Além da realidade

Gosto muito de cinema. Houve períodos em minha vida (antes dos domésticos videocassetes) que ia ao cinema três ou quatro vezes por semana. Resultado: assisti muito filme ruim, mas também vi filmes inesquecíveis. 

Nessa época sonhava em ter uma casa com uma sala de cinema só minha, para assistir meus filmes sem os inconvenientes de plateias por vezes sem muita educação. 

Mas o progresso chegou e nem precisei tanto: basta um aparelho de televisão, o dvd e uma “filmoteca” (hoje dvdteca) particular e pronto. 

Infelizmente falta tempo, já não vejo mais três ou quatro filmes por semana. 

Sondo todos os sites de venda de dvds, escarafuncho com afinco, e vou conseguindo alguns filmes de mais de 40 anos, e é um prazer vê-los e/ou revê-los. 

E participar do filme, sair da realidade, assim como em A Rosa Púrpura do Cairo. 

E confundir realidade e ficção, como em A Mulher do Tenente Francês. 

Se quer retesar a alma como uma corda de violino, que tal Kolya, Uma Lição de Amor? ou Música do Coração? 

Precisa rir? Um Convidado Bem Trapalhão, ou Parente é serpente… 

Poesia e beleza? As Pontes de Madison; Lendas da Paixão… 

Antigos interessantes, como No Caminho dos Elefantes. 

E ainda ficção científica, como Westworld, Onde Ninguém Tem Alma. 

 Aventuras, épicos, faroestes, históricos, documentários… é um rico mundo paralelo. 

E pergunto: para que analistas, psicólogos e similares? Nenhum mal da alma há que um bom filme não cure.

Ler

Por que ler?

Faço essa pergunta sempre a mim mesma. E são tantas as respostas, que aparentemente é uma pergunta sem resposta.

Não “aprendi” a ler no sentido técnico, ou melhor, ninguém me ensinou a ler. Simplesmente, eu sempre li.

Talvez já o soubesse ao nascer. Quando as pessoas perceberam, por volta de 4 a 5 anos, eu sabia ler. Simplesmente, eu lia.

Nunca fora à escola. Nunca me haviam ensinado alfabeto. Não sei como se alfabetiza uma criança. Apenas sabia ler. Mas não sabia escrever.

E lia.

Lia tudo. Lia muito.

Entrei na escola direto no primeiro ano primário, com sete anos completos. E dona Olga me ensinou a escrever. E eu tive o primeiro contato com uma biblioteca. A escola dividia biblioteca infantil de biblioteca juvenil. Eu podia frequentar, desde o primeiro ano, a biblioteca infantil.

Com nove anos já lera todos os livros dessa biblioteca. Consegui ser autorizada a frequentar (e, por consequência, ter acesso à retirada de livros) a biblioteca juvenil.

Até os treze anos já lera tudo dessa que me interessava, e, a partir dos onze anos, foi inaugurada uma biblioteca pública municipal na cidade onde morava, e lá passou a ser minha segunda casa.

Como eu amava aquele ambiente! Eram cartões e mais cartões (tínhamos uns cartõezinhos onde eram anotados a data da retirada e o código do livro e depois a data da devolução). Nessa época meu ideal era ser bibliotecária…

E continuo lendo. Vivendo em meio a muitos livros. Juntando meus livros existentes nas minhas várias casas, tenho, atualmente, mais de quatro mil exemplares.

Então respondo:

Leio, porque preciso ler. Leio porque ler me leva para outros mundos, para outras vidas, e faz esta mais suportável.

Leio, porque alguém se dedicou a escrever esperando exatamente que outro alguém lesse e visse o mundo pelos olhos do autor.

Leio porque minha alma precisa respirar para viver, e isso só acontece quando a leitura me leva para outra dimensão.

Leio porque quero saber. Quero saber o que o autor pensou, o que o personagem pensou. Porque o autor cria o personagem, mas este tem vida própria. Domina seu criador e impõe sua existência, numa simbiose surreal quase inexplicável.

Leio porque minha mente precisa viajar para onde nunca fui nem irei, a não ser através da leitura, da experiência de quem foi e viveu.

Leio, simplesmente, porque gosto. Porque é bom. É prazeroso.

Livros fazem companhia, trazem paz, desafiam o pensamento…

E, por fim, leio porque existem livros…

Dos livros

Um livro é como um filho.

Você o pensa, depois o sonha. Depois que o concebe, são meses até seu nascimento.

Há todo um processo a ser seguido, você tem de se preparar para as horas de prazer, mas também há os momentos não tão doces…

Escrever é religião. Está no sangue. Não dá para ignorar. Você tem de escrever. Se é romance ou um conto mais longo, quando você o deixa de lado, os personagens surgem no seu pensamento, conversam com você, cobram que continue a escrever, querem ter vida, querem que se lhes dê à luz.

Se é poesia, ela fica dançando e rodopiando dentro da cabeça, até você não aguentar mais e a despejar em um papel. Aí ela toma forma e vida própria.

Mas publicar o livro, não é tão simples quanto escrever o livro.

As chatíssimas revisões.

Parece um pingue-pongue com bolinha presa à raquete com elástico. Vai-e-vem, vem-e-vai…

Aí a capa.

Um dia, do nada, você visualiza a capa.

E então o ilustrador tem de entrar em sua mente para enxergar o que você está vendo. E colocar tudo no papel. E sair igualzinho você pensou…

Se houver ilustrações internas, esse processo se repete tantas vezes quantas forem as ilustrações.

Aí – se você for sortudo e tiver uma editora séria – entrega tudo na editora.

Aguarda o registro.

As provas.

Finalmente, um dia, um envelope – ou pacote – está sobre sua mesa quando você chega do trabalho.

Com o coração aos pulos você abre e – Eco!!!!! – eis seu filho amado, ou melhor, seu livro sonhado ali, materializado, lindo, em suas mãos.

Não há outro jeito, senão abraçá-lo e deixar as lágrimas correrem.

Cada livro publicado é um novo processo, uma nova torrente de emoções.

Espero passar por muitas outras mais na vida…

Cem dias de blog

No final de dezembro, reinaugurei meu blog Alinhavando letras.

Agora é o Blog da Alice – Alinhavando letras.

Deu certo, nova plataforma, tudo “nos conformes”…

Então, há cem dias atrás, fiz o propósito de postar durante cem dias seguidos. Hoje é o centésimo dia.

Dia a dia, nesses cem dias, eu postei alguma coisa. Mesmo enfrentando uma tempestade na vida pessoal, inúmeros problemas, nada conseguiu impedir que eu atingisse minha meta e cumprisse um compromisso assumido comigo mesma.

Cem postagens consecutivas.

Perseverança. Dedicação. E muito amor.

Porque blog é uma relação de amor. Comigo e com quem vem me visitar. Com todos vocês que passam por aqui.

Sei que não continuarei aqui com tanta assiduidade, pois as dificuldades enfrentadas estão se agravando, e meu tempo anda muito diminuto. Não sei onde estão as 24 do meu dia…

Mas, de todo coração, agradeço a todos e a cada leitor que por aqui passou. Que apenas leu, que curtiu, que comentou.

Você faz a diferença na minha vida. Pode acreditar.

Obrigada e um brinde!!!!!!

 

 

 

 

 

 

O poeta do mar

Vicente de Carvalho, o poeta do mar. Sempre amei poesia. Sempre amei o mar. Desde muito cedo aprendi a amar a poesia de Vicente de Carvalho.

No começo de minha vida morei em Santos. E passava pela sua estátua, na orla da praia, ainda muito pequena para entender quem e o que era – mas já sabia que era a estátua do Poeta Vicente de Carvalho.

   

Mais tarde conheci sua biografia. E sua poesia.

E a paixão foi inevitável.

Decorava seus textos, de tanto lê-los.

E nessa semana, em que se comemora a data de seu nascimento, minha singela homenagem ao poeta e ao homem que se opôs à privatização das praias, que as queria públicas, por todos frequentada, “ … Mar, belo mar selvagem / Ah! Vem daí por certo a voz que escuto em mim…

Deixo aqui,  escolhida dentre muitas, uma poesia encantadora que sempre me fascinou:  

“Deixa-me, fonte!” Dizia

A flor, tonta de terror.

E a fonte, sonora e fria,

Cantava, levando a flor.

 

“Deixa-me, deixa-me, fonte!”

Dizia a flor a chorar:

“Eu fui nascida no monte…

Não me leves para o mar.”

 

E a fonte, rápida e fria,

Com um sussurro zombador,

Por sobre a areia corria,

Corria levando a flor.

 

“Ai, balanços do meu galho,

Balanços do berço meu;

Ai, claras gotas de orvalho

Caídas do azul do céu!…”

 

Chorava a flor, e gemia,

Branca, branca de terror,

E a fonte, sonora e fria,

Rolava, levando a flor.

 

“Adeus, sombra das ramadas,

Cantigas do rouxinol;

Ai, festa das madrugadas,

Doçuras do por do sol;

 

Carícia das brisas leves

Que abrem rasgões de luar…

Fonte, fonte, não me leves,

Não me leves para o mar!…” 

…………..

 As correntezas da vida

E os restos do meu amor

Resvalam numa descida

Como a da fonte e da flor…

Como passa rápido o nosso tempo…

El tiempo pasa, nos vamos poniendo viejos… Pasan los años, y como cambia, lo que siento, lo que ayer era amor…  (maravilhosa canção Años, cantado por Mercedes Sosa e Pablo Milanés)

                               

 

Da mesma forma que as nuvens se formam, se ajuntam, se separam, desaparecem no céu, o mesmo acontece com as espumas do mar, e também com os dias de nossa vida.

Só podemos viver o hoje, um dia de cada vez… deixamos o tempo num passado distante do que já foi e temos pressa, queremos muito, queremos adivinhar o que virá…

 O tempo escorre constantemente por entre nossos dias, numa velocidade crescente e assustadora.

Olhamos para trás e vemos um amontoado de dias, disformes, misturados, a não ser por alguns acontecimentos extraordinários que fazem com que alguns dias se destaquem nessa massa amorfa…

E o que virá, ah, isso é o que nos faz sonhar…

Serei feliz? encontrarei o verdadeiro grande amor da minha vida? passarei de ano? entrarei na faculdade???????

Só nos esquecemos de olhar para o agora, que passa tão depressa e rapidamente se junta com os momentos passados, ali se fundindo e desaparecendo…

E nesse tempo que mais nos atropela e que gostaríamos de ver passando suavemente, já estamos na segunda semana de abril de 2019…