Lembrete

Poesia da casa – Sem depois

Náufragos do eterno desejo do amor Você espera que eu lhe dê um depois Que haja uma história para juntos vivermos Mas se nem para mim eu tenho esse depois, Como o poderia dar ou prometer a você? Naufrágio de minha vida, só escombros Vivo no agora da areia antes da onda do mar Que tudo apaga, tudo leva, tudo destrói Antes do vento forte vindo de qualquer lado Que tudo desmancha, tudo carrega, de tudo dispõe Naufrágio do meu amor, só saudades Não tenho esse depois para oferecer Não tenho um futuro para programar Sou o agora, sou apenas esse instantâneo, Simplesmente sou o que não permanece Naufrágio do meu passado, só lembranças De tudo o que não ficou, passou com o tempo Que não perdoa, não volta e não permite E nos deixa, sem norte, sozinhos no escuro Na eterna noite dos desamados Náufragos de um depois que não existe Venha sonhar comigo por alguns tempo Segurar por um fugidio instante a sensação de viver E gozar da vida sem depois, a vida-agora E ser feliz no instante presente, sem futuro Náufragos de nós mesmos, só distância Venha voar comigo e desfrutar esse instante De saber que podemos viver sem o controle da vida Conhecer a beleza da paixão sem cobranças E o encanto de viver um grande amor sem depois...
(Imagem: foto de J.F. Michelet)
Dia de poesia – Mia Couto – Aprendiz de ausências

Morrer como quem deságua sem mar e, num derradeiro relance, olha o mundo como se ainda o pudesse amar. Morrer depois de me despedir das palavras, uma a uma. E no final, descontada a lágrima, restar uma única certeza: não há morte que baste para se deixar de viver.
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de saudade e poesia – (43 anos sem) Vinicius de Moraes – Os inconsoláveis

Desesperados vamos pelos caminhos desertos
Sem lágrimas nos olhos
Desesperados buscamos constelações no céu enorme
E em tudo, a escuridão.
Quem nos levará à claridade
Quem nos arrancará da visão a treva imóvel
E falará da aurora prometida?
Procuramos em vão na multidão que segue
Um olhar que encoraje nosso olhar
Mas todos procuramos olhos esperançosos
E ninguém os encontra.
Aos que vêm a nós cheios de angústia
Mostramos a chaga interior sangrando angústias
E eles lá se vão sofrendo mais.
Aos que vamos em busca de alegria
Mostramos a tristeza de nós mesmos
E eles sofrem, que eles são os infelizes
Que eles são os sem-consolo...
Quando virá o fim da noite
Para as almas que sofrem no silêncio?
Por que roubar assim a claridade
Aos pássaros da luz?
Por que fechar assim o espaço eterno
Às águias gigantescas?
Por que encadear assim à terra
Espíritos que são do imensamente alto?
Ei-la que vai, a procissão das almas
Sem gritos, sem prantos, cheia do silêncio do sofrimento
Andando pela infinita planície que leva ao desconhecido
As bocas dolorosas não cantam
Porque os olhos parados não veem.
Tudo neles é a paralisação da dor no paroxismo
Tudo neles é a negação do anjo...
...são os Inconsoláveis.
(Imagem: banco de imagens Google)
Passado – ou sempre presente?

O que é o passado? Aquele passado que não sai da mente, do sentimento, da vontade…
Aquele passado que a saudade faz ser presente…
Se você lê um livro, acaba cada capítulo, vira a página, e o capítulo é passado.
Não estará esperando, páginas à frente, para ser relido. Leu. Acabou. Passou.
Você está viajando, em cada cidade do caminho há um trevo. Você passa pelo trevo e a cidade ficou lá atrás.
Não estará alguns quilômetros à frente esperando na beira da estrada. Passou. Acabou.
Mas a vida, ahhhhh, na vida não existe passado. Há fatos vividos, mas não passados.
Você vive. Pensa que acabou. Que seguiu em frente.
Mas, de repente, lá está o acontecimento martelando na mente, no coração, na saudade, no hábito… e você revive tudo – uma, duas, dez, vinte vezes. E, se engraçado, ri de novo. Se triste, chora como se tivesse acontecido nesse instante.
E vê que não passou. Está tudo vivo, em brasa, ainda que sob algumas cinzas, dentro do coração. O coração, traiçoeiro, mistura tudo dentro de nós. E a mente, maliciosa, traz de volta o que você queria ter esquecido.
Então você chega à conclusão de que, na vida, não existe passado. Você vive a mesma sensação tantas vezes quantas o coração e a memória a trouxerem à tona.
Não há passado. Há calendários e datas, regulando o tempo.
Mas, dentro de nós, tudo é sempre presente.
(Imagem: banco de imagens Google)