Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Dia de Poesia – Virginia Victorino – Renúncia

Fui nova, mas fui triste… Só eu sei
Como passou por mim a mocidade…
Cantar era o dever da minha idade,
Devia ter cantado e não cantei…
Fui bela… Fui amada e desprezei…
Não quis beber o filtro da ansiedade.
Amar era o destino, a claridade…
Devia ter amado e não amei…
Ai de mim!… Nem saudades, nem desejos…
Nem cinzas mortas… Nem calor de beijos…
Eu nada soube, eu nada quis prender…
E o que me resta?! Uma amargura infinda…
Ver que é, para morrer, tão cedo ainda…
E que é tão tarde já, para viver!…
(Imagem: banco de imagens Google)
Memória – Um dia, você será um “tanto faz”
Pensa bem o que representas dentro desta casa. De um modo geral. Teus amigos te estimam, muitas vezes és, para eles, motivo de alegria e prazer, e ao teu coração parece que não poderias viver sem eles; no entanto, se partisses, se fosses arrancado desse círculo, por quanto tempo sentiriam o vazio que tua perda haveria de provocar nas suas vidas? Por quanto tempo? Ah! O ser humano é tão efêmero que até mesmo onde está verdadeiramente seguro de sua existência, onde sua presença produz uma impressão genuína, ou seja, na lembrança, na alma das pessoas que ama, mesmo aí ele se apaga, desaparece, e isso num espaço de tempo tão curto! (J. W. Goethe – Os sofrimentos do jovem Werther)

Quanta importância as pessoas se dão a si mesmas, mas não conseguem perceber se lhes é dada, pelos outros, tamanha importância.
Cada um tem uma imagem e uma dimensão de si mesmo, sem apreender o mundo exterior, para que possa enxergar sua exata imagem e sua exata dimensão no olhar do outro. Isso é intrigante.
Ninguém é. Ninguém tem. Ninguém pode. Porque esses verbos são transitivos. Necessitam de um complemento para que façam sentido ao leitor. Não há como interpretar qualquer um deles sem que se lhes dê um significado pelo complemento.
Assim são as pessoas. A importância que cada um tem em determinado momento ou circunstância não se transmite para toda a existência e muito menos para sua descendência. Tudo muda em questão de momento. Nada fica. Nada permanece. E, neste caso, os verbos são intransitivos.
Ou seja, para o positivo, necessita-se de complemento. Para o negativo, cada um se basta a si mesmo.
Alguns sentimentos que movem a humanidade servem, na verdade, para a destruição de todos e de cada um.
A arrogância, a altivez, o sentimento de superioridade demonstram, quando vistos com isenção e lucidez, um complexo de inferioridade invencível. Porque pretender ser melhor que o outro mostra que a sensação é que se é bem pior.
A inveja destrutiva pelo que não se tem leva à derrocada da personalidade, a ganância pelo que o outro tem mostra o desespero de não se sentir capaz de construir.
E, o pior, o sentimento de dominação, de que o outro não sobreviveria sem sua presença, é a perdição de muitos.
Porque o ser humano é resiliente e sua própria existência vem em primeiro lugar e deve ser defendida a todo custo. A perda do outro – para a vida ou para a morte – pode provocar algum sofrimento, mas que será superado.
Ninguém morre porque perdeu uma pessoa. Pode chorar. Pode gritar. Pode até querer morrer. Mas não morre. Sobrevive.
E um dia, com grata surpresa, perceberá até que pode ser feliz mesmo sem aquele que se foi.
Do outro lado, não sei se com surpresa ou com desespero, o que se foi perceberá que o abandonado voltou a ser feliz. Que todo o sofrimento, as lágrimas, a saudade, tudo se esgarçou com o tempo. E que foi completamente esquecido.
Quem muito se afasta, em um momento perde o fio para conseguir voltar. E se torna um “tanto faz” na vida do outro.
Fique perto, porque a distância, seja real, seja afetiva, leva ao esquecimento.
Dia de poesia – Cecília Meireles – Canção

No desequilíbrio dos mares, as proas giram sozinhas… Numa das naves que afundaram é que certamente tu vinhas. Eu te esperei todos os séculos sem desespero e sem desgosto, e morri de infinitas mortes guardando sempre o mesmo rosto Quando as ondas te carregaram meu olhos, entre águas e areias, cegaram como os das estátuas, a tudo quanto existe alheias. Minhas mãos pararam sobre o ar e endureceram junto ao vento, e perderam a cor que tinham e a lembrança do movimento. E o sorriso que eu te levava desprendeu-se e caiu de mim: e só talvez ele ainda viva dentro destas águas sem fim.
(Imagem: Foto de Maria Alice)
Memória – Resistir para viver
Ainda que pareça impossível de superar.
Ainda que isso pareça te esmagar todo dia.
Ainda que o desespero tente te fazer parar, aguente mais um pouco.
Não desista de você por nada, por ninguém.
A dor é a onda que passa. Você é o mar que fica.
(A menina e o violão)

Ah, palavrinha mágica essa tal de “superar”.
Quase ninguém se dá conta, mas se olhar de relance para trás, perceberá que ainda vive graças – exclusivamente – à própria capacidade de superação.
Desde quando se foi concebido já aconteceu uma superação. Dos milhares de óvulos e milhões de espermatozoides, a concepção se deu pelo encontro de um único óvulo e um só espermatozoide, que superaram todos os outros.
O nascimento requer uma incrível capacidade de superação. De um ambiente aconchegante, úmido, quente, silencioso e escuro, repentinamente a criança é exposta à luz, barulho, frio, secura e desconforto de um centro cirúrgico. Um choque. Mas superamos e sobrevivemos.
E assim pela vida afora – a separação traumática em relação à mãe nos primeiros dias de escola. As frustrações, o inevitável bullying para a maioria. Provas difíceis, notas baixas, quebras de expectativas. E superamos e sobrevivemos.
A confusa adolescência, as primeiras paixões, sem as quais pensávamos morrer. Tudo passou e nós não morremos.
Vida afora, nos estudos, nos empregos, nos amores, fomos lutando e nos superando para continuar existindo.
Tantos problemas a resolver. Tantos boletos a pagar. Tantos risos seguidos de tantas lágrimas. Tantas perdas pela via.
E resistimos. E superamos. E sobrevivemos.
Em nenhum momento a vida ficou mais leve nem mais fácil, mas nossa incrível capacidade de superação sempre nos fez cada vez mais fortes e com mais condições de seguir adiante. E se reinventar quantas vezes for preciso. Vencer todas as batalhas possíveis. Triunfar.
Por isso resistimos e insistimos. E, do alto – onde estamos graças a nós mesmos – olhamos em volta e dizemos: “eu venci”.
Isso é viver.
(Imagem: banco de imagens Google)
Texto de Vitor Ávila – Ela

Ela nem sempre foi compreendida pela vida, mas também nunca deixou de ter fé no dia seguinte.
Ela conhece os dias de luta e as suas próprias fraquezas.
Ela já quis desistir é claro e não foram poucas as vezes que o mundo parecia não fornecer abrigo nenhum.
Ela teve lágrimas de sangue mas as borboletas de sua alma nunca deixaram de voar.
Ela se trancou dentro de casa enquanto lá fora chovia tanto que os seus olhos podiam ter inveja do suposto sufoco que o céu despejara.
Ela sempre foi humilde e serena, era a própria gratidão em dias de sol.
Ela morreu.
Ela viveu.
Ela sofreu.
Chorou.
Acreditou.
E mais uma vez caiu.
Ela se levantou e deu a volta por cima.
Ela é como a fênix.
Ela descobriu ser a própria brisa e calmaria. Ela poderia ser a tempestade em forma humana mas preferiu ser refúgio.
Ela não é intacta, tem feridas que ainda não fecharam, mas
seu coração é com certeza a parte mais bonita do amor.
Ela é o amor!!!
(Imagem: foto de Maria Alice)