Hoje, Dia Mundial da Poesia

Qual a mais bela poesia já escrita? – pergunto-me neste dia 21 de março, em que se comemora o Dia Mundial da Poesia.

Quem foi o maior poeta de todos os tempos? Algum famoso, algum anônimo, alguém muito famoso ou um ilustre desconhecido?

Há poesias belíssimas. Poesias feinhas. Poesias emocionantes. Poesias chatinhas… e nem toda poesia é poética… e alguns textos não poéticos que são verdadeiras poesias.

Não existe poeta sem poesia. Mas existe poesia sem poeta.

Porque o poeta apenas transcreve a poesia que existe em algum lugar – dentro ou fora dele.

A poesia está na alma, no sangue, no querer, no sofrer. E está no ar. No mar. Na natureza. Nas relações humanas. Nos sons. Nos céus.

Em todo lugar há poesia. Até na dor.

A ideia de uma Beatriz descendo do Paraíso para pedir ao poeta Virgilio que guie seu amado Dante para fora do inferno já é, em si, uma poesia  extrema.

E, depois da peregrinação pelos círculos do inferno, o ingresso e a passagem pelo Purgatório, com encontro de tantos conhecidos, finalmente o Poeta chega ao Paraíso, onde a alma de Beatriz o espera.

O amor de Beatriz o leva à redenção. O que de mais poético do que essa simples ideia?

Isso é poesia.

Exilado, para não ser queimado vivo em Florença, o poeta Dante se retirou para Ravena, onde faleceu e ali está seu túmulo. Entretanto, em Firenze, na lateral da nave da Basílica Santa Croce, foi construído um túmulo para ele, onde se encontra uma escultura que emociona: debruçada sobre a tumba, a Poesia chora a morte do Poeta, em um túmulo condenado a ser vazio…

Os sonetos de Camões. Por obra do fidalgo D. Gonçalo Coutinho, ocorreu a primeira homenagem ao grande poeta, agora já morto: em 1595 mandou preparar a primeira edição da lírica do poeta e ordenou que seus restos mortais fossem transladados para a nave central da Igreja de Sant’Anna, onde repousam sob a lápide com a inscrição “Aqui jaz Luís de Camões, Príncipe dos poetas de seu tempo: viveu pobre e miseravelmente e assim morreu. Esta campa lhe mandou aqui pôr D; Gonçalo Coutinho, na qual se não enterrará pessoa alguma”. Depois do desmoronamento da referida Igreja, no terremoto de 1755, seus restos mortais acabaram sendo transferidos para Lisboa, onde repousa no Mosteiro dos Jerônimos, ao lado do túmulo de D. Sebastião. (Fonte: Até que o amor me mate, de Maria João Lopo de Carvalho).

E tantos os poetas, e tantas as poesias.

Neste dia mundial da poesia deixo aqui um soneto, poesia na mais pura forma, escrito pelo insuperável Luís Vaz de Camões,  um dos maiores escritores de língua portuguesa e ainda, um dos maiores representantes da literatura mundial, mundialmente conhecido, escrito para usa amada prematuramente falecida:

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

(Imagens: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Estranho amor

Vivendo na madrugada

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Madrugada. A hora mais escura na noite, que precede o amanhecer. A hora em que o mundo se cala. Ouço o silêncio, às vezes quebrados pelos metais e pedras dos mensageiros do vento se chocando no embalar da brisa. Como um chocalho a embalar a criança que resiste dentro de mim.

Madrugada não foi feita para dormir. Mas para pensar. Sonhar acordada.

São vários conjuntos, nem todos sonoros, ao redor da minha varanda. De todas as formas – golfinhos, sinos, borboletas, pedras, pássaros, mandalas, estrelas; feitos de pedras variadas, de cobre, de madeira, de vidro… cada um com sua beleza.

Quando um deles vem me chamar na madrugada e me transporta para meu outro mundo, saio de mim e o sigo numa jornada única, partilhada entre mim e minha alma.

E atravesso o portal do tempo, da distância, da vida e do querer.

Por algumas horas, antes que o sol quebre esse encanto, renasço na alegria de existir, na companhia da solidão amiga, no regresso a mundos onde nunca fora antes.

Meus mensageiros trazem até mim quem está longe, quem partiu, quem não está. E vozes, e luzes, e cantos e carinhos há tanto já perdidos.

Brincamos de roda, cantamos ritmos, tudo envolto no mais absoluto e solene silêncio da madrugada. Nessas horas, em que estou mais viva do que durante o dia, sinto o prazer da vida, ab pelo escuro e pelo silêncio.

E, quando a brisa os avisa que está partindo antes que a aurora a flagre desarrumando a ordem da noite, eles se calam, minha alma volta para mim, e então adormeço, até o raiar do novo dia.

(Imagem: Foto de Maria Alice)

Os desvãos do nada

Trinta raios convergem para o meio de uma roda

Mas é o buraco em que vai entrar o eixo que a torna útil.

Molda-se o barro para fazer um vaso;

É o espaço dentro dele que o torna útil.

Fazem-se portas e janelas para um quarto;

São os buracos que o tornam útil.

Por isso, a vantagem do que está lá

Assenta exclusivamente na utilidade do que lá não está.

(TaoTe Ching, cap. 11)

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Quando o nada é o que preenche, a utilidade está no não-espaço, enxergamos outro lado da realidade.

Nosso concreto, nosso visível, tátil, sensível, já não se impõe. Atravessamos o espelho e vemos o outro lado – exatamente o abstrato, o que não vemos, não sentimos, e encontramos conforto nessa outra realidade.

Quantas vezes nos agarramos ao que existe, enquanto, na verdade, queríamos apenas o que não está lá fisicamente.

Vivemos uma vida de apego ao material. Ao que vemos. Ao que podemos ostentar. Ao que sentimos, ao que podemos dividir. Ao que pegamos, ao que podemos exibir. Sem perceber que o mais importante era o nada, o vão, o intangível. E não damos importância ao que realmente nos marca, nos alegra, nos toca e nos emociona.

Os detalhes valem mais que o todo. Os desvãos contam os segredos . Onde nada se mostra, tudo existe.

O que dói não são as lágrimas que vemos. Mas a dor invisível que as causou.

O que importa não são os braços, mas os abraços.

Um dia, apenas a ausência será a nossa companhia.

O que fica não é a presença, mas a saudade.

E o nada, o que mais nos preenche.

(Foto: Stock Photo)