
Porque hoje, 19 de outubro, é o aniversário dele!
19 de outubro
Dia de celebrar o amor. O romance. O desejo. A paixão.

19 de outubro – dia do amor. Dia de Vinicius de Moraes. Um Poeta, talvez maior que a própria poesia. Um homem feito só de poesia…
Aquilo que eu ouso Não é o que quero Eu quero o repouso Do que não espero. Não quero o que tenho Pelo que custou Não sei de onde venho Sei para onde vou. Homem, sou a fera Poeta, sou um louco Amante. Sou pai. Vida, quem me dera... Amor, dura pouco... Poesia, ai!... (Anfiguri)
Dia de celebrar Vinicius, com seu poema mais pueril… e conseguimos ouvir o som de cada integrante do diálogo.
Quem foi, perguntou o Celo Que me desobedeceu? Quem foi que entrou no meu reino E em meu ouro remexeu? Quem foi que pulou meu muro E minhas rosas colheu? Quem foi, perguntou o Celo E a Flauta falou: Fui eu. Mas quem foi, a Flauta disse Que no meu quarto surgiu? Quem foi que meu deu um beijo E em minha cama dormiu? Quem foi que me fez perdida E que me desiludiu? Que, foi, perguntou a Flauta E o velho Celo sorriu. (Trecho)
Basta fechar os olhos. Vinicius conseguia essa mágica: nos faz ouvir o mar, nos faz enxergar o balançar das ondas, nos faz ouvir o som de instrumentos, nos faz enxergar uma cadeira balançando…
Homem sentado na cadeira de balanço Sentado na cadeira de balanço Na cadeira de balanço De balanço Balanço do filho morto. Homem sentado na cadeira de balanço Todo o teu corpo diz que sim Teu corpo diz que sim Diz que sim Que sim, teu filho está morto. Homem sentado na cadeira de balanço Como um pêndulo, para lá e para cá O pescoço fraco, a perna triste Os olhos cheios de areia Areia do filho morto. ................................................................. (Homem sentado na cadeira de balanço)
E brinca com os animais, dando-lhes participação na sua humana existência.
Para que vieste Na minha janela Meter o nariz? Se foi por um verso Não sou mais poeta Ando tão feliz! Se é para uma prosa Não sou Anchieta Nem venho de Assis. Deixa-te de histórias Some-te daqui! (A um passarinho)
E nos traz um lirismo que desperta todas as emoções.
Por seres quem me foste, grave e pura Em tão doce surpresa conquistada Por seres uma branca criatura De uma brancura de manhã raiada Por seres de uma rara formosura Malgrado a vida dura e atormentada Por seres mais que simples aventura E menos que a constante namorada Porque te vi nascer de mim sozinha Como a noturna flor desabrochada A uma fala de amor, talvez perjura Por não te possuir tendo-te minha Por só quereres tudo, e eu dar-te nada Hei de lembrar-te sempre com ternura. (Soneto da Quarta-feira de Cinzas)
Da mesma forma que consegue nos despertar o sentimento do amor mais verdadeiro, mais completo…
Maior amor nem estranho existe Que o meu, que não sossega a coisa amada E quando a sente alegre, fica triste E se a vê desconte, dá risada. E que só fica em paz se lhe resiste O amado coração, e que se agrada Mais da eterna aventura em que persiste Que de uma vida mal-aventurada. Louco amor meu, que quando toca, fere E quando fere vibra, mas prefere Ferir a fenecer – e vive a esmo Fiel à sua lei de cada instante Desassombrado, doido, delirante Numa paixão de tudo e de si mesmo (Soneto do Maior Amor)
E ele, somente ele, o Grande Poetinha, nos leva a nos desmancharmos de paixão intensa, sentir vibrar cada fibra de nosso corpo.
Amo-te tanto, meu amor... não cante O humano coração com mais verdade... Amo-te como amigo e como amante Numa sempre diversa realidade Amo-te afim, de um calmo amor prestante, E te amo além, presente na saudade. Amo-te, enfim, com grande liberdade Dentro da eternidade e a cada instante. Amo-te como um bicho, simplesmente, De um amor sem mistério e sem virtude Com um desejo maciço e permanente. E de te amar assim muito e amiúde, É que um dia em teu corpo de repente Hei de morrer de amar mais do que pude. (Soneto do amor total)
Assim era Vinicius. O de Moraes…
Imortal, infinito, eterno.
Impossível deixar passar 19 de outubro sem comemorar Vinicius. Saravá, meu ídolo, meu Poeta maior!
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de Poesia – Álvaro de Campos – O futuro

Sei que me espera qualquer coisa Mas não sei que coisa me espera. Como um quarto escuro Que eu temo quando creio que nada temo Mas só o temo, por ele, temo em vão. Não é uma presença: é um frio e um medo. O mistério da morte a mim o liga Ao brutal fim do meu poema.
(Imagem: banco de imagens Google)
Poesia da casa – Se pretende voltar

Não tranque as portas nem levante muros. Não destrua as pontes nem apague os caminhos. Deixe seus sinais nos lugares por onde passar Deixe sempre boas lembranças nas pessoas. Conserve suas trilhas abertas e os atalhos limpos. Porque um dia você se foi, fechou a porta e partiu. Atravessou tantas pontes, cruzou algumas fronteiras, Passou até mesmo por lugares impensados. Encontrou tantos desconhecidos que chamou de amigos Seguiu por trilhas surpreendentes, atalhos perigosos. Mas você foi. Deixou tudo para um dia ir. Nada o atraiu. Nada o chamou. Nada o prendeu. E poderá, por isso, um dia querer voltar. E, num ímpeto, em sentido contrário caminhará, Buscando o inverso das trilhas, a bifurcação dos atalhos Revendo aquelas mesmas pessoas pelas quais passou E passará as mesmas fronteiras, atravessará as mesmas pontes, Voltando pelo mesmo exato caminho pelo qual um dia foi, Até encontrar aquela mesma porta por onde então saiu. Nem precisará bater, se você não a trancou quando se foi. Bastará empurrá-la, e entrar, quando voltar.
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Hilda Hilst – XI (in “Cantares de Perda e Predileção)

Faremos deste modo Para que as mãos não cometam Os atos derradeiros: Envolveremos as facas e os espelhos Nas lãs dobradas, grossas. E de alongadas nódoas, o ressentimento. Pintadas as caras num matiz de gesso Recobriremos corpo, carne Na tentativa cálida, multiforme Na rubra pastosidade De um toque sem sofrimento. E afinal Cara a cara (espelho e faca) De nossas duplas fomes Não diremos.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Sua mãos (Memória)

Busco suas mãos.
Eu as busco no conhecido e no desconhecido. No finito e no infinito. Na tristeza e na alegria.
Se tenho de atravessar um lindo campo, florido e iluminado, busco suas mãos. Para que você venha comigo, aproveitar desse momento único. Se estou em perigo, sem enxergar, correndo riscos, são elas que procuro para ter força e coragem, pois nelas eu confio.
Ao longo dessa vida busco suas mãos. Para todos os momentos. Para que guiem, sustentem, toquem e acariciem. Da mesma forma as buscarei no infinito, porque a morte não é o fim de um amor. O infinito é logo ali, fica atrás da cortina dessa existência, e lá estaremos juntos – um dará ao outro a mão na hora de atravessar o espelho.
Na tristeza só quero suas mãos. Quero suas mãos me afagando os cabelos, me abraçando e me fazendo acreditar que tudo vai passar. E, quando a alegria dominar novamente, serão suas mãos que buscarei, para nos tocarmos com paixão, e nos completarmos levando à comunhão das almas todo o aconchego que nossas mãos já deram aos corpos.
Por isso busco suas mãos. Hoje, aqui, amanhã, aí, antes, sempre e depois.
Busco suas mãos. Dê-me suas mãos. E vamos juntos conhecer a felicidade de amar.
(Imagem: banco de imagens Google)