
Por hoje

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


O tempo passou e ela não usou aquele vestido,
Deixou guardado pra aquela ocasião,
Que nunca aconteceu,
O tempo passou e ela nao ousou com aquele esmalte,
Não fez aquele curso,
Não escreveu aquela memória,
Não arriscou, não tentou, não pagou pra ver...
O tempo passou e ela não leu aquele livro,
Nunca começou a caminhada,
Não mudou o cabelo,
Não comprou o tal creme...
Havia sempre alguém pra cuidar,
Alguém que não ela,
Alguém que precisava,
Mais que ela,
Outra prioridade.
"Depois faço",
"Depois vejo",
"Depois penso",
O depois era ela,
E nunca chegou,
Ela nunca chegou pra ela, nela, com ela, por ela.
O tempo passou e o depois ficou distante...
Ela não tinha mais a mesma força,
Os mesmos sonhos,
As mesmas pernas pra subir a ladeira...
Ela se deixou e o tempo chegou antes,
Muito antes do depois.

Duas almas são predestinadas quando tem uma missão a cumprir juntas, e assim, por ter sido um encontro marcado lá do outro lado, onde pactuaram voltar, para se encontrarem e realizar determinada missão, sendo assim, quando as almas se encontram, tudo pode acontecer, podendo haver a explosão do amor não vivido em outras vidas.
Este amor chega sem ter dia marcado ou momento marcado para acontecer.
Simplesmente chega, e se instala, criando uma verdadeira orgia de sentimentos alegres, que modificam todos os propósitos e conceitos até então firmados.
O encontro de duas almas tem como foco principal, não a aparência física, mas a afinidade entre elas existente, e o que o Destino a elas destinou, como o porque e o quando tudo deve acontecer.
Existem momentos de tristeza, causada por uma dúvida que machuca, que gostaria de saber o porque de não se terem encontrado antes, ainda mais quando o momento desse encontro acontece quando não é mais possível extravasar toda a plenitude do amor que trazem, quando não é mais possível viver a alegria de amar e querer compartilhar a vida com o outro.
Enfim, como essas almas se sentem sem a possibilidade de realizar este amor em total plenitude, o que causa um inexplicável sentimento de saudade de algo que não foi vivido.
Uma saudade doída de algo vivido em outras vidas, saudade daquilo que poderia ter sido, mas que por alguma razão não o foi.
Reconhecem porém que não haverá retorno para suas pretensões, e mesmo estando distantes, entendem a alegria, a tristeza, o querer um do outro.
Estas almas falam além das palavras, e aliás, delas não precisam, pois se comunicam, se encontram, se amam pelo éter, pelo espaço sideral. São encontros etéricos.
Se o reencontro ocorrer no tempo certo, estas almas afins se entrelaçam e buscam a forma de juntas ficarem, num processo contínuo de reaproximação até a consumação do resgate daquilo que vieram cumprir.
Se diferente for, se o reencontro ocorre num espaço tempo diferente do que suas realidades possam permitir, ainda assim estas almas ficam marcadas, e nunca conseguirão se separar, mesmo que os corpos se separem, elas continuarão a se sentir, pois almas que assim se encontram não mais se sentirão sozinhas, pois reconhecerão a necessidade que têm uma da outra para toda a eternidade.
São almas que atravessam os tempos, as muitas passagens, buscando o resgate final de seu amor, até que em determinada passagem conseguem cumprir o resgate, tendo então seu descanso final.

Quando o dia se esvai, tudo é silêncio,
e a noite, suave, traz a lua e seu encanto
na hora em que nada mais se espera,
penso em tudo enquanto penso em nada;
eu me recolho no vazio de minha alma,
para deixar fluir toda essa ternura
e sonhar que não há tristezas na vida
e ter a certeza de que estamos juntos.
Que vontade eu sinto de você,
que saudade eu sinto de nós dois;
venha me tocar do jeito que só você me tocou,
venha me falar as palavras que só você já falou,
venha, meu amor, ser meu ninho e serei seu aconchego,
venha me amar da forma que nunca ninguém me amou.
(Imagem: foto de Carlos Eduardo Ferreira)
Senhor, não permita que eu seja um cordeiro perante os fortes, nem um leão perante os fracos.

Incessante, incansável, o mar canta em frente de minha casa, noite e dia, dia e noite. Espetáculo por si só, sua presença, sua cor, sua forma, seu movimento; tudo encanta.
Mistério insondável, de onde vem tanta água, tanta força, tanto equilíbrio? Uma imensa superfície, uma evaporação desmedida, mas não diminui seu volume. E a chuva não o aumenta.
Onde está a aquarela com a qual se tinge, periodicamente – águas azuis, águas verdes, águas cinzentas, águas marrons. Será que muda a cor conforme o humor?
E a altura das ondas, por vezes tão baixinhas, tão mansas, que nos convidam a caminhar mar adentro; outras vezes, tão altas, tão fortes que nos expulsam logo nos primeiros passos.
Caminho horas à beira-mar e nem a atração, nem o encantamento diminuem com o passar dos dias.
A primeira ação, ao acordar, tornou-se abrir a janela e olhar para o mar. É uma graça divina morar neste lugar, poder admirar o mar, desde o acordar até a hora de dormir novamente. Sempre ouvindo seu canto de paz.
Bálsamo da alma e do corpo, esse presente divino me prende definitivamente nesta cidade, já não consigo ficar muitos dias fora daqui, sinto falta do mar, da imagem do mar, do cheiro do mar, de seu marulho.
Quando dele me distraio, ele se agiganta e levanta ondas de um verde-esmeralda transparente, coroadas de espumas tão brancas, que é impossível permanecer indiferente. Então, deixo o que estou fazendo e fico olhando para ele, cheia de paixão e de admiração.
Nada sou diante do mar; pouco mais que um grão de areia, um bichinho terrestre que se quer marítimo, insignificante, que poderia ser tragado de imediato ao me aproximar, mas ele brinca comigo, puxa, faz de conta que vai me levar, mas me devolve.
Como se fosse um cavalheiro às antigas, que corteja, que requesta, mas só pelo prazer de arrastar a dama, não para levá-la consigo de vez.
E eu me deixo levar, qual namorada apaixonada, solto-me em seu regaço e delicadamente ele me traz e me deposita sobre a areia, sua constante guardiã.
Talvez um dia ele se apaixone por mim e me leve para suas profundezas…
(Imagem: foto de Maria Alice)

Que l’importance soit dans ton regard, non dans la chose regardée. (André Gide)
Na alucinante correria de todas as manhãs não teve tempo para verificar por que se sentia tão estranha.
Levantou-se num salto, trocou-se sem tempo de se olhar no espelho. Arrumou a mesa correndo enquanto pilotava o fogão, preparando a preferência de cada membro da família.
Não que alguém fosse perceber tudo isso, mas, se algo faltasse, seria notado de imediato. Enquanto tudo funcionava como sempre foi e como achava que sempre deveria ser, ninguém a notava nem a incomodava também.
Realmente só era notada pelo não fazer, pelo mau funcionamento; nunca pelo fazer, pelo proporcionar à família. Só se dirigiam a ela para cobrar: – Cadê minha bolsa / meus óculos / minhas chaves? ou – Você NÃO comprou meus cereais / NÃO lavou meu tênis / NÃO passou minha camisa?
Fora ela própria, há muito coisificada no relacionamento familiar, porém já não se importava – doera intenso, mas agora pouco incomodava.
Entretanto, nessa manhã em especial, continuava a se sentir de forma estranha. Era como se ninguém a enxergasse.
Tentou ir até a janela. Não conseguiu sair do lugar. Estava presa ao batente. Duas ou três dobradiças a prendiam.
O Filho tentou passar e se sentiu ameaçado por sua posição; violentamente, empurrou-a com o pé.
– O que foi? – perguntou o Pai.
– Esta droga dessa porta que nem abre nem fecha, fica no meio do meu caminho, até parece minha mãe… – respondeu o Filho.
– Acerte-lhe um bom chute, que ela logo encontra seu lugar. – disse o Pai.
Quis chorar, mas não conseguiu ao descobrir que amanhecera transformada em porta. Portas abrem e fecham; não choram…
(Imagem: banco de imagens Google)