Poesia da casa – Guardiã do vento

Palavras ao Vento | Lírica
Eu, tua guardiã, ó Vento,				

Contigo percorri o mundo

Velei-te a todo momento

Guardei-te a cada segundo


Seguindo teus desafios

Deixei para trás minha vida,

Passei por tantos desvios

Sempre feliz e iludida


E quando penso ir embora

Vem a brisa e me sussurra

“Fique, ainda não é a hora”

Louca, me puxa e me empurra


Eu fico e não me arrependo

Ó Vento, minha perdição

E então tu foges correndo

Em forma de furacão


Nessa minha triste sina

De tentar conter o vento

Vem o tempo e me ensina

Que essa vida é um catavento


Esse momento há de chegar

Um dia partirás sozinho

Seguirei meu solitário caminho

Mas tu não me verás chorar


Eu, guardiã do Vento

de tudo meu desisti

Hoje vivo neste tormento

Em que brisa me perdi?


(Imagem: banco de imagens do Google)

Dia de Poesia – Olavo Bilac – Remorso

O sentido da vida trancafiado na quarentena - OliverTalk
Às vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

Abraço

Dia do Abraço: internautas comemoram data e enchem redes sociais de fofura;  veja reações | Busca voluntária - Notícias voluntariado

As nossas mãos se encontraram e se entrelaçaram

mas não foram apenas minhas mãos que você tocou,

como também não foram apenas suas mãos

que apertei entre as minhas mãos

naquele intenso, eterno e breve momento

em que nossos olhos se viram e nossos olhares se cruzaram.

Entramos dentro da alma, um do outro. Então

suavemente nossos corpos se tocaram

e no ritmo do desejo se enlaçaram

em um abraço de amor e rendição.

Na paz do instante em que fomos apenas um:

dois corpos unidos no abraço acontecido.

Senti meu coração bater junto do seu.

Seu sangue corria tentando se misturar ao meu.

Momento divino, anjos aplaudiram,

estrelas surgiram para nos ver.

A noite chegava aos poucos,

prometendo a lua dos namorados.

Todos os sons mundanos cessaram, só ouvimos nossa respiração.

Então a magia cessou, os corpos se afastaram;

os olhares, constrangidos, se voltaram a outras direções

e as mãos se soltaram, tímidas e envergonhadas

por terem proporcionado aquele abraço infinito

que durou eternamente por alguns segundos.

Um breve, fugaz e infinito momento nos uniu novamente

Antes que a nova separação se impusesse entre nós dois.

Mas aqui na minha alma você permaneceu,

deixando um rastro de querer dentro de mim.

E arrancou um pedaço de meu ser

e o levou consigo, para sempre, em sua alma

(Imagem – banco de imagens do Google)

Inferno

Lasciate ogni speranza voi ch’entrate

Diz o grande poeta Dante Aligheri que esta frase está na entrada do inferno – “Abandone toda a esperança vós que entrais aqui”. Não sei se o inferno tem entrada, muito menos se na entrada tem placa. Nem pretendo conferir.

Mas não nego que essa frase é instigante.

Sou movida a esperança. Esperança + perseverança = minha caraterística mais forte.

Poucas vezes desisti de algo. E não é bem desistir. Sou enxadrista. Às vezes chegamos em um ponto que a única saída é deitar o rei. Mas antes todas as tentativas foram feitas, todas as estratégias aplicadas.

Aí diz o Poeta: abandonai toda a esperança… Por que? Talvez porque ele pense que o inferno só tem a porta de entrada. Talvez porque ele vivia em algum inferno e não via saída.

O inferno não é no subsolo da vida nem da morte. O inferno é aqui.

Há pessoas que se especializam em tornar a vida dos outros um inferno particular. E há pessoas que permitem que outras tornem sua vida um inferno.

Aí tem mesmo de abandonar toda esperança se não tiver coragem para romper esse círculo vicioso de dominação.

Mas quem não desiste sabe que até no inferno há de ter uma porta de saída. Uma forma de se livrar das correntes que o prendem lá.

Esse inferno, que acontece nesta vida, e acredito ser o pior de todos, tem sim, uma porta de saída.

E uma palavra mágica que abre essa porta: “BASTA”. É só dizê-la.

E não desistir antes e perder a esperança.

(Imagem do banco de imagens Google)

Dia de poesia – Cecília Meireles – Canção Excêntrica

Calidoscópio #7 | jornadas2015ebpsp

Ando à procura de espaço

para o desenho da vida.

Em números me embaraço

e perco sempre a medida.

Se penso encontrar saída,

em vez de abrir um compasso,

Protejo-me num abraço

e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,

é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,

começa a achar um cansaço

esta procura de espaço

para o desenho da vida.

Já por exausta e descrida

não me animo a um breve traço:

– a saudosa do que não faço,

– do que faço, arrependida

(Imagem: banco de imagens Google)