Dia de poesia – Os versos que te fiz – Florbela Espanca

OS VERSOS QUE TE FIZ

 

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que a minha boca tem pra te dizer!

São talhados em mármore de Paros

Cinzelados por mim pra te oferecer.

 

Têm dolência de veludos caros,

São como sedas pálidas a arder…

Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que foram feitos pra te endoidecer!

 

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda…

Que a boca da mulher é sempre linda

Se dentro guarda um verso que não diz!

 

Amo-te tanto! E nunca te beijei…

E nesse beijo, Amor, que eu te não dei

Guardo os versos mais lindos que te fiz!

(Florbela Espanca)

Como um barco

 

 

Como se eu fosse o barco no meio do mar

Que navega em círculos e mais círculos

Vendo as luzes do cais ali tão perto

Mas não pode dele se aproximar

 

Cruzei os mares e ancorei em outros portos

Vi outras paisagens e me perdi nas ondas

Fui levada pelo vento e vencida pelo cansaço

Tantos perigos, tantos dragões enfrentei

 

Como se fosse um barco ao sabor do mar

Embalei minhas noites nas calmas ondas

Atravessei dias de fortes tempestades

Vi em mim o sol nascer e também o por-do-sol

 

O mar calmo era sempre o mais perigoso

Os ventos, as rochas, os naufrágios

Tudo era sobressalto, era medo, era difícil

Mas a marola me acalmava e embalava

 

Olho agora esse cais a minha espera

Vejo que existe, é sólido e está aí

Sei que não posso me aproximar, mas tento:

Eu sonho, eu quero, eu preciso atracar

 

O cansaço de tantas travessias vividas

De tantas decepções sofridas e

Tantos amores já mortos ou perdidos

Mostra que você é meu cais, é meu porto

 

Estou presa por grossos fios invisíveis a

Um barco à deriva, sem remo e sem leme

E um vento indizível me impede de ir

Sofro sozinha aqui, entre as ondas e o vento

 

Quantas batalhas enfrentei sem ganhar

Quantas derrotas suportei nesses mares

Mas consegui, de algum jeito, sobreviver

E agora avisto meu cais, meu velho porto

 

À espera de um momento mais acertado

Em que eu possa finalmente me aproximar

Levar meu barco até seu cais tão sonhado

Jogar minhas cordas e em ti descansar

 

Dia de Poesia – Os Ombros Suportam o Mundo – Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.

Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.

E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos

edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo

prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas sem mistificação.

Dia de poesia – Ser poeta – Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

É condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

Atalho secreto

Somos opostos. Em tudo:

eu sou mar, você é rio;

você é floresta, eu sou cidade;

eu sou sol, você é lua;

você é noite, eu sou dia.

Mas quando nossos olhares se cruzam

nossas mãos se tocam e

nossos corpos se encontram na maciez dos lençóis,

tudo isso desaparece.

Se antes um era prata e outro, ouro,

somos, agora, apenas dois loucos de paixão.

E nos amamos ardentemente,

amalgamando nossas naturezas,

derrubando todas as barreiras

em uma fusão enlouquecida e inseparável.

Nesse hiato de um inesperado eclipse

entre meu sol e sua lua, sua noite e meu dia,

nossos mundos se reduzem a um ponto –

Um único ponto desse vasto universo

onde todas as estrelas vêm brilhar

e invejar esse doido amor

que tudo desmonta, tudo desmente

e nos une e mistura esses mundos,

até chegar o inevitável e triste momento

quando, encantados, seguimos adiante,

cada qual trilhando um caminho próprio.

Mas neste universo em que todas as linhas se tocam,

perpendiculares, paralelas, convergentes,

divergentes, retas ou curvas,

sempre haverá um mágico momento,

em que elas se encontram no finito da vida,

como estradas que em algum ponto se atravessam.

E quando nossos destinos se cruzam,

não há mais céu nem terra

nem há mais claro nem há mais escuro.

Existe, então, esse atalho secreto,

apenas um ponto de amor

a desafiar toda a lógica dos homens

e mostrar a esse mundo descrente

que podemos provocar o destino

e escrever, nós mesmos, nossa trajetória…

Dia de poesia – Alberto Caeiro

              XVI

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois

Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,

E que para de onde veio volta depois

Quase à noitinha pela mesma estrada.

 

Eu não tinha que ter esperanças – tinha só que ter rodas…

A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco…

Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas

E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

(de O Guardador de Rebanhos)