A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Blogueira, escritora, poeta... porque escrever é preciso
Amor Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação? Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos Fingir que hoje é domingo, vamos ver O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão? Vamos, amor, tomar thé na Cavé com madame de Sevignée Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto? Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol Vamos, amor? Porque excessivamente grave é a Vida. - Vinicius de Moraes -
Vendo um amor,
mas não é um amor novo;
é um amor de segunda mão:
esse amor foi devolvido,
esse amor já foi usado,
mas está em ótimo estado.
É um amor cuidadoso,
um amor sem vícios e
sem defeitos:
é um amor que ainda ama...
O anoitecer é mais o morrer do que o pôr do sol. Os sons se desfazem nos espaços agora largos, Preguiçoso e lento o dia se afasta pesadamente. Quero me mover, mas faltam-me as forças, E me deixo ficar, inerte, como sem alma, E o vento canta para me distrair, brinca comigo, Enquanto os últimos pássaros da tarde se recolhem. O céu se veste de outras cores, anunciando Ao mundo que o dia se acabou. E com o dia, tanto e tantos também se foram. Olho para o céu, à procura da lua, Mas o sol, já desbotando, ainda domina. Penso na vida, que se acaba tão devagar Que por vezes a pensamos eterna, Como um dia que se esvai lentamente. Mas a noite virá e cobrirá o dia de escuro, Assim também virá a morte e escurecerá a vida. Há beleza no entardecer, no preceder da noite, Como a beleza da saudade do que não se foi por inteiro, E se arrasta em uma longa agonia colorida, Transformando a paisagem com suas cores tristes Que se enlaçam e se combinam, Em uma perfeita harmonia para os olhos. Agora, tudo é silêncio, e a natureza, imóvel, Espera que enfim, o sol desapareça E a calma da noite nos traga a paz.
Foram-se os amores que tive ou me tiveram: partiram num cortejo iluminado. O tempo me ensinou a não acreditar demais na morte, nem demais na vida: cultivo alegrias num jardim onde estamos eu, os sonhos idos, os velhos amores e seus segredos. E a esperança - que rebrilha como pedrinhas de cor entre as raízes.
Dans l’Histoire des temps la vie n’est qu’une ivresse, la Vérité c’est la Mort. ( L.-F. Céline)
Seria a morte apenas o reverso da vida? da mesma forma que o lado cara de uma moeda jamais poderá ver o lado coroa, a vida e a morte nunca se poderiam ver nem encontrar?
Ou a morte é a continuidade da vida em outro lugar, como acontece quando nos mudamos de cidade, e continuamos com a mesma vida, mas ao redor tudo se torna diferente?
A morte é apenas o fim da vida, ou o começo de outra existência, da mesma forma que a fase borboleta sucede a fase crisálida?
A vida só vai até a morte. E a morte, é para sempre?
O que é a morte? Ou melhor, o que é a vida?
O que vale mais a pena – viver ou morrer?
Tudo o que se faz na vida é provisório – o trabalho, o amor, a moradia, porque a morte virá. E na morte, tudo é definitivo?
Em um momento você está aí, hígido, alegre, trabalhando, pensando, comemorando. Daí a instantes, dentro do conceito tempo infinito, está morto, cremado ou enterrado em um caixão. Você só está vivo até morrer. Mas estará morto para sempre.
A vida, nesse conceito do infinito, seria, então um lampejo, um breve instante, porque todos passam mais tempo morto do que vivo.
Talvez a vida fosse, então, como um aperitivo, uma avant-première, para se ter uma ideia do que é viver. Porque, na verdade, estão, todos, sendo preparados para morrer.
E alguns sequer aproveitam essa prévia que nos é graciosamente concedida. Não vivem por medo de morrer.
Respiram o mínimo possível, comem o mais saudável possível, não bebem bebidas alcóolicas, não se entregam às paixões. Vivem apenas para se guardarem para a morte.
Ou nem vivem. Apenas esperam morrer. Alguns até se matam antes que morram.
Sem consciência de que todos morrerão, quantos passam a vida acumulando bens, sem aproveitar o que a vida lhes oferece, apenas pensando em aumentar patrimônio. Sem entender que tudo ficará nessa Terra, para favorecer quem nunca fez nada para ter o sacrifício de uma vida não vivida.
A vida é tão curta, tão frágil! Tem a duração e a resistência da chama de uma pequena vela. Começa a queimar no nascimento e não para até se extinguir na morte.
Como uma onda do mar, que se desfaz e desaparece logo que arrebenta e se torna visível com suas espumas. Ou uma nuvem, feita de nada, que o vento espalha e some no céu azul sem deixar vestígios.
Qualquer abalo, um mínimo sopro, e a chama se apaga. A vida se acaba subitamente. Não há meio de preservá-la ou prolongá-la.
Se somos tão diferentes no curso da vida, a morte nos iguala a todos.
Por isso, ame mais um pouco, apaixone-se mais intensamente, beba mais um copo, dê mais um sorriso.