.
Os sonhos foram sonhados,
e o padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?
Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda a vida.
Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?
Longe, longe, atrás do oceano
que nos meus olhos se alteia,
entre pálpebras de areia...
Longe, longe... Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor-Perfeito.
(Imagem: banco de imagens Google)
Poesia da casa – Eterna espera

E eu esperei.
Com a paciência de um pescador,
Sentei-me à beira-mar e esperei.
Por todos os séculos que você não voltou.
Assim eu esperei
Com a alegria de uma criança
Em meio a tantos brinquedos
Por todos os anos que você não voltou.
Então eu esperei
Com a confiança de uma mãe,
De madrugada no canto da sala,
Por todas as noites que você não voltou.
E eu ainda espero
Com a perseverança de uma mulher
Que apaixonada acredita em amar
Eu para sempre esperarei
Por todas as noites, anos e séculos,
Esperarei eternamente pela sua volta
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Manuel Bandeira – Rondó do capitão

Bão balalão,
Senhor capitão.
Tirai este peso,
Do meu corção.
Não é de tristeza,
Não é de aflição:
É só de esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
A aérea esperança...
Aérea, pois não!
- Peso mais pesado
não existe não.
Ah, livrai-me dele,
Senhor capitão!
(Imagem: banco de imagens Google)