“No dia seguinte o deus Taũgi quebrou todas as cabaças de água que estavam penduradas na casa do dono da água. Então apareceu o mar que tem água salgada, os igarapés, os lagos, os rios e as lagoas. A água se espalhou pelo Brasil e pelo mundo inteiro.
Foi assim a origem da água no Brasil. Quem trouxe a água para nós foi o deus Taũgi.”
versão de Sepé Kuikuro Fonte: Livro das Águas – Índios no Xingu (2002)

Essa água que desce tão calma, também guarda seus segredos:
Veio de longe, e, dizem os indígenas, nasceu pelo deus Taũgi
Mas não é isso que ensinam os velhos livros de Geografia.
E eu só sei que ela corre incessante, em meio aos arvoredos
Se for pela Geografia, eu busco o rio Mamoré
Que antes lá da fronteira, encontra o andino Beni
Origem do grande Madeira, que corre pelo Brasil
Trazendo muita fartura e formando igarapés

Rios Beni e Mamoré, nesse abraço fraternal
Juntam as suas águas para um colosso formar
E presenteiam o Brasil, em terras rondonienses
Com o belo Rio Madeira, o grande rio ancestral
Subindo ao norte amazônico, agora rondoniense
Enfrenta as corredeiras, mas não pára nem descansa
Segue firme à procura da sina, buscando seu destino
e, entre curvas e pedras, caudaloso e imponente, tudo vence.
Me diz, Madeira, me conta agora, onde estão seus moradores
Onde vivem suas iaras, seus orixás e os seus botos cor-de-rosa?
Onde se esconde a boiúna e os seus falados piratas?
Construindo a fantasia de tantos homens sonhadores?

Sem por nada se deter, o rio Madeira
Cumpre com coragem a sua missão
Atravessando de ponta a ponta
A fértil terra da castanheira
Chegando a seu velho porto, aqui é ferido de morte
Onde as grandes usinas apagaram as corredeiras,
Destroem as cachoeiras, mas o rio não desiste,
E ainda assim segue impávido, sempre em busca o Norte.

Consagrado esse rio, como território ancestral
É milenar sustento de tantos povos diversos
Ainda fecundo, agora se vê sangrado, não vencido,
pelas usinas de Santo Antonio e Jirau
Diz, Madeira, onde estão a corredeira do Morrinho
E a sonora cachoeira do Teotônio?
As pedras, agora submersas, ainda choram
O pranto sentido desse povo ribeirinho

Mas o nobre Madeira, a tudo isso resiste
Amanhece e anoitece cantando, exibe
As cores mutantes, mostrando no fim da tarde
O dourado pôr-do-sol, o mais belo que existe

E chegando à capital, atravessa essa cidade
Ponto de luz e beleza, atrai todos os olhares
Conta a história de Rondônia, traz riquezas,
leva gente, e quando vai, deixa saudade
Quanta alegria em seu curso, seja noite seja dia,
Encantando todos os olhos, que já o puderam mirar
Águas de puro encanto, beleza sem par nesta terra
Nestas plagas, tão gentil, a mais importante via.

Em caminho na floresta, segue o imponente Madeira
Buscando cumprir seu destino, leva sonhos em seus barcos
Até encontrar o Amazonas, unidos, amalgamados, agora
Se tornam pátria, e fazem grande a nação brasileira.

Assim, abraçados, vão seu destino encontrar
E juntos, maiores, mais fortes, e ainda mais decididos
Correm em busca do fim, e num abraço fatal
encerram sua jornada, quando desaguam no mar.

(Imagens: fotos do acervo pessoal da autora)