Recordações

Já dizia a canção que “recordar é viver”… 

Com toda razão.

Remexendo antigos papéis, encontro um caderno de poesias feito pela minha amiga Raquel. Comecei a reler poesia por poesia.

Dentre elas, uma que sempre “me inspirou”, da qual não sei o título e desconheço a autoria. Mas trouxe-me de volta à memória o tempo de colégio, quando – Raquel e eu – líamos todos os livros que conseguíamos (e não eram poucos, líamos vorazmente), líamos poesias, copiávamos aquelas que mais nos agradavam. E com toda essa recordação veio a saudade.

Saudade de um tempo que jamais voltará, da amiga hoje distanciada, da leveza dos tempos de adolescentes. A nostalgia por ver que tudo passou, ficou no tempo… Mas o amor pela leitura e em especial pela poesia não acabou. Esse a tudo resiste.

Deixo, aqui, esse texto para dividir com vocês:

 

“Dos restos de um amor igual ao nosso

Não pode uma amizade florescer,

É justo que tu o queixes, não o posso

Depois de tanto amar-te, apenas te querer

 

Embora terminássemos sem briga,

Sem um gesto ou palavra de rancor

Como posso chamar-te meu amigo,

Se já te chamei de meu amor?

 

Como posso apertar indiferente,

Sem sentir uma forte emoção

As mãos que apertei apaixonadamente,

As mãos que esmaguei em minhas mãos?”

E quando você quase desistir do amor, alguém virá e fará você acreditar de novo

Passados quase dois anos que li, acho que ainda é atual e merece ser compartilhado:

Eu não estou falando de enganos, de mentiras e de falsas promessas.

Estou falando de alguém que virá para lhe mostrar como é bom se sentir amada(o).

Aquela sensação de alguém lhe querer por inteiro e achar linda a sua risada. Eu sei que você quase desistiu do amor e talvez tenha até desistido. Pode ser que você tenha se ferido muito e acreditado que o tal amor não é para você.

Mas quando estamos cansados de conhecer pessoas, famílias e de achar que “agora é para valer” vem alguém e doma os nossos medos e nos faz acreditar que vale a pena tentar de novo, mesmo com medo, mesmo recuando e dando desculpas esse alguém sabe exatamente o que quer: você.

E sabe? Por querer tanto você esse alguém não desistirá no primeiro impasse, mas vai ignorar suas desculpas e fazer de tudo para ficar ao seu lado.

Quando menos se espera vem alguém e muda os nossos rumos, faz com que a gente queira sonhar novamente e nos mostra que a vida é muito mais do que amores frustrados.

Alguém que faz você perder a noção de tempo, que faz a madrugada virar rotina de conversa e mesmo você sendo tão sonolenta nunca pega no sono quando o assunto é esse alguém. E mesmo depois de tanto choro e de tanta dor, mesmo você quase desistindo do amor esse alguém virá não com espinhos, mas com flor, para lhe mostrar que a beleza dessa vida não faz sentido se não houver amor.

Esse alguém virá para lhe mostrar que carinho é sempre bom e que você não merece nada menos do que alguém inteiro.

Você entenderá o porquê de tantos erros e de tantos tombos nesse tal do amor. Porque quando você quase desistir, virá alguém para abalar com toda a sua rigidez. Alguém que fará seu corpo balançar apenas com um toque.

Quando menos se espera, alguém aparece e nos mostra que nunca fomos amados da maneira que merecíamos.

(Thamilly Rozendo   25 de fevereiro de 2018)

Decisão

A esposa perguntou se ele queria conversar. Ele disse que não. Estava muito calado, sem apetite. Ela o conhecia o suficiente para saber que ele estava prestes a tomar alguma decisão muito importante e por isso estava tenso e angustiado. Afastou-se e o deixou imerso em seus pensamentos.

Sentia-se muito só. O Poder isola as pessoas. E agora precisava tomar uma decisão terrível, era a hora mais solitária de sua existência.

Abriu a pasta que estava sobre a mesa e leu, pela milésima vez, uma carta que quase já sabia de cor, recebida há algumas semanas, enviada por um militar reformado que fora seu superior. Foi direto ao trecho que havia destacado: “Não falo como soldado. Nem como seu antigo superior. Fomos amigos, servimos juntos, estivemos lado a lado em uma guerra onde lutamos pelo nosso país e nosso povo antes mesmo de lutar por nossa própria vida. Nem como um pai dilacerado pela perda de um filho. Meu filho era soldado, morreu pela Pátria, o que honra sua morte, e alguém já disse que quem morre servindo à Pátria não morre, mas a ela se funde, não me lembro quem, está difícil organizar os pensamentos nesse momento de luto, vendo a dor de minha esposa e meus outros filhos. Mas falo como cidadão, como patriota: O que mais precisa acontecer para você entender onde estão nossos inimigos? Que a hesitação no Poder pode custar muito mais vidas inocentes do que a decisão rápida e adequada?…”

Sentiu uma dor profunda, pensou em sua própria esposa e nos filhos. Nunca fora de hesitar nem tivera medo de tomar decisões e arcar com as consequências.

Leu alguns relatórios. Pensou durante algum tempo. Voltou ao trecho da carta e finalmente decidiu. Pegou o telefone e apertou o número da linha direta. Ao ser atendido, disse simplesmente “Ordem concedida. Podem atacar!”…

Ano novo, vida velha

Repetindo:

 

E no final das contas não são os anos em sua vida que contam. É a vida nos seus anos.(Abraham Lincoln)

 

De repente você preenche um cheque e descobre que é novo ano. Mais um ano (na verdade MENOS um ano, pois os anos vividos devem ser descontados, a cada ano faltam menos anos para vivermos). 

Na noite de réveillon há mil promessas, intenções – sempre boas, maravilhosas – planos de ano novo. 

E três ou quatro dias depois o ano já não é tão novo, os planos são abandonados, as promessas esquecidas e as boas intenções se desfazem no ar. 

E tudo continua igual sempre foi. A rotina, as tristezas, as perdas. 

A vida, olhando bem, é uma sucessão de perdas. 

Perdemos o encanto da infância, os sonhos da juventude, perdemos parentes e amigos, perdemos lugares que deixam de existir… 

Quanto mais vivemos mais perdemos. 

Só nos dedicamos aos ganhos materiais, que menos importam para uma vida que valha a pena ser vivida. 

E nos arrastamos do réveillon ao carnaval, deste à semana santa, todos os marcos que durante o ano ponteiam nosso tempo. E logo, muito logo, será novamente réveillon, e menos um ano na nossa vida.

Votos de Ano Novo

Todo dia 31 de dezembro há uma intensa troca de votos alvissareiros através das redes sociais. Tenho a maior preguiça do mundo em participar disso.

Entretanto, em nome da boa convivência, para que ninguém se sinta excluído do meu carinho, transcrevo um poema de Drummond, com os desejos mais simples, mas que reflete exatamente o que desejo a vocês, leitores desse blog:

Desejos
Desejo a vocês…
“Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não Ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu”

 

O rio e a vida

Ao nascer, um pequeno olho d’água, não sabe o que o destino lhe reserva. Pode ficar ali, contido, secando ao sol do dia, pequena e insignificante nascente, esquecida da sorte.

Outros, entretanto, correm para longe, formando cursos d’água, córregos e rios. Pequenos e grandes, ignorados ou importantes.

Alguns enfrentam vários obstáculos – pedras pequenas e grandes, montanhas, rochas. Mas não desistem. Cobrem algumas, contornam outras, desviam ou cavam, mas seguem adiante.

Nada detém seu desejo de crescer e chegar até o mar, destino final de todos.

Mais cedo ou mais tarde, irá encontrar o oceano. Sem ter ideia do que se trata, de sua dimensão.

E, nesse encontro, sentirá pavor de sua imensidão. Mas é tarde demais, não tem volta.

Então, o rio se entrega ao mar, suas águas se fundem e se tornam apenas um.

A cada fonte, seu destino.

Assim é nossa vida – todos nascem iguais. Nem todos sobrevivem. Os mais fortes são aqueles que enfrentaram os maiores desafios. E, no momento derradeiro, encaramos a morte. Que nos leva, nos funde, apaga nossa existência nesse mundo.