Texto de Martha Rivera-Garrido – Não te apaixones

Não te apaixones por uma mulher que lê, por uma mulher que sente demais, por uma mulher que escreve…

Não te apaixones por uma mulher culta, maga, delirante, louca.

Não te apaixones por uma mulher que pensa, que sabe o que sabe e além disso sabe voar; uma mulher segura de si mesma.

Não te apaixones por uma mulher que ri ou chora fazendo amor, que sabe transformar em espírito a sua carne; e muito menos te apaixones por uma que ame a poesia (essas são as mais perigosas), ou que fique meia hora contemplando uma pintura e não saiba viver sem a música.

Não te apaixones por uma mulher que se interesse por política e que seja rebelde e tenha um imenso horror com as injustiças.

Não te apaixones por uma mulher que não gosta de assistir televisão. Nem por uma mulher que é bonita, mas que não se importa com as características do seu rosto e do seu corpo.

Não te apaixones por uma mulher intensa, brincalhona, lúcida e irreverente.

Não queiras te apaixonar por uma mulher assim.

Porque quando te apaixonares por uma mulher como essa, jamais conseguirás ficar livre.

Memória – Há dois anos…

A água e o rio

Era como se fosse a primeira vez que via o rio. Mas, na verdade, todos os dias olhava para ele, andava em suas margens, atravessava suas pontes. Há muito tempo morava ali.

Olhou com encantamento toda aquela água que descia cantando, enchia o ar com seus sons, trazia de tudo – madeira, flores, lixo, e tudo o que encontrasse pelas margens.

Parou no meio da ponte. Havia algo diferente hoje. Não era o mesmo rio de sempre.

Não conseguia identificar o que estava mudado. Seus olhos eram os mesmos. Seus ouvidos também. O que havia de diferente no rio, que parecia ser a primeira vez que o via?

Recostou-se na amurada, e olhou a água que vinha. Tão límpida, tão decidida, sabia seu destino e se atirava com coragem e alegria. Descia em busca da foz. Nada a detinha.

Passava por baixo das pontes, por cima das pedras, contornava todos os obstáculos, mas sabia que chegaria a seu destino sem nada temer.

Depois atravessou a pequena ponte e olhou a água que ia.

Mansamente, sem atropelo nem angústia, ela seguia seu curso tranquilamente, levando em seu dorso as luzes do dia e as dores dos homens que do rio viviam e dele dependiam.

O rio sempre seguia. Dia e noite sem cessar, o rio fluía com a doçura de aceitar seu destino de seguir sempre até encontrar o mar.

Desceu até a beira do rio, e molhou as mãos. Sentou-se e ali ficou, pensando na vida, no dia que começara com tantos problemas. A briga em casa logo cedo. Decidiu ir embora para sempre. Chegou no emprego e encontrou tudo fechado, lacrado, os funcionários inquietos, nenhum responsável no local. Falaram em fraude fiscal. Não sabia o que aconteceria. Resolveu sair dali e ir caminhar.

À medida em que se afastava de casa e do emprego, sentia uma sensação desconhecida, como se outra pessoa estivesse surgindo em seu âmago.

Quando chegou na velha ponte que atravessava todos os dias, viu outro rio. Tudo era novidade. Começou então a entender que na verdade era uma nova pessoa. Rompera os grilhões de um relacionamento falido, estava fora de um emprego sufocante. Agora finalmente respirava o que os outros chamavam de liberdade.

Voltou perto da água e tornou a molhar as mãos para lavar o rosto. E entendeu que era uma nova água. A água que vira da ponte, a água em que molhara as mãos, eram outras águas. Essa em que agora tocava era uma nova água, que se renovava a cada instante. Porque não se deixava, jamais, aprisionar, e, uma vez passada, não voltava para passar novamente pelos mesmos obstáculos, pelas mesmas dificuldades. Apenas ia. Não parava nem voltava.

Olhou seu reflexo na água que seguia e compreendeu o destino de quem é livre.

De outras saudades

Não gosto de passarinho. Não gosto de violão. Não gosto de nada que põe saudades na gente.(Guimarães Rosa)

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Como não meditar ao ler essa frase de Guimarães Rosa? Ao primeiro momento, choca – “Não gosto de passarinho”. Como assim? Existiria um único ser humano em toda a história da humanidade que não gostasse de passarinho? Não imagino que isso possa ser possível.      

E ele continua: “Não gosto de violão”. Bem, quanto aos instrumentos e seus sons, cada qual tem sua preferência. Pode ser momentânea, pode ser permanente, mas sempre se gosta mais de um, o som de algum é mais agradável.      

Então ele completa: “Não gosto de nada que põe saudades na gente”.     Ah, agora faz sentido.

Quando a passarada canta ao alvorecer, traz de volta lembranças de tantos outros dias amanhecendo, que se foram, que se queria reter entre os braços, nas mãos, ou nos olhos, mas só se pode reter na lembrança.    

E o violão, ao anoitecer, quando as cordas choram canções de amores perdidos, despertam em todos outras emoções causadas por suas próprias perdas.     

Tudo isso dói.    

Então concluo que Guimarães Rosa gostava, sim, de passarinhos e violão. Mas sofria com a saudade que esses lhe traziam de volta e o peito doía na saudade do que perdeu.     

Carregamos nossas saudades tão bem guardadas, tão escondidas, mas um som, uma música, um rua, uma praça, uma quase-nada as desperta e elas tomam força, nos invadem e nos fazem sofrer até a última gota. Temos de assumir nossas saudades e as lágrimas que elas nos causam. Se temos saudade, tivemos alegrias, amores, paixões, momentos que valeram a pena. Mesmo doendo, elas dão o prazer de trazer à lembrança a felicidade que se foi.    

Ele, Guimarães Rosa, amava passarinhos e violão. Tanto que despertava na alma as saudades mais doloridas.

É carnaval! (5)

E chegamos na terça-feira de carnaval, ou terça-feira gorda…

Quinto e último dia de marchinhas, para tentar dar um som de carnaval a este estranho ano em que não houve carnaval.

Entre exaustos e já saudosos tínhamos a última noite de carnaval.

Na qual se dançava com alegria redobrada, porque demoraria um ano para o próximo, porque, para todo carnaval, sempre há uma quarta-feira de cinzas… 

E as marchinhas rendiam mais uma noite de foliões animadíssimos.    

Oh, jardineira, por que estás tão triste?
Mas o que foi que te aconteceu?
Foi a camélia que caiu do galho
Deu dois suspiros e depois morreu
Foi a camélia que caiu do galho
Deu dois suspiros e depois morreu

Oh, jardineira, por que estás tão triste?
Mas o que foi que te aconteceu?
Foi a camélia que caiu do galho
Deu dois suspiros e depois morreu
Foi a camélia que caiu do galho
Deu dois suspiros e depois morreu

Vem, jardineira! Vem, meu amor!
Não fiques triste que este mundo todo é seu
Tu és muito mais bonita
Que a camélia que morreu

E chegava a hora de o baile se acabar, da despedida daquele carnaval…

Quem parte leva
Saudade de alguém,
Que fica chorando de dor
Por isso, não quero lembrar
Quando partiu meu grande amor

Quem parte leva
Saudade de alguém
Que fica chorando de dor
Por isso, não quero lembrar
Quando partiu meu grande amor

Ai ai ai ai, tá, chegando a hora) a hora
O dia já vem raiando, meu bem
Eu tenho que ir s’imbora
(Ai ai ai ai, tá chegando a hora) a hora
O dia já vem raiando, meu bem
Eu tenho que ir s’imbora

S’imbora
S’imbora
S’imbora
S’imbora
Eu já vou s’imbora

E assim amanhecia mais uma quarta-feira de cinzas, que também foi cantada pelo nosso Poetinha

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz

É carnaval! (4)

Segunda-feira de carnaval. Notícias alarmantes sobre a pandemia. Onde estará a verdade? Quero usar máscara nos olhos, não no nariz…   

Mesmo com o silêncio e a tristeza dominando esses dias, continuo a publicar antigas músicas de carnaval, e hoje será um “clássico” e um mix – porque dentro de nós a alegria não morreu. Vamos sobreviver a essa estranha doença. Seremos livres e felizes novamente!

Evoé, Momo

Tanto riso, oh quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando pelo amor da Colombina
No meio da multidão
Foi bom te ver outra vez
Tá fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele pierrô
Que te abraçou
Que te beijou, meu amor
Na mesma máscara negra
Que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade
Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é carnaval

E um mix, lembranças de tantos carnavais

É carnaval! (3)

Seguindo nosso carnaval dos “velhos carnavais”, hoje vou colocar duas músicas. Essas marchinhas seguiam o mesmo esquema: letra curta, com muitas repetições, e um ritmo intenso, o que as “grudava” na cabeça. Era impossível não cantar junto. Era impossível não sair dançando…

Se você fosse sincera
Ô, ô, ô, ô, Aurora
Veja só que bom que era
Ô, ô, ô, ô, Aurora
Se você fosse sincera
Ô, ô, ô, ô, Aurora
Veja só que bom que era
Ô, ô, ô, ô, Aurora
Um lindo apartamento
Com porteiro e elevador
E ar refrigerado
Para os dias de calor
Madame antes do nome
Você teria agora
Ô, ô, ô, ô, Aurora

Chegou a turma do funil
Todo mundo bebe, mas ninguém dorme no ponto
Ai, ai ninguém dorme no ponto
Nós é que bebemos e eles que ficam tontos
Chegou a turma do funil
Todo mundo bebe, mas ninguém dorme no ponto
Ai, ai ninguém dorme no ponto
Nós é que bebemos e eles que ficam tontos
Eu bebo sem compromisso
Com meu dinheiro, ninguém tem nada com isso
Aonde houver garrafa, aonde houver barril
Presente está a turma do funil