
Por hoje, Ana Acto

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –

La mer / Qu’on voit danser le long des golfes clairs
A des reflets d’argent / La mer
Des reflets changeants / Sous la pluie
La mer / Les a bercés
Le long des golfes clairs / Et d’une chanson d’amour
La mer / A bercé mon cœur pour la vie

Era um barco. Um simples e vulnerável barco, cortando as águas em busca de seu porto.
Singrava as águas mansamente, sem pressa, sem querer chegar depressa. Apenas queria chegar.
As águas, tépidas e amigas, o balançavam suavemente, brincando de resistir com suas marolas
O céu a tudo assistia. Tentava clarear o máximo de tempo possível, dourando as águas ao amanhecer, e as prateando antes de jogar sobre elas o marinho noturno.
E o barco, de dia singrava, de noite adormecia. Ao sabor das águas, confiante e sereno.
Não receava tempestade, não temia o vento. Ele se bastava, não sentia solidão nem precisava de outro barco a lhe fazer companhia.
Esperava as primeiras estrelas de cada anoitecer para conferir o rumo que o sol lhe dava.
E, se a lua estivesse bem-humorada, logo surgia rastreando de prata toda a superfície visível.
Tão sereno, tão valente, o pobre barco confiava em seu poder e não temia seu destino.
Até o dia em outro barco, de repente, vier a cruzar sua travessia e desviar sua atenção. É a própria tragédia anunciada. O pobre barco não terá mais paz, buscando encontrar seu igual, e se sentirá só nessa imensidão.
Sem paz, não poderá mais enfrentar ventos e procelas. E conhecerá o sofrimento. A ansiedade de esperar, de querer, de desejar.
E, de repente, soçobrará.
Meu coração, esse mar. Minha paixão, esse barco, que naufragou quando buscou outro barco.
(São Paulo, fevereiro, 2019)
(Imagem: banco de imagens Google)

As noites, de insônia, são longas e sofridas
Os sonhos não vêm, porque não há sono
Os pensamentos dominam e não são dominados
Ainda que sejam penosos e tragam dores.
Somente as lembranças ruins estão presentes
Nessas horas em que a saudade aumenta
Até atingir o impossível ponto do total.
Não há lágrimas – de há muito já secaram
Apenas a tristeza infinita de continuar vivendo.
Em breve já não haverá amanhãs
Tudo é passado, tudo se transforma em lembranças
E, mesmo sem crime, há sempre a pena imensa
De cumprir a vida, sem gosto, sem futuro.
Quando enfim o cansaço vence a insônia
E por minutos adormeço buscando o repouso
Por instantes o descanso se faz presente
Mas logo vem despertar o novo dia raiando
Eu me deixo no passado das lembranças
E tento, dia após dia, recomeçar a vida,
Essa é minha resistência, meu elo vital,
Como o sol que brilha depois da tempestade,
Como a flor que insiste em abrir no asfalto
Como o fruto que desafia a pedrada e amadurece
Eu consigo, a cada alvorecer, voltar à vida;
Entendo, nessa hora, que, a cada amanhecer,
Simplesmente eu não desperto – eu renasço!
(Imagem: banco de iamgens Google)


Por tudo que fomos.
Por tudo o que não conseguimos ser.
Por tudo que se perdeu.
Por termos nos perdido.
Pelo que queríamos que fosse e não foi.
Pela renúncia.
Por valores não dados.
Por erros cometidos.
Acertos não comemorados.
Palavras dissipadas.
Versos brancos.
Chorei pela guerra quotidiana.
Pelas tentativas de sobrevivência.
Pelos apelos de paz não atendidos.
Pelo amor derramado.
Pelo amor ofendido e aprisionado.
Pelo amor perdido.
Pelo respeito empoeirado em cima da estante.
Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda-roupa.
Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados.
Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa.
Por tudo que foi e voou.
E não volta mais, pois que hoje é já outro dia.
Chorei.
Apronto agora os meus pés na estrada.
Ponho-me a caminhar sob sol e vento.
Vou ali ser feliz e já volto.

Se a ausência é a presença possível
A solidão se torna a única companhia
E a distância voltou a se instalar entre nós
A saudade tudo cobriu com seu manto
De tantas lembranças e tristezas
Percebi, então, nessa hora,
Que foi no seu silêncio que mais ouvi sua voz
E que foi, no momento em que me calei
Que mais eu disse o que sentia
(Imagem: banco de imagens Google)