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Categoria: DeAlice
Um espaço para Caio Fernando Abreu

Eu te quero muito…
Eu preciso muito, muito de você.
Eu quero muito, muito você aqui de vez em quando nem que seja, muito de vez em quando. Você nem precisa trazer maçãs, nem perguntar se estou melhor.
Você não precisa trazer nada, só você mesmo.
Você nem precisa dizer alguma coisa no telefone. Basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio.
Juro como não peço mais que o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro.
Mas eu preciso muito, muito de você.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Depois que nosso pai morre

Um dia nosso pai morre.
E ficamos órfãos.
Ele precisa partir, cumpriu sua missão. Mas nunca estamos preparados para cumprir a nossa…
Se, por um lado, nos alegra ver que a vida segue seu curso natural e recebemos a graça de cumprir nossa missão de filhos, que é enterrar nosso pai, por outro lado nos sentimos abandonados no escuro.
Não temos mais pai.
Quanto mais velhos estamos, mais sofremos com a morte de nosso pai.
Como ficaremos daqui em diante nessa vida tão insegura, tão atribulada?
Qual direção tomaremos nas próximas encruzilhadas, se ele não está mais aqui para nos guiar com firmeza?
Como atravessaremos os pântanos, as pinguelas, as noites insones e as tristezas, se ele não está mais aqui para nos dar tranquilidade e o rumo com segurança?
Através dos anos vimos evoluir nossa relação com nosso pai. De seu colo, passamos a ocupar um lugar a seu lado. Sempre sentindo suas mãos firme a nos amparar. Se era nosso motorista, tornou-se nosso passageiro. De autoridade suprema, um amigo na vida.
Nosso limite, nosso código de honra, nosso parceiro nos jogos, nossa aprovação ao superar os medos, nossa risada garantida para nossas piadas sem graça…
E então nosso amigo, nosso companheiro no whisky, nosso conselheiro financeiro, político, emocional…
Na verdade, ao longo do tempo, viciamos em ter um pai a nosso lado ou a nossa espera. Mas sempre presente. Sempre ali. Firme. Incansável em sua missão de pai. Com um estoque inesgotável de broncas e conselhos. E uma fonte ilimitada de amor e carinho.
Não percebemos que nossa realidade mudou, que nossos problemas são outros, que já deveríamos – nós mesmos – assumir o posto e passar a ser assim para nossos filhos.
Continuamos na facilidade de correr para os braços seguros de nosso pai quando precisamos enfrentar os contratempos que a vida nos traz.
Ali sempre tem um conselho, uma ajuda (pequena, grande ou impagável) financeira, um abraço carinhoso, um sorriso acolhedor…
Até o dia em que nosso pai morre.
E ficamos órfãos…
No começo muitos nem entendem direito o que aconteceu. Habituados a presenciar a morte do pai dos outros, e depois ver a própria vida seguir seu curso, não temos o alcance do abismo emocional que é enterrar o próprio pai.
E, de repente, nos deparamos com uma situação difícil. Primeiro impulso: vou falar com meu pai…
E a ficha cai: Não tenho mais pai. Sou órfão.
E, num de repente qualquer da vida, começa a tocar “Naquela mesa”. Ou outra música que, mesmo não fazendo alusão à figura de pai, era a preferida dele. Não importa se estamos num show, num bar, sozinhos no carro e no meio de uma festa. É incontrolável. Choramos com a alma dolorida da orfandade.
E encontramos um objeto que para ele era especial. E as lágrimas descem.
Ou nos deparamos com uma pessoa a quem ele era afeiçoado. O abraço vem com soluços.
E assim, a cada dia, mais a mais, a falta que sentimos dele só aumenta. Não é o luto que dura menos de um ano. É um vazio que nada preenche e fica em nós para o resto da vida. Uma falta que nada repõe. Queremos nosso pai de volta, queremos ter para quem contar nossas conquistas e chorar nossos fracassos.
E aquela dorzinha sobe, cresce geometricamente, e a vida fica mais difícil, os obstáculos se sucedem, e não conseguimos continuar caminhando suavemente, vendo o caminho à nossa frente… pisamos em falso, tropeçamos, deixamos algo sem pagar, faltamos a um compromisso, e mergulhamos num luto que não terá fim.
Porque tudo mudou drasticamente quando nosso pai morreu.
E ficamos órfãos…
Abençoados os pais. Todos eles. Que todos os pais deixem órfãos seus filhos, mas nunca tenham de enterrar um filho…
Amaldiçoados os filhos que abandonam seus pais quando velhos ou doentes, nesses momentos em que mais precisam dos filhos, quando dependentes, vulneráveis.
Abençoados os filhos que ficam ao lado dos pais, com carinho e paciência e os enterram no meio de dor e já sentindo saudade antecipada.
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Sophia de Mello Breyner Andresen – Cante Jondo

Numa noite sem lua o meu amor morreu
Homens sem nome levaram pela rua
Um corpo nu e morto que era o meu
(Imagem: banco de imagens Google)
Texto de Oriah Mountain Dreamer – Eu quero saber…

Não me interessa o que você faz para viver, eu quero saber o que de fato você busca e se você é capaz de ousar sonhar em encontrar as aspirações do seu coração.
Não me interessa a tua idade.
Eu quero saber se você será capaz de se transformar num tolo para poder amar, viver os seus sonhos, aventurar-se de estar vivo.
Não me interessa qual o planeta que está em quadrante com a tua lua.
Eu quero saber se você tocou o centro da tua própria tristeza, e se você tem sido exposto pelas traições da vida ou se você tem se contorcido e se fechado com medo da própria dor.
Eu quero saber se você é capaz de ficar com a alegria, a minha e a sua.
Se você é capaz de dançar loucamente e deixar que o êxtase te envolva até a ponta dos dedos dos pés e das mãos, e sem querer nos aconselhar a sermos mais cuidadosos, mais realistas ou nos lembrar das limitações de ser humano.
Não me interessa se a história que você está me contando é verdadeira.
Eu quero saber se você é capaz de desapontar o outro para ser verdadeiro consigo mesmo.
Se você é capaz de escutar a acusação de traição e não trair a sua própria alma.
Eu quero saber se você pode ser confiável e verdadeiro.
Eu quero saber se você pode ver a beleza, mesmo quando o dia não está belo, e se você pode conectar a sua vida através da presença de Deus.
Eu quero saber se você é capaz de viver com os fracassos, os teus e os meus, e mesmo assim se postar nas margens de um lago e gritar para o reflexo da lua, “SIM”
Não me interessa onde você moro ou quanto dinheiro você ganha, eu quero saber se você é capaz de acordar depois da noite do luto e do desespero, exausto e machucado até a alma, e fazer aquilo que precisa ser feito.
Não me interessa o que você é, ou como você chegou aqui.
Eu quero saber se você irá postar-se no centro do fogo comigo e não fugir.
Não me interessa onde, o quê ou com quem você estudou.
Eu quero saber o que te sustenta interiormente quando tudo o mais desabou.
Eu quero saber se você é capaz de ficar bem consigo mesmo, e se você
realmente é boa companhia para si mesmo nos momentos vazios.
(Imagem: foto de Nelson O’Reilly Filho)
Poesia da casa – Rumo ao nada

Solto no espaço
Um corpo
Sofrido
Cansado
Abandonado
Trazendo na alma
Uma dor
Abatida
Atormentada
O corpo e alma
O cansaço e a dor
A vida acabada
O nada na frente
O fim do sonhar
(Imagem: banco de imagens Google)