
O anoitecer é mais o morrer do que o pôr do sol.
Os sons se desfazem nos espaços agora largos,
Preguiçoso e lento o dia se afasta pesadamente.
Quero me mover, mas faltam-me as forças,
E me deixo ficar, inerte, como sem alma,
E o vento canta para me distrair, brinca comigo,
Enquanto os últimos pássaros da tarde se recolhem.
O céu se veste de outras cores, anunciando
Ao mundo que o dia se acabou.
E com o dia, tanto e tantos também se foram.
Olho para o céu, à procura da lua,
Mas o sol, já desbotando, ainda domina.
Penso na vida, que se acaba tão devagar
Que por vezes a pensamos eterna,
Como um dia que se esvai lentamente.
Mas a noite virá e cobrirá o dia de escuro,
Assim também virá a morte e escurecerá a vida.
Há beleza no entardecer, no preceder da noite,
Como a beleza da saudade do que não se foi por inteiro,
E se arrasta em uma longa agonia colorida,
Transformando a paisagem com suas cores tristes
Que se enlaçam e se combinam,
Em uma perfeita harmonia para os olhos.
Agora, tudo é silêncio, e a natureza, imóvel,
Espera que enfim, o sol desapareça
E a calma da noite nos traga a paz.
(Imagem: foto de Maria Helena Ferreira da Rosa)