Je t’offre un muguet de bonheur

RANDO DU MUGUET A St FLORENT DES BOIS | Association ECLA

Flores, os adornos da natureza, são, também, símbolos nas relações humanas.

São ofertadas no dia dos namorados, dia das mães, aniversários, estão nos buquês de noivas, nas coroas dos velórios, ornamentam casamentos, lapelas…

Uma mulher que nunca recebeu uma flor, um buquê de flores ou um arranjo de flores, nunca será uma mulher completa, feliz. As flores dizem mais que joias ou qualquer presente caro.

Rosas, cravos, camélias…

Algumas têm significados especiais. Por exemplo, a pequena e rara edelweiss. Cujo ato de ofertar significa mais que o amor, a coragem do rapaz que escalou escarpas para colhê-la, tradição alpina da região do Tirol, de onde é símbolo.

E, na França, temos a singela muguet-du-bois. A pequenina e delicada florzinha branca. A flor da sorte. E também a flor da felicidade.

Essa flor é oferecida no dia 1º de Maio. Por isso também chamada, lá nas terras de Balzac, de Flor de Maio. De início, diz-se que no século XVI, era colhida para festejar e enfeitar as noivas, no início dos dias mais quentes, depois dos rigorosos invernos europeus.  

Durante o reinado de Charles IX, alguém lhe ofereceu um ramo de muguet-du-bois, em um dia 1º de Maio. Encantado com o gesto, o rei ordenou que todo dia 1º de Maio deveria ser dada essa flor a todas as moças solteiras do reino. Verdade? Lenda? Não há como saber. Ele ficou conhecido como “maluco”, responsável pelo terrível massacre da Noite de São Bartolomeu. Difícil acreditar que se emocionasse com uma singela florzinha branca.

De qualquer forma, seja qual for a origem do gesto, este perdurou e no dia 1º de Maio as delicadas muguets-du-bois são oferecidas entre os franceses.

Por ser também comemorado o Dia do Trabalho no dia 1º de Maio, os trabalhadores adotaram a troca dessas flores como símbolo do trabalho.

Assim, passando de um significado para outro, persiste, ainda, o costume – lindo, diga-se de passagem, de se ofertar um muguet-du-bois, agora chamado muguet de bonheur nesse dia.

Por isso, a todos, franceses e brasileiros que cultivam tradições, ofereço a cada de um de vocês, para esse 1º de Maio, desejando que tenhamos um mês novo, livre, feliz, , um ramo virtual de muguet du bonheur:

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39º dia – o tempo e a quarentena

Estamos hoje no trigésimo-nono dia de confinamento, portanto, amanhã serão quarenta dias que a população do país foi posta em isolamento social horizontal. Sem dúvida, uma verdadeira quarentena. Ainda que não tenha atingido 100% dos brasileiros, uma grande parcela dos brasileiros se encontra recolhida em seus lares. Mesmo porque lojas, shoppings, bares, restaurantes, academias etc., se encontram fechados.

Não tenho dados para avaliar se essa política de saúde alcançou a finalidade, de diminuir a incidência de contaminação pelo covid 19, se “achatou a curva”, se teve algum proveito. E não quero esse conhecimento. Estou analisando esse fenômeno do ponto de vista das pessoas confinadas.

E como estão essas pessoas?

A maioria em uma “montanha russa” de emoções.

De início, a maioria não acreditava que isso passaria de dez dias. Portanto, seria fácil acatar a decisão.

Mas não aconteceu. O isolamento virou bandeira política e desafio ao poder federal, e foi sendo prorrogado. O isolamento teve início ainda no verão. Estamos em pleno outono, ainda isolados.

Para a população mais favorecida economicamente ou que continua a receber seus salários, tem despensa e geladeira abastecidas, é servida por delivery quando deseja comida mais diferenciada, o isolamento está sendo período de férias em casa.

Existe, entretanto, o outro lado – todos aqueles que perderam ganhos, perderam empregos, viviam do ganho do dia, estão sem alimentos, sem futuro, e o desespero está batendo.

Mas vejo há traços comuns a todos – jovens, idosos, ricos, pobres… pontos que estão presentes na vida de todos.

Por exemplo, ninguém sabe a data. Ninguém. Nem a hora.

Simplesmente, para todos as pessoas que estão em segregação, o tempo perdeu a importância. Todos os dias são exatamente iguais, e não há mais dia e noite. Interessante se constatar que a maioria mudou inclusive seus hábitos, dormindo muito mais tarde do que o horário de costume e se levantando bem mais tarde.

Não há por que se levantar cedo, a não ser que se queira ter mais tempo de não fazer nada.

Concluo, então, que nossos conceitos de tempo se perderam.

Outro ponto interessante é a falta de interesse, seja lá pelo que for. Pessoas que queriam ficar em casa para realizarem algumas tarefas, não as realizam. Simplesmente, passam o dia em completa inutilidade. Vendo televisão, navegando na internet, sentado olhando para a parede…

Há notícias do aumento no consumo de bebidas alcóolicas. Não duvido. A maioria das pessoas passa muito tempo fora de casa. Chega para jantar, aproveita para um drink ou um vinho e vai dormir. Quando, por qualquer motivo, passa o dia em casa em algum final de semana, geralmente aproveita para comer, beber e dormir.

E agora, todos estão em um verdadeiro fim de semana em casa, portanto a rotina é essa: comer, beber e dormir.

E, fatalmente, o aumento na ingestão de álcool tem gerado aumento na violência doméstica, um círculo vicioso que conhecemos…

Dominados, na verdade, pela preguiça, todos estão se desacostumando de responsabilidades.

Um dia, fatalmente, essa situação vai mudar. Tão de repente como surgiu, o vírus estará dominado. E aí, o que acontecerá?

A realidade do país não será mais a mesma que deixamos do lado de fora da porta de nossa casa quando entramos e trancamos há mais 40 dias…

Quanto do comércio não reabrirá? Quantos empregos não existirão mais? O que acontecerá com a população que “carrega o piano” para os políticos existirem?

Quantos afetos estarão perdidos? Quantas relações rompidas?

Só o tempo dirá, mas, o mais intrigante: o tempo vai voltar? Ou o perdemos para sempre?

E a quarentena continua…

Hoje, 23 de abril de 2020, meu 35º dia de isolamento social em razão da quarentena visando controlar a disseminação do covid19.

23 de abril é um dia especial – foi escolhido, no ano de 1995, pela Unesco, para ser o Dia Mundial do Livro. Shakespeare, Miguel de Cervantes e Inca Garcilaso de la Veja (este último, o “príncipe dos escritores do Novo Mundo”, nascido em Cusco, Peru, em 1539 e faleceu em Córdoba, em 23 de abril de 1616).

Leitora persistente, escritora, poeta, não posso deixar de anotar a importância do livro em minha vida. E, portanto, a difusão dessa importante data.

Mas esse dia ainda traz lembranças de outros anos.

Penso em 23 de abril de 2019 – exatamente há um ano eu me aposentei. Depois de mais de trinta anos, saí e fechei para sempre a porta de meu gabinete de Procuradora de Justiça, no Ministério Público do Estado de São Paulo. Carreira da qual me orgulho e na qual ingressei mediante difícil concurso público. Sem dúvida, segui a profissão para a qual era vocacionada. Se nascesse de novo, voltaria a ser Promotora de Justiça.

Mas agora é passado, não volta mais.

E, volto mais no tempo – em 23 de abril de 2019 chegava em Sorrento, na última vez em que lá estive.

Preciso ir a Sorrento, porque meu coração ficou lá desde a primeira vez, foi paixão à primeira vista . Por mais estranho que seja, quando cheguei em Sorrento, não senti que estava “indo” conhecer uma cidade, mas, sim, que estava “voltando” para um lugar onde já vivera.

Aquele golfo, a vista do Vulcão, tudo já estava indelevelmente tatuado em minha mente.

Não sei se é passado. Não sei se voltará.

E chego nesta data presente, de hoje – 35 dias isolada.

Presenciando, com tristeza e até um pouco de desprezo, a histeria irracional de uma população ávida por desgraças coletivas.

Não bastam os infortúnios pessoais e familiares, agora teremos de assumir coletivamente a desgraça da peste chinesa. Cuja letalidade é equiparada à gripe comum.

Tudo bem que nenhum país do mundo tem leitos de UTI e aparelhos de respiração artificial para mais da metade da população simultaneamente. Isso teria um custo desarrazoado e o investimento ficaria obsoleto em pouco tempo, sem uso.

Porque tudo é feito em cálculos atuariais, na análise de dados que possibilita uma estimativa ou expectativa de quantas pessoas poderiam, em tempos de normalidade, estar doentes ao mesmo tempo e necessitar esses cuidados.

Obviamente que isso não se aplica a uma situação extraordinária. Uma pandemia é uma exceção a todas as regras conhecidas de necessidade de cuidados médicos hospitalares.

Por isso o receio de não ser possível prestar atendimento a todos os habitantes do país ao mesmo tempo.

Mas… lá vem o infalível mas…

O vírus não é letal isoladamente.

Portanto, nem todos os infectados ficarão doentes.

Dos que ficarem, a maioria, sadia, se recuperará em pouco tempo sem mesmo necessidade de assistência médica.

Daí que já diminuímos o total que irá atrás de tais cuidados.

Desses, muitos não serão nem mesmo hospitalizados. Dos hospitalizados, uma minoria terá necessidade de UTI. E, poucos de entubação e respirador. Dentre esses, alguns não resistirão.

Portanto, a equação tem um resultado bem inferior àquele propalado pela mídia-urubu-carniça.

Não se justifica o pânico. Nem a histeria coletiva. Recheada de reportagens de terror explícito. Quase nunca correspondente à verdade real.

Não era necessária essa quarentena burra e danosa. Que está levando a ruína a muitos empreendimentos e a miséria a muitos lares brasileiros. Isso não precisava ter acontecido.

Que se fechasse tudo por cinco dias úteis, para serem tomadas as providências de segurança sanitária para o normal funcionamento do país. Isso seria aconselhável e conveniente.

Mas separaram as cotas: motoboys (especialmente os que entregam comida), cozinheiros e ajudantes de cozinha (de lugares com entrega a domicílio), pessoal da saúde, funcionários de supermercados, quitandas e padarias foram declarados, por decreto dos governos, imunes ao vírus.

O restante da população foi condenado à morte pelo vírus, caso saísse de dentro de casa.

Só faltaram os funcionários trancando as casas por fora com cadeados, à semelhança do que ocorreu em Londres durante a peste negra.

Em absoluto não havia necessidade de levar tantos à falência e ao desemprego. Isso foi criminoso. As projeções não se confirmaram. Em abril não tivemos dezenas de milhares de doentes e mortos. Simplesmente, com raríssimas exceções, nos hospitais houve um vácuo – tudo cancelado, cirurgias adiadas, e enfermarias vazias. Vai haver congestionamento nos centros cirúrgicos e CTIs no dia em que suspenderem a quarentena e todos voltarem a procurar seus médicos.

Isso é revoltante.

Inegável que um vírus, inimigo invisível, está infectando pessoas no mundo todo. Vírus que, aliado a comorbidades, idiossincrasia, baixa imunidade, tem resultados sérios em algumas pessoas.

Porém, a cada dia fica mais difícil acreditar na mídia alarmista e criadora de histeria.

Espero que esse confinamento tenha fim. O mais breve possível.

Não teremos de volta nosso mundo de antes do coronavírus. Isso será impossível.

Teremos pobreza, empresas que nunca mais reabrirão. Empregos que não serão recuperados.

Uma população desconfiada de tudo e de todos e cheia de medos que não existiam antes da pandemia.

Acompanhando o estado mental/emocional de meus amigos, percebo que a maioria está em constante tensão, stress aumentado, desconforto físico pela inação, pensamentos depressivos pela falta de convivência e intensa ansiedade pela insegurança com relação ao futuro.

Destruíram a vontade de viver de muitas pessoas. Que, em sua esmagadora maioria, jamais desenvolveriam doença grave ou risco de morte se contaminadas com o vírus. Quebraram a espinha de um país alegre e com população despreocupada. Como se estivéssemos passando por uma guerra.

Que deixará marcas. Crianças impedidas de irem à escola, conviverem com amigos e familiares “para não morrerem”. Porque brincar mata. Abraço de avó mata…

Podiam ter feito tudo de forma pensada e organizada.

Inclusive se nos avisassem antes, que teríamos de ficar confinados por mais de quarenta dias, teríamos a oportunidade de nos prepararmos para isso. Alguns entrariam em casa, cuidando do abastecimento da despensa, para não sair por 40 dias, entrando em hibernação, tal qual um urso.

Outros, convidariam alguns amigos, iriam para uma casa no campo – sítio, chácara, fazenda – e lá ficariam muito bem, obrigado, longe de pessoas indesejadas.

Alguns casais se refugiariam em lugares isolados, de preferência sem alcance de telefone, televisão e internet, e nem saberiam quando fosse dada autorização de retorno no fim de quarentena.

Mas não, pegaram a todos desprevenidos. Por isso tantos descontentes.

Por favor, acabem com essa palhaçada, quero minha vida de volta!

Texto de Lélia Almeida – Para que serve um velho?

Para que serve um velho? Para muitas pessoas um velho não tem serventia nenhuma e tem mais é que morrer. Assim estão as pessoas nestes tempos estranhos.
Passei um carnaval na casa do meu pai, lá fora, na casa que hoje não existe mais. Onde tinha um jardim, um pátio com árvores frutíferas e uma piscina. Meu pai estava aguando as plantas, vestia uma bermuda, um chapéu de cangaceiro que trouxe de uma viagem ao nordeste e vestia botas de plástico. Tiramos selfies fazendo caretas e rindo, porque ele estava muito engraçado. Depois entramos na piscina, ele com a boia preta grande, ele que nunca foi muito da água e depois nos sentamos pra tomar sol. Ele ia pra praia na semana seguinte e disse que precisava tomar um pouco de sol pra não chegar lá e levar um torrão. Naquele verão os caquis-chocolate caiam do pé ainda muito verdes, desabavam um atrás do outro, uma chuva insólita de caquis-chocolate. Esperávamos que caísse uma quantidade suficiente no chão, juntávamos em baldes e jogávamos num terreno baldio. Fizemos isso várias vezes e entre uma ida e vinda deitávamos nas cadeiras de praia e conversávamos.
As conversas com o meu pai sempre foram assim, nos últimos tempos, erráticas, sem pauta, com muitas lembranças e risadas. Tínhamos um jogo de lembrar os nomes das pessoas de outros tempos, do sobrenome e das ruas onde elas moravam. Era uma espécie de jogo da memória, e assim remontávamos árvores genealógicas inteiras de famílias que nem existiam mais, ruas e casas que também não existiam mais, e que não interessavam mais a ninguém. Histórias simples que eram o tecido das nossas vidas. Recriávamos juntos um tempo e uma cidade que só fazia sentido na nossa memória afetiva. Causos engraçados, histórias de grandes mentirosos, de amores traídos, de tragédias, desastres, de como a cidade foi mudando e as pessoas morrendo. Quando ele fez 80 anos ajudei-o a fazer a lista de convidados e ele me dizia, sabe o fulano? Morreu! E nunca vou esquecer da voz dele dizendo que estavam chamando a turma dele.
Numa das conversas entre um caqui e outro perguntei o que ele achava que tinha sido tão revolucionário e transformador na vida dele que pudesse ser comparado a toda esta tecnologia da internet e tudo o que temos hoje. Ele disse que muitas coisas, mas que era o evento da pílula anticoncepcional, e o tanto que isto tinha mudado a vida das pessoas. Lembrou da mãe dele, a Vó Zizi, jovem viúva, carregando cinco meninos sozinha e depois de como tudo isto mudou na vida das mulheres.
As conversas com o meu pai sempre me deram uma perspectiva de tempo e de história, de onde estou, de onde vim. E para onde vou, nesta outra etapa da vida que vejo ele percorrer com bom humor e muita esperteza. E de que os tempos sempre foram difíceis para as pessoas, de que muita coisa que ele via agora na política tinha visto sempre, que nada era muito novo, na verdade. De que a gente tem uma capacidade imensa de aguentar perdas, dores e dificuldades e que siempre que llovió, paró, que vai passar. E que é por isto que a gente também tem que agradecer e apreciar quando a vida é boa.
Fomos ficando velhos e mais lentos os dois, o sol já estava baixando quando resolvemos guardar as cadeiras e começar os preparativos pra janta. Eu estava me recuperando de uma cirurgia no pé, ele tinha 84 anos, firmei bem os pés no chão, segurei nos dois antebraços dele para que ele levantasse num impulso, ele conseguiu e nos abraçamos rindo, Pensei que não ia dar certo, mas deu!
Continuamos onde sempre estivemos. Ele vai na frente, diz que a velhice é uma merda, mas é muito orgulhoso da sua memória, me conta escalações inteiras do time de basquete da época dele. Minha irmã fez um álbum com as fotos dele dos tempos de atleta. Ele adorou o álbum e me disse, quando eu morrer ninguém vai saber quem são estas pessoas, não interessa a mais ninguém. Não havia nem mágoa, nem ressentimento, nem saudade na voz dele. Era uma constatação.
Meu pai vai na frente, eu vou atrás, como sempre fizemos, ele abre a clareira e ilumina o caminho, me diz quando dá pra caminhar mais rápido, quando é preciso parar e respirar e descansar, meu pai leva a lanterna, a força do espírito, vai na frente, vai contando do tempo e da idade, vai contando dos limites do corpo e do que tem que ser deixado pra trás. Meu pai vai na frente, e sabe de coisas que só nós dois conhecemos, desta vida que tecemos juntos e que é a nossa história possível. Eu confio na vida quando o meu pai está perto e não temo a morte quando vejo ele velho, indo para o final.
Nos telefonamos agora, na quarentena, e cada vez que ouço a voz dele tenho que respirar muito fundo pra que ele não perceba que voltei a ser menina e que estou chorando. Depois de acomodar todos os meus medos de não vê-lo outra vez, retomo a respiração e voltamos a ser bobos e falantes. Ele me disse, gordinha, o que a gente está vivendo nunca foi vivido antes, mas vamos viver né, porque vamos ver coisas que nem sabíamos que podiam existir. Ele perguntou como eu estava e eu disse que estava assustada, ele disse que podíamos ficar assustados juntos então.
Meu pai vai na frente, depois de ter pavimentado o caminho da minha infância e de toda a minha vida.
Eu não sei para que serve um velho. Mas ele, o meu pai, serve pra me lembrar que a vida é imensa, que as raízes são fortes, profundas e que o mundo não é pra amadores. Que o narcisismo e a cultura da eterna juventude são uma doença perversa. Que, talvez, um velho não sirva pra nada mesmo. Mas que não estaríamos aqui sem ele e que vamos ser os velhos dos netos dele e que esta é a única graça de tudo.
E que no fundo não sei muito bem se vale a pena um mundo onde as pessoas tenham esse tipo de dúvida, onde as pessoas não sejam capazes de responder para si mesmas para que serve um velho.

Peste e tempestades

Navios enfrentando Tempestade em alto Mar com ONDAS GIGANTES ...

São trinta dias de isolamento, em razão de um vírus desconhecido e de alto contágio que se alastrou pelo mundo conhecido.

Impossível não pensar em Garcia Marquez.

Impossível não buscar Camus, para reler A Peste.

Como também a necessidade de reler Daniel Defoe, em Um diário do ano da peste.

Tempos difíceis, muita miséria no horizonte, insegurança social e pessoal. E não há como escapar. Todos estamos passando por isso.

Famílias separadas, quem foi surpreendido  distante não pode voltar – sem voos, sem viagens de ônibus intermunicipais, interestaduais… Cada um em sua casa – sorte dos que as têm, isolado, segregado, condenado, por vezes, à fome e privações, porque os empregos se foram junto com o confinamento.

E o jeito é aguentar. Com raiva, sem raiva; com conforto, sem conforto; com fome, sem fome…

Por outro lado, nuvens escuras nos trazem sobressaltos no campo da política. Também total insegurança.

Os ladrões da Pátria, acostumados com a mamata das patas no dinheiro público, desesperados por estarem há mais de um ano sem conseguir desviar verbas, conseguiram, com o coronavírus e o beneplácito da suprema corte, um caminho para continuarem suas práticas.

E o clima não é promissor. Não me surpreenderia se, em meio à turbulência trazida pela epidemia, ainda tenhamos de enfrentar uma revolução.

Já não bastam as tormentas da alma, que cada um traz dentro de si, sofrendo calado, muitas vezes em situações insustentáveis, mas que não há como colocar um ponto final, ainda temos ataques na profissão, na saúde, na estabilidade política…

Lembra-me uma frase atribuída a Churchill: “Se você está atravessando um inferno, continue caminhando”. Sim, um dia tudo passa. Mas só quem caminha por um inferno sabe o que é isso.

Estou assistindo a um documentário, na internet, sobre navios surpreendidos por tempestades violentas – Ships in a storm.

Ondas assustadoramente enormes. Mesmo eu, que amo o mar, tenho vocação de viver embarcada, reconheço que o mar pode se tornar um monstro.

E continuo assistindo. Grandes navios, pequenos barcos de pesca, todos continuam em frente.

Exatamente: em frente. Avante.

Mesmo que tenham mudado temporariamente a rota, não param. Nem podem fugir. Encaram o mar. Colocam a proa de frente para a tempestade. Ainda que altas – altíssimas ondas – cubram toda a estrutura. Mas entram de frente, encarando as ondas da tempestade. E continuam. Assim aprenderam com seus mestres e práticos. E assim fazem. E salvam seus barcos e tripulações.

Um pequeno barco, de vela única, tenta sair da tormenta. Mas é leve. E a marola o coloca de lado para a onda forte. Não resiste e emborca. As pessoas são atiradas longe enquanto o pequeno barco vira até a vela afundar. Isso assusta.

Nesse momento tormentoso e assustador que estamos passando, as lições e a experiência de quem nos precedeu devem ser valorizadas e observadas. Quem já atravessou um inferno sabe que é preciso continuar porque há uma porta de saída do outro lado e sabe onde ela fica.

Quem já conduziu um navio em forte tempestade, e não soçobrou, sabe que o único jeito é encarar, não fugir, e seguir. As ondas nos levantam, nos desequilibram, nos jogam para todos os lados, mas sairemos ilesos no final.

Está difícil, muito difícil, porque não sabemos que doença é essa. Se quem já sarou pode adoecer de novo. Se muitos ou todos morrerão. Se simplesmente o vírus tem prazo de validade e vai sumir da mesma forma que apareceu.

Como não sabemos se nosso país vai atravessar mais essa tentativa de derrubar o Presidente da República. Se balançaremos e continuaremos, como um grande navio, ou naufragaremos como um singelo barco a vela. Que não haja nenhum vergalhão a nossa espera.

A única coisa que podemos fazer, neste momento, é seguir em frente e encarar o que vem por aí…

Ruas

Rua do Professor, Ribeirão Preto | Mapio.net

 

Vejo as ruas desertas de pessoas a pé. Lembro-me de minha infância e adolescência. Não tive “mãetorista”. Apenas em alguns casos éramos levados de automóvel nos lugares. Porque, à  escola, às atividades extracurriculares – conservatório musical, aulas de línguas estrangeiras, cursos que resolvíamos fazer – bem como cinema, compras, casas de amigos, festinhas e tudo o mais, era para ir a pé. Sozinha, com irmãos, com amigos, em grupos, apenas pedíamos autorização e avisávamos que estávamos indo. E sempre hora marcada do retorno, vamos deixar bem claro. E isso era liberdade.

Andávamos. Caminhávamos. Passeávamos. Sempre a pé.

Acho que isso desenvolve um outro sentido, não sei se sétimo, oitavo ou nono. A percepção da rua.

Hoje vivemos em outro mundo. Não há mais rua nesse sentido. Apenas artérias de passagem de carros. Há lugares, em praticamente todas as cidades, em que se veem carros e motocicletas nas ruas. E nenhuma pessoa. Simplesmente as calçadas completamente inúteis e vazias.

Aqui no interior, mesmo em tempos anteriores à peste chinesa, a região onde moro é assim. Na avenida principal, no começo da manhã e final da tarde nós nos deparamos com “atletas” – roupinhas típicas, boné e tênis, fazendo exercício. Mas o resto do dia é um deserto de pessoas, uma cidade de veículos motorizados. Sem população.

Não é meu mundo. Gosto de andar a pé.

Nos anos em que morei no Guarujá, nem levei o carro. Deixei-o em uma garagem da casa de meus pais, em Ribeirão Preto.

Andava tanto lá, que, por brincadeira, adquiri e comecei a usar um aparelhinho que media os passos, e, durante os meses em que fiz uma reforma em um imóvel – fazendo todas as compras a pé – eu andava, em média, vinte quilômetros por dia.

Sem contar a infalível caminhada matinal à beira mar – entre seis e dezoito quilômetros/dia. Dependia mais do tempo disponível para caminhar do que disposição física ou cansaço.

Em São Paulo, também onde prefiro não dirigir nem ter carro, meu local de trabalho distava cerca de um quilômetro minha casa. Que foi cirurgicamente escolhida para me proporcionar a liberdade de andar a pé. Na hora de ir, geralmente, pegava um táxi. Mas voltava a pé. Especialmente no horário de verão, entre 18h30 e 19h00. Caminhava do Paraíso ao longo da Paulista até a Pamplona. E descia até a Lorena.

Em volta tenho tudo o que necessito. Faço tudo sem precisar de carro. Por isso, também, amo ficar por lá.

Sempre amei andar a pé em São Paulo. A beleza de São Paulo não é escancarada, para qualquer um chegar e se encantar. Não, São Paulo é de uma beleza peculiar, um encanto que se mostra aos poucos, só para “os iniciados”.

Quando eu trabalhava em um escritório do centro, no milênio passado, amava aquelas ruas antigas (ainda não havia as nojentas pichações como se veem hoje por todo lado). E era República, Barão, Sete de Abril, Patriarca, Santa Ifigênia… que coisa linda era o viaduto Santa Ifigênia, com seu gradil estilo “belle époque”. As fachadas dos prédios no centro, os canteiros, o Teatro…

Agora tudo é um lixo. A porquice do povo, o descaso da prefeitura, a invasão de estrangeiros de baixa categoria… minha cidade se acabou.

Andava em Paris, Roma, Madrid, e outras capitais que até quatro ou cinco anos possuíam seus centros preservados. Tudo lindo. Tudo encantador.

Depois dos atentados no Bataclan, em Paris, e na Promenade des Anglais, a linda “La Prom”,em Nice, e vendo, ainda, esse aumento desenfreado de “refugiados” porcos e violentos, a degradação dessas cidades também desanimou de frequentá-las. Estão feias. Ponto comum entre a maioria, são as prefeituras de esquerda. Onde era um patrimônio cultural da humanidade, hoje é lixo.

E assim o mundo, que era tão grande, foi se encolhendo.

E, há um mês, o meu mundo se resume a uma casa.

Uma casa se tornou o mundo de quem ainda tem sorte de ter uma casa.

E as ruas, a cada dia mais desertas, só nos dão a dimensão da tristeza de ainda estarmos vivos.