
Para pensar 28

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Dói.
Se me perguntarem o que acontece, só saberei responder isso: dói.
Se me perguntarem onde é a dor, ainda assim só responderei: dói.
Tudo tem a ver com aquele grito reprimido, aquele sonho escondido, aquele choro nem sempre contido: dói.
Aquela vontade de cortar a garganta para não poder gritar.
Aquela vontade de arrancar os olhos só pra não poder ver.
Aquela vontade de esmagar o coração só para não poder sentir.
Mesmo com todas essas coisas incapacitadas ainda assim doeria.
Porque não está na garganta, nos olhos, no coração.
Está em toda parte (…)
(Imagem: banco de imagens Google)

Deixou-nos Neruda, o grande poeta Pablo Neruda, com sua peculiar ironia, uma lição sobre o que é escrever: “Escrever é fácil, você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias.”
É o que faço, continuamente…
Mas não sei se é fácil, a não ser, obviamente, a parte referente a colocar o ponto final para terminar. Aí reside a ironia do mestre.
Nem sempre, para começar, consigo uma letra maiúscula que valha a pena.
Quantas vezes troquei repetidamente a letra maiúscula e nenhuma ali caiu bem… usei todo o alfabeto, tentei apelar para o alfabeto grego, chinês, árabe, arriscando inclusive no cirílico. Tentei até desenhos rupestres, mas nada era o que procurava.
Já não falo em deixar o papel em branco – ou entregarei minha idade. Por isso, digo que deixo a tela livre e o cursor piscando indefinidamente, enquanto tento encontrar uma letra. Uma única e singela letra maiúscula para iniciar um parágrafo – justamente o primeiro parágrafo.
Impossível. Melhor desistir e ir “passar” um café.
Dar uma voltinha, olhar pela janela, ver se o céu continua no mesmo lugar…
E reiniciar a batalha.
De súbito, do nada, uma letra salta e se coloca, maiúscula e imponente, no ponto inicial. Já me apresso em deixar um bom espaço e coloco o ponto final. Ali está o escrito. Falta apenas inserir as ideias entre essa abençoada letra inicial o e inevitável ponto final.
Animadas pela letra maiúscula que ali se impôs, outras letras vão aparecendo, algumas palavras se formam, e é possível lhes dar sentido, e assim surge um começo. Simplesinho, sem encanto, talvez até repetitivo de outra obra. Mas, não há dúvida, há um começo.
E no alfabeto latino… consigo ler sem dificuldade o que está aparecendo na tela, como por mágica ou feitiçaria.
E as palavrasse se sucedem, mostram o caminho, organizam o texto, pedem pontos e vírgulas, pedem espaços e novosparágrafos.
E, sem pensar, sem forçar, surge o texto, escrito na exata lição do grande Neruda. Até o ponto final já estava ali, estrategicamente e muito bem colocado…
(Imagem: banco de imagens Google)

Vem me buscar!
Traz a paz que já não tenho
E a alegria que eu perdi
Mas vem me buscar
Não conseguirei sair sozinha
Como um barco preso, sem saída
Esquecido em um remanso qualquer
Que anseia pela liberdade de seguir
Que chora pelo rio que já não vê
Vem me buscar!
Traz a confiança que eu preciso
E a fé que eu perdi
Mas vem me buscar
Como um pássaro cativo em uma gaiola
Eu me debato inutilmente neste lugar
E o desespero de meu canto não é notado
Não poderei abrir essa porta trancada
Que me prende sem compaixão
Vem me buscar!
Traz a paixão que em mim esfriou
E a vontade de viver que perdi
Como uma mulher abandonada,
Que chora pelo amor perdido
E espera pela redenção
Vem me buscar!
(Imagem: banco de imagens Google)

Vê bem, Maria, aqui se cruzam: este É o rio Negro, aquele á o Solimões. Vê bem como este contra aquele investe, Como as saudades com as recordações. Vê com se separam duas águas. Que, se querem reunir, mas visualmente; É um coração que quer reunir as mágoas De um passado, às venturas de um presente. É um simulador só, que as águas donas Desta terra não seguem curso adverso, Todas convergem para o Amazonas, O real rei dos rios do Universo; Para o velho Amazonas, Soberano Que, no solo brasílio, tem o Paço; Para o Amazonas, que nasceu humano, Porque afinal é filho de um abraço! Olha esta água, que é negra como tinta, Posta nas mãos, é alva que faz gosto; Dá por visto o nanquim com que se pinta, Nos olhos, a paisagem de um desgosto. Aquela outra parece amarelaça, Muito, no entanto, é também limpa, engana; É direito a virtude quando passa Pela flexível virtude quando passa Que profundeza extraordinária, imensa, Que profundeza ais que desconforme! Este navio é uma estrela, suspensa Neste céu d’água, brutalmente enorme. Se estes dois rios fôssemos, Maria, Todas as vezes que nos encontramos, Que Amazonas de amor não sairia De mim, de ti, de nós que nos amamos!...
(Imagem: banco de imagens Google)
