Dia de Poesia – Zorongo (*)

 

Essas mãos de meu carinho

te estão bordando uma capa

com recamo de alelis

e com esclavina de água.

Quando tu foste meu noivo

pela primavera branca

os cascos de teu cavalo

quatro soluços de prata.

A lua é um poço pequeno,

as flores não valem nada,

o que vale são teus braços

quando de noite me abraçam,

o que vale são teus braços,

quando de noite me abraçam.

(Garcia Lorca)

(*) Baile popular andaluz

Bolha de sabão

 

Paira, um momento, tão linda

Coloridamente flutua e roda

E sobe, e desce, e vem, e vai

Tocada por quase imperceptível brisa

 

E, como um ímã, hipnotiza

Já não vemos mais nada ao redor

Nossos olhos, fixos e encantados

Seguem a bolha de sabão pelo ar

 

Ela brinca com cada um que a vê

Chega perto e sorrindo foge

Não se deixa tocar nem prender

Sua vida é encantar e alegrar

 

Mas não nasceu para ficar

Tem de ir, flutuar, deslumbrar

Até que, num súbito momento,

Se desfaça no ar e quebre o encanto…

 

Assim também foi minha paixão

Surgiu num de repente da vida

Bailou, flutuou, me encantou

Hipnotizada eu a segui deslumbrada

 

Suas cores eram as mais lindas

Sua existência se tornou meu existir

E a brisa, teimosa, a levava de mim

Angustiada num momento insano tentei detê-la

 

E diante de meus olhos, agora molhados de lágrimas

Ela se desfez no ar e deixou-me a lembrança

De toda sua beleza, de tanta leveza

E então, no meu sofrer aprendi:

 

Nunca toque, nem tente prender a paixão

Porque ela é mera bolha de sabão…

Hoje é dia de Poesia – Canção

 

Canção

(Cecília Meireles)

 

Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

– depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar

 

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos

colore as areias desertas.

 

O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio…

 

Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

 

Depois, tudo estará perfeito;

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas

De namorar

Namoradas e namorados,

Tão enamorados…

Seguem de mãos dadas

Olhos nos olhos

Pensando no que virá

O futuro em comum

Começando com um sonoro

Felizes para sempre!!!!!

Namoradas e namorados,

Sempre tão enamorados

Não sabem que o tempo

Leva rápido a juventude

Chegará a idade da responsabilidade

Até mesmo se esquecerão que

Tudo começou com um

Felizes para sempre!!!!!!!!!!!!!!!!!

Aproveitem, namoradas

Aproveitem, namorados

Que tempo melhor não há

Namorar é intensidade

É leveza, é diversão

É apaixonar-se – 

a melhor parte da vida…

Aproveitem, namorem

Namorem muito, namorem bastante

E mesmo assim, um dia sentirão falta

De simplesmente namorar

Estar junto sem compromisso

Sem boletos nem cobranças

Vivendo sem amanhã

No embalo da paixão

Rotina

Sons que atravessam o espaço e trazem o sussurro do que foi perdido

Vento que vem de tão longe com o perfume de flores desconhecidas

Mostram que o mundo é pequeno, é só um, é esse único mundo

Os que sofrem coabitam o mesmo mundo dos felizes

Rastros de estrelas ainda brilham pelo espaço

Mesmo depois que o sol surgindo ameaça tudo apagar com sua luz

A lua tristonha e esmaecida desaparece por trás dos montes

Porque essa Terra gira e gira sem nunca parar

E sol e lua se alternam desde sempre e assim sempre será

E os homens esperam a cada dia o novo amanhecer

Acreditando que nessa rotina infalível está a felicidade

Se nada muda na natureza e as estações do ano

Se sucedem e trazem suas velhas novidades

Na vida de cada um tudo se altera e nada fica

Mas é preciso acreditar que tudo se manterá

E teremos, sempre a certeza de ver acontecer

A cada dia, seus passos, a cada noite, seus sonhos

Dia de Poesia – Estrela do mar

Mais que uma canção, uma poesia…

Um pequenino grão de areia
Que era um pobre sonhador
Olhando o céu viu uma estrela
E imaginou coisas de amor


Passaram anos, muitos anos
Ela no céu e ele no mar
Dizem que nunca o pobrezinho
Pode com ela se encontrar

Se houve ou se não houve
Alguma coisa entre eles dois
Ninguém soube até hoje explicar


O que há de verdade
É que depois, muito depois
Apareceu a estrela do mar.

(Marino Pinto/Paulo Soledade)