
Para pensar – 09

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Há dias, perguntaram-me qual foi a dor mais forte que consegui suportar. Fiquei em silêncio por um instante, não porque não soubesse a resposta, mas porque algumas dores não se explicam com palavras.
Pensei nas dores físicas – aquelas que marcam a pele, cortam a carne. Sim, já senti algumas. Mas a dor mais intensa que já suportei não deixou cicatrizes visíveis. Ela não sangrou, não latejou de uma forma que pudesse ser curado com remédios ou repouso. Foi uma dor que se alojou na alma, que silenciou o meu riso, que tornou os meus dias longos e as noites insuportáveis.
Foi a dor da perda, da despedida inesperada, do vazio deixado por alguém que partiu sem aviso. Foi a dor de um adeus sem retorno, de um amor que se desfez sem explicação, de um sonho que desmoronou diante dos meus olhos sem que eu pudesse segurá-lo.
E o mais curioso? Sobrevivi. A dor atravessou-me, rasgou-me por dentro, mas não me destruiu. Porque, no fim, descobri que algumas dores não são feitas para serem esquecidas, mas para serem transformadas. E, talvez, a maior força que temos seja essa: a de seguir adiante, mesmo carregando as marcas invisíveis do que um dia nos feriu.

Há um silêncio que chega com os anos, e ele não é feito apenas da ausência de ruídos, mas da transição suave entre o que éramos e o que nos tornamos.
Aos 60, você começa a sentir a sutileza do distanciamento. A sala que antes pulsava com suas ideias agora parece cheia de vozes que não pedem mais sua opinião. Não é uma rejeição, é o ritmo da vida. É quando aprendemos que nossa contribuição não está no presente imediato, mas nos rastros que deixamos nos corações e mentes ao longo do caminho.
Aos 65, você percebe que o mundo corporativo, outrora tão vital, é um fluxo incessante. Ele segue, indiferente ao que você fez ou deixou de fazer. Não é uma derrota, é a libertação. Esse é o momento de olhar para si mesmo, despir-se do ego e vestir a serenidade. Não se trata mais de provar, mas de ensinar, de compartilhar, de ser mentor. A verdadeira realização não é a que se exibe, mas a que inspira.
Aos 70, a sociedade parece lhe esquecer, mas será mesmo. Talvez seja apenas um convite para reavaliar o que realmente importa. Os jovens não o reconhecerão pelo que você foi, e isso é uma bênção disfarçada: você pode agora ser apenas quem você é. Sem máscaras, sem títulos, apenas a essência. Os velhos amigos, aqueles que não perguntam “quem você era”, mas “como você está”, tornam-se joias preciosas, diamantes que brilham no crepúsculo da vida.
E então, aos 80 ou 90, é a família que, na sua correria, se afasta um pouco mais. Mas é aí que a sabedoria nos abraça com força. Entendemos que amor não é posse; é liberdade. Seus filhos, seus netos, seguem suas vidas, como você seguiu a sua. A distância física não diminui o afeto, mas ensina que o amor verdadeiro é generoso, não exigente.
Quando a Terra finalmente chamar por você, não há motivo para medo. É a última dança de um ciclo natural, o encerramento de um capítulo escrito com suor, lágrimas, risos e memórias. Mas o que fica, o que realmente nunca será eliminado, são as marcas que deixamos nas almas que tocamos.
Portanto, enquanto há fôlego, energia, enquanto o coração bate firme, viva intensamente. Abrace os encontros, ria alto, desfrute os prazeres simples e complexos da vida. Cultive suas amizades como quem cuida de um jardim. Porque, no final, o que resta não são as conquistas, nem os títulos, nem os aplausos. O que resta são os laços, os momentos partilhados, a luz que espalhamos.
Seja luz, seja presença, e você será eterno.
Dedico a todos que entendem que o tempo não apaga, mas apenas transforma.
(Imagem: banco de imagens Google)

Amanheceu verão. O céu de um incrível azul com nuvens brancas bem delineadas. E calor. Muito calor. Um típico dia de verão.
Saiu sem preocupação com janelas travadas ou roupas mais pesadas. Seria mais um escaldante dia desse verão intenso e interminável.
Quando chegou a hora do almoço, sentiu, ao caminhar pelas ruas próximas, a mudança do clima. A luminosidade não era mais a mesma daquela radiante manhã e um vento trazia sensação de frescor. Até gostou de caminhar sem sentir tanto calor.
No meio da tarde, fez-se a noite. Nuvens escuras desceram a ponto de quase serem tocadas com a mão das janelas do escritório localizado em andar bem alto, como se o próprio céu estivesse chegando na terra. O vento se intensificou, e, entre raios e trovões, a natureza se manifestou violentamente, mostrando a pequenez e insignificância dos seres humanos.
Lembrou-se das janelas apenas encostadas deixadas naquela manhã. E temeu pela chuva entrando em casa e destruindo tudo. Mas nada poderia ser feito. Avisos de inundações e avenidas e ruas intransitáveis. Não podia ir embora. Era melhor continuar trabalhando, e rezar para que a energia elétrica aguentasse o vigoroso temporal tropical. Sempre tivera medo de tempestades. Mas ultimamente as enfrentava diariamente, tanto na natureza quanto na vida pessoal. Sabia que nenhuma duraria para sempre.
Finalmente o temporal cedeu, a chuva e o vento amainaram, e foram se acabando aos poucos. Esperou, ainda trabalhando, por cerca de duas horas, para ter certeza do escoamento das enxurradas e inundações.
Então saiu, com a fina e pouca roupa que viera de manhã.
A temperatura caíra mais de 15 graus durante o dia. Sentiu o ar bastante frio atingir as costas e teve arrepios. Caminhou até o estacionamento. Calçadas cobertas de lixo que água trouxera.
Galhos caídos interditando a passagem tanto na rua quanto na calçada. Pedaços de tudo esparramados pelo chão.
Chegou em casa.
Desceu do carro e olhou para céu, que tanta tragédia causara naquele dia exótico.
E então, em êxtase, ficou observando a lua cheia maravilhosa e seu séquito de esplendorosas estrelas mostrando que mesmo o dia mais caótico pode ter um fecho de alumbramento.
E ainda a esperança de um amanhã tranquilo.
Basta olhar para o céu…
(Imagem: Paisagem noturna, óleo sobre tela, de Maria Alice)

Por muito tempo, todo o resto eu deixei no sereno e no topo da montanha ao alcance das aves de rapina.
Foram dias de solidão e angústia, no espelho da alma.
Verdade que voltei a mergulhar no mar enquanto o vento coreografava relógios, secando a terra e também a minha voz.
Virei pó ao visitar cerrados e caatingas; hoje escorri pelas matas fugindo dos abutres negros porque ouvi o coração batendo dentro da caixa, reverberando desejos secretos, perfurando caminhos dentro do peito do meu esqueleto...
Depois de um longo tempo, ritmamos juntos novamente, despertando orquestras entre os ossos, destruindo a melancolia.
E no meio da rua te devolvo!, nu como cabe a um aventureiro despreovido de pretensões ou histórias.
Eu sei, você também sabe, o tempo desenhou mosaicos em nossas retinas... É nelas que habito discretamente, como pérola no fundo do mar.
Cultivo silêncios solitários!
Plantei um sonho quente na musculatura frágil, protegida pela pele áspera e seca!
Jamais fugi do sol, nenhum dia sequer, persisti sempre com fé ritualística.
Com calma, sobre ouvidos, boca e mãos, pernas, ossos, soltei os cabelos e afinei olhares...
Inflado, danço para que um novo tempo surja feliz...
Com os pés no chão sinto que a próxima linha será dourada e quente como a música que ouço ao me lembrar de nós.
Será que você ainda gosta de música?
(Imagem: foto de Carlos Eduardo Ferreira)

Era como se fosse a primeira vez que via o rio. Mas, na verdade, todos os dias olhava para ele, andava em suas margens, atravessava suas pontes. Há muito tempo morava ali.
Olhou com encantamento toda aquela água que descia cantando, enchia o ar com seus sons, trazia de tudo – madeira, flores, lixo, e tudo o que encontrasse pelas margens.
Parou no meio da ponte. Havia algo diferente hoje. Não era o mesmo rio de sempre.
Não conseguia identificar o que estava mudado. Seus olhos eram os mesmos. Seus ouvidos também. O que havia de diferente no rio, que parecia ser a primeira vez que o via?
Recostou-se na amurada, e olhou a água que vinha. Tão límpida, tão decidida, sabia seu destino e se atirava com coragem e alegria. Descia em busca da foz. Nada a detinha. Passava por baixo das pontes, por cima das pedras, contornava todos os obstáculos, mas sabia que chegaria a seu destino sem nada temer.
Depois atravessou a pequena ponte e olhou a água que ia.
Mansamente, sem atropelo nem angústia, ela seguia seu curso tranquilamente, levando em seu dorso as luzes do dia e as dores dos homens que do rio viviam e dele dependiam.
O rio sempre seguia. Dia e noite sem cessar, o rio fluía com a doçura de aceitar seu destino de seguir sempre até encontrar o mar.
Desceu até a beira do rio, e molhou as mãos. Sentou-se e ali ficou, pensando na vida, no dia que começara com tantos problemas. A briga em casa logo cedo. Decidiu ir embora para sempre. Chegou no emprego e encontrou tudo fechado, lacrado, os funcionários inquietos, nenhum responsável no local. Falaram em fraude fiscal. Não sabia o que aconteceria. Resolveu sair dali e ir caminhar.
À medida em que se afastava de casa e do emprego, sentia uma sensação desconhecida, como se outra pessoa estivesse surgindo em seu âmago. Quando chegou na velha ponte que atravessava todos os dias, viu outro rio. Tudo era novidade. Começou então a entender que na verdade era uma nova pessoa. Rompera os grilhões de um relacionamento falido, estava fora de um emprego sufocante. Agora finalmente respirava o que os outros chamavam de liberdade.
Voltou perto da água e tornou a molhar as mãos para lavar o rosto. E entendeu que era uma nova água. A água que vira da ponte, a água em que molhara as mãos, eram outras águas. Essa em que agora tocava era uma nova água, que se renovava a cada instante. Porque não se deixava, jamais, aprisionar, e, uma vez passada, não voltava para passar novamente pelos mesmos obstáculos, pelas mesmas dificuldades. Apenas ia. Não parava nem voltava.
Olhou seu reflexo na água que seguia e compreendeu o destino de quem é livre.
(Imagem: banco de imagens Google)