Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Dia de poesia – Florbela Espanca – Saudades

Saudades! Sim… Talvez… e por que não?…
Se o nosso sonho foi tão alto e forte.
Que bem pensara vê-lo até à morte.
Deslumbrar-me de luz o coração!
Esquecer! Para quê?… Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte.
Deve-nos ser sagrado como o pão!
Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!
E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar.
Mais a saudade andasse presa a mim!
(Imagem: banco de imagens Google)
Poesia da casa – Meu silêncio

Não diga nada. Apenas ouça meu silêncio. Em silêncio. Ouça tudo que meu silêncio diz Mesmo que eu não o possa dizer Por mim ele diz tudo para você Mesmo que você não o queira ouvir Ele irá dizer, tudo dirá por mim Diz que ainda amo você Que a paixão existe e me domina E também que jamais o esquecerei E para sempre esperarei sua volta Ele diz que sua partida me destruiu E vivo imersa em mágoas e lágrimas Que a minha vida perdeu todo o encanto Apenas ouça o que meu silêncio diz Enquanto pensa no que você Também gostaria de me dizer Mas não, não diga nada Seu silêncio de todos esses meses E a forma como você me deixou Já disseram tudo por você Não precisa dizer mais nada Mas não fuja, enfrente: Ouça, agora, o meu silêncio
(Imagem: foto de Maria Alice)
Dia de poesia – Rosa Lobato – Beijo a beijo

E de novo a armadilha dos abraços. E de novo o enredo das delícias. O rouco da garganta, os pés descalços a pele alucinada de carícias. As preces, os segredos, as risadas no altar esplendoroso das ofertas. De novo beijo a beijo as madrugadas de novo seio a seio as descobertas. Alcandorada no teu corpo imenso teço um colar de gritos e silêncios a ecoar no som dos precipícios. E tudo o que me dás eu te devolvo. E fazemos, de novo, sempre novo o amor total dos deuses e dos bichos.
(Imagem: banco de imagens Google)
Texto de Victor Fernandes

Mesmo se eu não for o amor de sua vida, nessa vida nossa cheia de amores, que eu seja alguém que te fez bem, que contribuiu para a sua felicidade, que cuidou de você, que plantou bons sentimentos. Se eu não for o amor da sua vida que eu seja alguém marcante, alguém importante alguém que deixou lembranças boas, aprendizados e que você sempre leve com carinho dentro do seu coração se eu não for o amor da sua vida que eu seja aquele amor bom, aquele amor leve, aquele amor que de algum jeito, é para sempre dentro da gente Se eu não for o amor da sua vida que eu chegue bem perto disso que chegue absurdamente perto e quase não dê pra dizer que eu não fui Porque não me importa, de verdade, se eu vou ser chamado de o amor da sua vida, ou não o que importa é aquela bonita certeza de que eu cuidei direito do seu coração. (mas eu acho que sou, viu?
(Imagem: banco de imagens Google)
Memória – A mulher livre
Je me sens libre comme une bulle de champagne / Libre d’escalader les montagnes. / Moi j’ai mon visa pour le folies / J’ai mon passeport couleur de la vie. (Visa pur les beaux jours, Eddy Marnay).

Ser livre. Apenas e singelamente livre. Parece fácil.
Mas não é nada fácil.
Principalmente para as mulheres, as quais, assim como eu, são nascidas no milênio passado, na década pós Segunda Guerra.
A partir do final dos anos 60 demos nosso grito de liberdade. Mas isso não nos fez livres.
Muitas mulheres têm a alma livre, mas o corpo prisioneiro de um sistema que esmaga a essência feminina e a amolda a uma ideia preconcebida de ideais, que não passam de uma intensa forma de dominação/submissão.
Uma mulher livre é assustadoramente forte. Para ser livre, é preciso muita coragem, porque é bem mais fácil, mais cômodo e mais seguro, acovardar-se atrás de um casamento, de um homem, de uma situação já estabelecida, em um caminho já trilhado e que já se sabe onde vai chegar.
Ser livre é ser a única responsável por todos seus atos e suas consequências. Trabalhar e ganhar o suficiente para pagar suas contas e bancar seus luxos. Ter coragem para sair da gaiola e voar, sabendo que nunca voltará. Pisar solos desconhecidos para trilhar seu próprio caminho, mesmo que não saiba onde conseguirá chegar.
Ser livre é ter a coragem de enfrentar o preconceito e a maledicência invejosa daquelas que optaram pela gaiola.
E também a condenação pelos homens que têm medo de uma mulher livre e do estrago que ela fará no mundo deles se ela propagar suas ideias de liberdade e mostrar que é feliz, sim, assumida, e, principalmente, LIVRE.
Uma mulher livre jamais será domesticada. Poderá até mesmo se casar. Mas manterá intacta sua liberdade – econômica, afetiva e emocional. Porque ela só precisa dela mesma para viver e ser feliz. Se alguém quiser DIVIDIR essa liberdade e essa felicidade, tudo bem. Mas terá de respeitar sua liberdade.
Uma mulher livre, além de corajosa, é solitária. Porque, em geral, espanta os algemados da vida. Assusta com sua liberdade.
Essa mulher livre assume seus atos e não precisa de muleta nem de desculpas. Simplesmente vive e aceita a vida como ela é. Enxerga outras cores, escuta outros sons, vive em outro mundo – sem correntes nem prisões.
A liberdade não está exatamente nos atos que ela pratica. A liberdade está na sua alma, no seu pensar. A liberdade é sua essência. Exerce essa liberdade dizendo “Não”. Porque liberdade é a possibilidade de dizer “Não” às situações que não admite. Seja usar burca, seja não poder exercer uma profissão, seja não poder externar uma opinião, seja decidir ter ou não ter filhos.
Essa mulher vê o mundo com seus próprios olhos, e, se, por acaso, marcha em outro passo, é porque ela ouve a batida de outro tambor que não aquele do pelotão. A mulher livre não é a ovelha negra da família. Geralmente ela é o próprio lobo. Que respeita sua família, mas não pode ser enquadrada em uma forma que não é seu número.
Sua solidão não é negativa nem traz sofrimento. É seu modo de ser.
Não são muitas as mulheres realmente livres, porque até nos dias de hoje, as mulheres são direcionadas a se tornarem apêndices. Dos pais. Dos irmãos. Dos maridos. Dos patrões.
As mulheres livres não são escravizadas por vozes que ditam modas ou modismos. Vaidosas, sim, mas no limite da vida saudável. Não se conduzem em razão das determinações estéticas ditadas por quem não é livre, nem bonito, nem exemplo. Não são passíveis se serem contidas por opção do mercado visando o consumismo, nem por outras mulheres, nem por imposições sociais absurdas.
Aquelas que, sem medo, ousam exercer sua liberdade, são tachadas de loucas.
É mais fácil rotular do que apoiar ou tentar entender.
Loucas, malucas, doidas. Porém livres.
(Imagem: banco de imagens Google)