De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.
Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Espaço de Ana Acto

Não te escreverei mais...
Porque todas as palavras sangrariam
Violentadas, ao serem subjugadas
Reesignificadas
E me denunciariam...
De amor as privaria
Porque o guardaria vivo em mim
Como réstia, do que fomos um dia
Não te escreverei mais...
Poderás até tentar ler nos meus sorrisos
Nas fotos espalhadas por aí
Mas nunca me saberás a verdade
Talvez meus olhos denunciem
A mágoa , a desilusão
Talvez não...
E só te desejo
Que um dia ames tão profundamente alguém
Que não necessites
De fechar dentro de ti o amor, como salvação
Nunca mais me sentirás as palavras ...
Poderás até lê-las
Mas já não te serão...
Dia de música – para flutuar n° 19
Por aí (Memória)
Quero a beleza do amanhecer na floresta, com o ruído das folhas ao vento
Misturados à algazarra animada dos pássaros e às cores do dia que surge.
Não posso ficar indiferente a tanta beleza, a tanta alegria da natureza
Que nesse altar se revigora todas as manhãs, e renova a vida, o céu e a terra.
Mas também quero o silêncio longo do anoitecer no lago da montanha
Com suas cores exóticas, brisa amiga, longos pios ao longe dentre as árvores
E a água se vestindo de ouro, de azul, de prata, de cinzas vários até enegrecer
E a noite, cálida e amiga, despertando os corações para novas paixões.
E não quero viver longe da cidade grande, com seu caos organizado, sua vida
Pulsante que nos provoca sempre – sobreviver é a proposta, viver é o desafio
Onde tudo é difícil, mas maravilhoso, tudo longe, mas compensador e vibrante
E ali, na madrugada que se esvai, então dormir com a certeza de um novo dia.
Mas preciso do mar, meu amado mar, de tantas vestes diferentes e humor variado
Nas horas sem fim, que passo a mirar as águas, as ondas vadias que me chamam
Ouvir seu canto infinito, sua eterna canção de me ninar nas noites insones
Apenas estar. Sentir. Não pensar, não sofrer, voltar às origens da vida sem dor.
Tudo isso eu quero, ver a vida de tantas e diferentes janelas, nunca ficar parada
Saber que em algum lugar alguém me espera com ansiedade, sabendo que irei
Porque nunca estou, sou vento, sou chuva – apenas passo e não me detenho.
Voltarei pelo seu amor: não posso parar, sou ave de arribação, espere por mim.
Dia de Poesia – Mario Quintana – Seiscentos e Sessenta e Seis

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente…
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Poesia da casa – Silêncio pelo menino morto
Será que o mundo já esqueceu?

O menino deitado na areia Adormeceu Espera por seu pai De quem se perdeu. O menino deitado na areia Fugiu de sua pátria Fugiu da guerra e do horror Fugiu da fome e da violência. No vento frio da noite Segurava na mão de seu pai O menino deitado na areia Tinha pai, tinha mãe e irmão. No vento da noite o balanço do mar No frio da noite as ondas imensas No escuro da noite seu corpo no mar. Não viu onde foi seu irmão Não ouviu mais a voz de sua mãe Não achou mais a mão de seu pai. E as ondas do mar levaram o menino E o deixaram na beira da praia. Adormecido ali ficou o menino. O pequenino na areia da praia. Rostinho virado de lado não viu A cem metros estava seu irmão Deitado na areia da praia Dormindo na beira do mar. Não mais se deram as mãos Não mais se viram os rostos. O menino deitado na areia Deixou um planeta chocado Sacudiu o conforto de todos Arrancou lágrimas de dor Porque não brincava o menino Não aproveitava a alegria da praia O menino deitado na areia Fugindo do horror e da guerra Não dormia o menino na areia: Estava morto o menino Deitado na areia da praia Morrera nas ondas do mar. (para Alyam Kurdi, 2015)