para ver com tela cheia… (Alone, Together, from Dubrovnik)
Dia de poesia – Manuel Bandeira – Dia de Finados

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.
(Imagem: do arquivo pessoal da autora)
Nada

Estrelas cadentes, explosões solares, luas vermelhas,
mares revoltos, rios secando, desertos inundados
agora nada mais é, do que sobrou tudo é caos.
O que era já não é mais, o que estava, desapareceu
murchas as flores, cores desbotadas, tão sem viço
como a festa que chegou ao fim. A música cessou.
A vida perdeu o sentido. Não há mais futuro.
Já não me reconheço. Os espelhos se embaçaram.
Também não me busco nem me quero reencontrar
Se lá fora os ruídos se intensificam, sob chuva e vendavais
dentro de mim o silêncio grita desesperadamente.
Não se morri ou se ainda estou viva, nem se este é meu mundo.
Fiquei perdida naquele passado tão cinzento
que restou depois que o colorido se foi tristemente
deixando-me com a mãos estendidas, em súplica...
mas nada mais peço... logo também partirei
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Pedro Peres – E dormem tantos beijos

E dormem tantos beijos
no silêncio da espera,
nos cantos da boca,
no espaço do abraço.
Guardo os teus olhos
como quem esconde saudade,
num tempo suspenso,
entre o agora e o nunca.
Há um calor quieto,
tão próximo do peito,
feito de gestos
que não se tocam.
E ainda assim,
em cada instante mudo,
o desejo sussurra-te
o que a voz cala.
Espaço para F. Scott Fitzgerald, in O Grande Gatsby

O momento mais solitário na vida de alguém acontece quando assiste, impotente, ao seu mundo desmoronar-se diante dos seus olhos, e tudo o que pode fazer é encarar o vazio. Não são os estilhaços que te quebram, mas o silêncio implacável que se segue, aquele espaço quieto e devastador onde percebes que não há mais nada a ser salvo. E é nesse instante que sabes que nunca mais serás o mesmo. Talvez, um dia, construa algo novo, mas jamais será o que um dia perdeu.
(Imagem: foto de Nelson O’Reilly Filho)
Busca inútil

Busquei você No voo de cada pássaro que avistei Na espuma de cada onda que chegou na areia Nas pedras dos caminhos que trilhei No brilho de cada estrela que surgiu no céu Em cada curva das estradas que passei Nas pegadas que avistava nas praias No último gole de cada dose que tomei Busquei você Mas não encontrei Você já não estava Era o voo malogrado do pássaro morto Era a onda que não chegou na praia Era a pedra que rolou no abismo antes do meu passo Era a noite escura em que as estrelas não brilharam Era a estrada interditada Era a praia que o vento revolvia Era a dose que não bebi até o final Você era a ilusão O que não existia Quem nunca chegou de verdade A mentira bem engendrada A pedra falsa no anel barato A embalagem de presente preenchida de vento Você era, na realidade, o nada...
(Imagem: banco de imagens Google)