Poesia da casa – Férias de mim

Vou tirar férias de mim. Vou tirar férias de tudo. Jogar os sapatos pro alto, tirar as pilhas dos relógios. Desligar o telefone, a campainha Dispensar a entrega de jornal Perder as chaves do carro Esquecer de abrir os portões. Afofar os travesseiros, encomendar muito sol. Ficar sem mala nem bolsa Não pensar, não querer, não ouvir. E assim ficarei trinta dias Ausente de tudo e de mim. E se lá estiver muito bom, Quem sabe não volto mais, não.
(Imagem: foto de Nelson O’Reilly Filho)
Falta de assunto

Eclipse de luna en el cielo / Ausencia de luz en el mar / Muy solo con mi desconsuelo / Mirando la noche me puse a llorar. (Lecuona)
Há dias em que é difícil escrever. Há ideias, no entanto tudo o que se escreve parece tão sem sentido.
E sem sentido no mau sentido. Porque muitas ideias que parecem malucas, postas no papel e bem desenvolvidas resultam em ótimos textos, ainda que sem sentido. E aqui sem sentido no bom sentido.
Às vezes penso que Garcia Marquez começava a escrever sem nenhuma ideia e as palavras iam saindo por livre vontade e se juntando, formando linhas, capítulos e livros.
E depois que o lemos nunca mais podemos esquecer seus personagens, de tão marcantes que são – um exemplo são os membros da família Arcadio Buendia, da cidade de Macondo, as mulheres fantásticas dessa família, o cigano Melquíades, todos de Cem Anos de Solidão.
E assim outros romancistas que nos fascinam com suas estórias absolutamente fantásticas, mas de tamanha consistência que não conseguimos parar de ler antes do final.
Mas, para quem não é escritor, apenas se aventura a alinhavar letras desafiando a falta de talento, não é assim tão fácil. Nem simples.
Por mais palavras que se joguem no papel, nada surge. E aí aparece a maior indagação da humanidade, referente à origem de tudo, porque se do nada nada surge, de onde surgimos nós?
O que era antes? o que será depois? de onde eu vim? para onde eu vou? E a pior de todas: onde eu estou?
Em torno dessas indagações é possível passar dias e noites (especialmente noites, principalmente em redor de uma mesa bem frequentada, com cervejinha ou bom uísque, alguns petiscos etc.). É a delícia dos filósofos de botequim, categoria a que me orgulho de ter pertencido por largos anos. Ótimos anos. E as duas últimas perguntas eram inevitáveis para aqueles que não conseguiam parar de beber quando ainda podiam se localizar no tempo e no espaço. Nessa categoria, felizmente, eu não me incluía.
Mas, como na vida tudo passa (nas palavras do amigo Ivan, especialmente o tempo e o ferro, que são os que mais passam), também meus tempos de botequim se acabaram, os filósofos companheiros de copo e de mesa se desfizeram no ar e sumiram na vida e se tornaram doces lembranças.
E assim, da falta de ideia e da falta de assunto, de vez em quando dá até para arriscar escrever uma crônica.
(06/05/09)
(Imagem: foto de Maria Alice)
(06/05/09)
Poesia da casa – Pobre

Sempre fui tão pobre, que nada peço de ti Nunca quis ter de ti senão o teu amor Não eram teus olhos que eu sempre quis ter Apenas buscava para mim o teu olhar Porque se pouco precisava que me desses Nunca pretendi ter tua boca nem teus braços Mas sempre sonhei a cada dia, a cada hora Ter para mim os teus beijos, teus abraços Não queria ter por minhas tuas mãos, só teus carinhos Não queria teus lábios, mas sempre os teus sorrisos E ser sempre a razão de seguires teus caminhos Nessa pobre existência tão sofrida Não quis ter teu coração, mas teu amor Nem teu corpo ou tua alma – só tua vida
(Imagem: banco de imagens Google)
Texto de Martha Rivera Garrido – Não te apaixones

Não te apaixones por uma mulher que lê, por uma mulher que tem sentimentos, por uma mulher que escreve…
Não te apaixones por uma mulher culta, maga, delirante, louca. Não te apaixones por uma mulher que pensa, que sabe o que sabe e também sabe voar, uma mulher confiante em si mesma.
Não te apaixones por uma mulher que ri ou chora quando faz amor, que sabe transformar a carne em espírito; e muito menos te apaixones por uma mulher que ama poesia (estas são as mais perigosas), ou que fica meia hora contemplando uma pintura e não é capaz de viver sem música.
Não te apaixones por uma mulher que está interessada em política, que é rebelde e sente um enorme horror pelas injustiças. Não te apaixones por uma mulher que não gosta de assistir televisão. Nem de uma mulher que é bonita, mas, que não se importa com as características de seu rosto e de seu corpo.
Não te apaixones por uma mulher intensa, brincalhona, lúcida e irreverente. Não queiras te apaixonar por uma mulher assim. Porque quando te apaixonares por uma mulher como esta, se ela vai ficar contigo ou não, se ela te ama ou não, de uma mulher assim, jamais conseguirás ficar livre..
Poesia da casa – Anoitece

Quando o dia se esvai, tudo é silêncio,
e a noite, suave, traz a lua e seu encanto
na hora em que nada mais se espera,
penso em tudo enquanto penso em nada;
eu me recolho no vazio de minha alma,
para deixar fluir toda essa ternura
e sonhar que não há tristezas na vida
e ter a certeza de que estamos juntos.
Que vontade eu sinto de você,
que saudade eu sinto de nós dois;
venha me tocar do jeito que só você me tocou,
venha me falar as palavras que só você já falou,
venha, meu amor, ser meu ninho e serei seu aconchego,
venha me amar da forma que nunca ninguém me amou.
(Imagem: banco de imagens Google)