Dia de poesia – O mais-que-perfeito

  O MAIS-QUE-PERFEITO

           (Vinicius de Moraes)

 

 

Ah, quem me dera ir-me

       Contigo agora

Para um horizonte firme

       (Comum, embora…)

Ah, quem me dera ir-me!

 

Ah, quem me dera amar-te

        Sem mais ciúmes

De alguém em algum lugar

        Que não presumes…

Ah, quem me dera amar-te

 

Ah, que me dera ver-te

        Sempre a meu lado

Sem precisar dizer-te

        Jamais: cuidado…

Ah, quem me dera ver-te

 

Ah, quem me dera ter-te

        Como um lugar

Plantado num chão verde

        Para eu morar-te

Morar-te até morrer-te

Poesia da casa – Chão de terra

 

Chão de terra batida de minha infância

Cheiro de chuva molhando o capim

ao redor cantos de pássaros entre árvores

e na varanda o doce colo de minha avó

 

Chão de terra batida de minha alegria

Da liberdade que deixou tanta saudade

ao longe a cerca que se destinava

a me proteger de todos os perigos

 

Perigo era o poço d’água fundo e mal tampado

Perigo era a vaca brava que perseguia com seus chifres

Perigo era a máquina de triturar ração

– eram esses os perigos de minha infância

 

Chão de terra batida de minha lembrança

O café – tão lindo – secando no terreiro

o doce de leite sobre o fogão de lenha…

Chão de terra batida que nunca mais pisei!

 

 

Poesia da casa – A pena

A pena que leve voa,

solta, flutua no espaço,

é a mesma que transcreve

as mágoas todas que passo.

 

A pena que nada sente

é a pena que tudo escreve;

e que de nada tem pena,

mas todas as dores descreve.

 

Essa pena, todas as penas

e a dor que o outro sente,

ela apenas reescreve;

ela subscreve o que não sente,

 

mas a pena nunca mente:

porque a dor que ela escreve

é o poeta quem sente.

Soneto do Amor como um Rio

Hoje é dia de poesia. Dia de Vinicius de Moraes:

 

Este infinito amor de um ano faz
Que é maior que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.

Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno, interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.

(Vinicius de Moraes)

Poesia da casa – Anoitecer

Na hora mágica do anoitecer,

quanto o encanto acontece

por já não ser mais ser dia

mas não é noite ainda

as cores e as luzes se misturam

numa indecisão de brilhos e reflexos vários

 algo se rompe dentro de mim

e também já não sei quem sou nem onde estou

e loucamente começo a te buscar

em cada minuto em cada segundo

em cada astro que surge no infinito

cada estrela que surge a brilhar me trazem teus olhos

 a lua ri de mim e mostra direções incertas

 todos os sons da natureza se transformam

pássaros já não cantam mais, recolhidos nos ninhos

 os gritos das crianças silenciam

e não se ouvem mais as buzinas dos carros

novos sons surgem a cada instante 

grilos invisíveis enchem o ar com seu cricrilar encantador

ao longe a primeira coruja pia, daqui outra responde,

e, num repente não  visto, o sol se retira completamente

e o escuro impera no céu e na terra.

Outras são as luzes que agora me guiam

E esses novos sons às vezes me apavoram

Mesmo assim sigo nessa procura insana

Que talvez já tenha perdido o sentido

Quanto mais eu te busco a cada noite,

mais eu não te encontro

e não me pergunte se e por que tenho tanta pressa em te ver

eu sei que tenho pressa,

muita pressa nesse encontro

porque como esse anoitecer que encerra mais esse dia

a noite dos tempos também está chegando

para encerrar o dia da minha vida  

Começo de amar

A gente começa a amar
Por simples curiosidade,
Por ter lido num olhar
Certa possibilidade.
E como, no fundo, a gente
Se quer muito bem.
Ama quem ama somente
Pelo gosto igual que tem.
Pelo amor de amar começa
A repartir dor por dor,
E se habitua depressa
A trocar frases de amor.
E, sem pensar, vai falando
De novo as que já falou,
E então continua amando
Só porque já começou.

(Paul Géraldy)