Um fim de mar colore os horizontes. (Manuel de Barros).

Mais um ano se passou desde o triste dia de sua partida. E, desde esse dia, órfã e insegura, vago pela vida, percebendo que tudo tomou outra dimensão com sua ausência.
Assumimos seus compromissos, cuidamos de quem o senhor cuidava, completamos o que ficou por terminar. Mas vendo tudo com outros olhos, agora olhos da orfandade. E com outras cores, agora mais desbotadas.
E as horas, dias, semanas, meses e anos se vão. Mas essa sensação de insegurança, essa saudade, essa falta aguda, doída, permanecem.
O senhor gostava do mar. Muito.
Em outros tempos, de pescar no mar. Mais recentemente, de entrar no mar, de caminhar na linha d’água, de se sentar aqui na varanda e simplesmente contemplar essa imensidão na nossa frente.
E de contar os navios.
E ouvir o canto do mar na madrugada.
Como sempre dizia, “a madrugada foi feita para se pensar, não para se dormir”.
Herdei isso – o hábito de perder o sono na madrugada apenas para pensar na vida. E ainda outros hábitos, e coragem, e caráter e firmeza.
Mas não sou sua igual. Sou pequena. Sou frágil. E sozinha.
O senhor era minha fortaleza.
E não consigo mais ver o mar com os mesmos olhos – agora eu o vejo sem o senhor a meu lado.
Sigo, agora, esse caminho solitário, com o pensamento sempre nos tempos de união, companheirismo e felicidade que desfrutamos.
Mas só eu sei a falta que o senhor me faz…
(Imagem: do acervo pessoal da autora)