Tristeza

Por que sou triste? Não sei…

Como também não sei se deveria ser alegre

Às vezes cansamos da felicidade breve

Porque ela sempre se vai e a tristeza vem

A felicidade sempre traz tristeza

Enquanto a tristeza nunca se torna alegria

Melhor ser triste de uma vez

E não ficar temendo a tristeza

Porque ela, sim, é inevitável.

Há duas certezas nessa vida:

Ser triste e morrer.

Da esperança

 

 Esperança, fio invisível que nos sustenta e nos mantém vivos.

Como aquela sensação de prazer quando comemos tamarindo. Depois da acidez do primeiro bocado, vai ficando saboroso e deixa uma lembrança boa no paladar.

Assim é a esperança: depois da perda, o desespero ácido vai se desfazendo e se tornando a esperança – o gosto bom de se acreditar que tudo voltará um dia a ser como antes. Porque o desespero é desesperar e esperança é exatamente esperar.

A fogueira se apaga, mas brasas vivas ficam lá no fundo, cobertas de cinzas. A função da esperança é manter vivas essas brasas, e, na primeira ocasião, deixá-las tomar conta do coração e reaquecer a vida.

Viver só de esperança, porém, amarga a boca. Mas viver em estado de desesperança é morrer em vida.

Por isso a razão equilibra a emoção – alimentamos algumas esperanças e deixamos as outras, que mais machucam se não se concretizarem, desidratar e morrer.

Esperança são as flores das emoções, precisa ser cultivada, cuidada, para se manter viva. E precisamos dela para nos mantermos vivos.

A cada despertar, é a esperança que nos faz levantar e enfrentar mais um dia – se nada esperarmos, por que continuar vivendo e lutando?

Passos vencidos

Caminante, son tus huellas el camino, y nada más; caminante, no hay camino, se hace camino al andar.

Al andar se hace camino, y al volver la vista atrás se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar.

Caminante, no hay camino, sino estelas en la mar. (Antonio Machado)

                             

Nunca li um livro da chamada literatura de autoajuda. Não posso tentar resolver meus problemas pela cabeça de um desconhecido, mesmo que ele tenha conseguido resolver um dos seus próprios e depois resolveu contar para todo mundo por meio de um livro.

Acho que cada um tem de sair das dificuldades pelas próprias pernas, dando os passos possíveis e fazendo seu próprio caminho…

As armadilhas em que caí ao longo da vida ensinaram-me que o grande segredo para ser feliz é se bastar. Não deixar minha felicidade nas mãos de terceiros. Não permitir ser necessária outra pessoa para me fazer feliz.

Dessa forma, ninguém pode me fazer infeliz. Porque eu me basto no quesito felicidade.

Os anzóis das iscas que me iludiram deixaram profundas marcas em minha carne.

Peixe carente, atirei-me com sofreguidão às iscas, sem perceber as ocultas intenções dos anzóis que as exibiam…

E foi assim que aprendi que as iscas mais atraentes trazem os anzóis mais cruéis.

Para se pensar

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela. (Fernando Pessoa)

Ontem ouvi o relato do suicídio de uma garota – estava com depressão e a família não conseguiu ajuda-la. Os pais, obviamente, estão devastados. 

Além do choque para as pessoas que convivem com o suicida e ficam estarrecidos com aquela morte, fica o invencível e inevitável sentimento de ter falhado.

Falhado porque não percebeu o desespero daquela alma, falhado por não ter tirado a cortina negra que escurecia os pensamentos do suicida, falhado por não ter evitado o gesto.

Mas ninguém poderia evitar o suicídio em si.

Depois que a decisão de morrer é tomada, dificilmente alguém poderá evitar esse ato.

Convivi com alguns suicidas, chorei suas mortes e sei que ninguém tem culpa do ocorrido. Mas é difícil, muito difícil, conviver com a sensação que poderíamos ter feito alguma coisa e nada fizemos. Inevitável sentirmo-nos assim.

E o que é o suicídio? Um gesto de coragem ou covardia? Um gesto de desespero ou esperança em algo melhor?

Alguns casos podem-se entender, pessoas que estão acometidas de moléstias terríveis, sem qualquer chance ou esperança de cura, sofrendo no corpo as dificuldades da doença e na alma a falta de motivo para continuar vivo… até se entende, embora a religião nos ensine que a morte pertence ao Pai e somente ele poderá tirar-nos a vida.

Mas outros casos, a jovem que perdeu o ano na faculdade, a mulher madura e centrada que se aposentou e não mais se sentiu viva, o amigo que se viu envolvido em um processo judicial quase kafkaniano…

E assim eles foram ficando pelo caminho, enquanto outros enfrentaram as mesmas situações – doenças, velhice, processos, divórcios, perdas de filhos e continuaram vivos dando testemunho de uma fé inabalável na vida e no sentimento que não há caminho predeterminado, que fazemos nosso caminho ao caminhar.

Quando penso nesses assuntos lembro-me de  palavras do Padre José Mário Ribeiro: “Deus deu a vida – e não a morte – ao homem. Então devemos cuidar da nossa vida com muito carinho e desvelo, porque teremos que prestar contas deste dom ao Criador. Mas Deus guardou para si a morte, não a deu ao homem. Por isso devemos viver sem pensar na morte, sabendo que é inevitável e virá para todos, mas não é problema nosso. Na hora certa Deus cuidará de tudo. Não devemos ignorar que a morte existe, mas não devemos buscá-la nem desejá-la.”

E assim Padre Zé Mário me deu uma lição para toda a vida, mas que torna difícil entender a razão dos suicidas.

Há uma estatística que a cada 40 segundos uma pessoa se suicida – isso é um número altíssimo. Já temos notícias de crianças suicidas.

O que está acontecendo com a humanidade? Estamos perdendo o instinto de sobrevivência?

Em nome da Pátria

Aqueles que tombam pela Pátria não morrem, mas se fundem a ela eternamente. (General Osório)

                                     

Olho a imagem – tristíssima – dos soldados trazendo o corpo do companheiro morto em batalha. Vejo em outra foto de hoje a imagem do presidente norte-americano diante do cortejo do retorno de outros soldados mortos nessa guerra insana. E penso porque o presidente dos EUA acaba de ganhar o Prêmio Nobel da Paz mesmo estando em guerra com dois países.

Não entendo se o prêmio foi desmoralizado ou se é a própria guerra que está desmoralizada.

Matar está tão banal, declarar guerra é tão comum, que não impede o Nobel da Paz ao presidente de uma nação em guerra…

Recordo o filme O Retorno de um Herói.

O drama do oficial que resolve aplacar a culpa de não ter ido para a frente da batalha no ato de acompanhar o corpo de um soldado que morreu na longíqua guerra, do momento em que for entregue ao exército até ser finalmente entregue à própria família para o enterro.

Filme de rara poesia, impossível não se envolver e sofrer também.

O respeito com que o corpo é tratado pelos encarregados de prepará-lo. A forma como é carregado para os veículos, as cerimônias de passagem – tudo tocante, emocionante.

E finalmente a dor da família ao receber morto o filho que emprestaram – vivo – à pátria. Para que? Para ir lutar numa guerra que não era dele, talvez nem soubesse direito para onde e para que estava indo. E não voltou. Ou melhor, voltou, mas seus olhos nada viram.

Não viu o carinho com que seu corpo foi manipulado, a emoção que tomou conta de todos os compatriotas que em algum momento estiveram junto na sua última viagem, o drama do oficial que o acompanhou nem os olhos vazios de sua mãe ao receber o caixão.

Vem como um presente – um filho – o corpo de um filho – em uma grande caixa, com bandeira nacional, toque de silêncio, cortejo militar. Mas é um presente às avessas, porque, na verdade, nada está  sendo dado – nem mesmo estão devolvendo o filho emprestado, mas sim enterrando o sonho de uma vida.

Até quando, me pergunto, até quando os homens continuarão a declarar guerra para mandar os filhos alheios morrerem. O homem não evoluiu tanto quanto pensa. Apenas mudou as armas: não joga mais pedras, não usa mais clavas, mas poderosas e mortíferas armas desenvolvidas por cientistas. E hoje a guerra é mostrada via TV ao mundo ao vivo e em cores.

Mas, no íntimo, no funcionamento do cérebro, realmente o homem ainda está na idade da pedra.

(31.10.2009)

Caminhos pisados

Passo em ruas passadas, conhecidas, tão já vistas e caminhadas. Periodicamente tudo muda. Lojas adoráveis se fecham. Nunca mais abre nada no lugar, fica aquele vazio feio, todo pichado, no meio dos outros. Outras, feias e sem graça, se fecham e ali se abre um nova loja linda, atraente, que alegra o local.

Muitas são imprescindíveis, e um dia suas portas permanecem cerradas. Ela se foi. O que vem no lugar não traz a mesma utilidade. Ou o contrário.

A verdade é que tudo muda. O que foi já não é, se tinha, já não tem… e temos de continuar vivendo e tocando nossa vida da mesma forma, como se nada fizesse parte dela.

Sempre esperando que tudo melhore, que venham boas pessoas, ótimas lojas, excelentes prestadores de serviço. Mas nem sempre é assim.

Isso nas ruas pelas quais caminhamos.

E na vida, os caminhos do coração? Acontece a mesma coisa…

Passamos sempre os mesmos atalhos já pisados, e pessoas que ali estavam já se foram. Outras – piores ou melhores – vieram para ocupar esses lugares.

Algumas pessoas são tão especiais, tão insubstituíveis, que o lugar que deixam dentro de nós ficará vazio para sempre.

Outras nós temos de tirar à força dali pelo mal que nos está causando e ficar na esperança que seu lugar seja preenchido por alguém que mereça estar em nosso coração.

Mas o mais triste são as pessoas que julgamos maravilhosas e insubstituíveis, que, simplesmente, num de repente qualquer da vida, saem de nosso coração e desaparecem.