De pássaros e livros

Bico-de-lacre é um pequeno pássaro trazido ao Brasil a bordo de navios  negreiros* – Terceira Margem

Fim de chuva.

Uma ameaça de sol.

Chega um primeiro pássaro solitário, buscando bichinhos no gramado ainda molhado.

Saltita alegremente em sua profícua colheita.

Mas sua solidão é passageira.

Logo outros pássaros  pousam a sua volta. Grande algazarra se instala no quintal.

Deixo de lado meu livro e os observo. Como é difícil ver um pássaro solitário – voam aos pares ou aos bandos. E, quando um se separa do grupo, logo é resgatado.

Sua força está na união. Dezenas de olhos enxergam em todas as direções, os predadores são logo avistados e os gritos alertam todo o bando. Um pássaro solitário é uma presa fácil.

Vão esgaravatando cada centímetro quadrado de grama. E, lentamente se afastam de onde os observo.

Passado algum tempo, pequenos bandos alçam voos, aos gritos, até não mais restar sequer um.

Provavelmente também não restam mais insetos.

Um pesado silêncio volta a reinar no quintal.

Volto à minha habitual solidão, e mergulho novamente na leitura.

(Imagem: foto de Edson Brandão)

Em noite de dançar

1368) Pintura com Diamantes - Casal Dançando - 20x30 cm

Há quanto tempo esses sapatos de dançar não saíam da prateleira… Só de isolamento já se iam 23 meses… e antes mesmo de começar essa história de covid, com festas de fim de ano, janeiro chuvoso, carnaval… realmente, há muito tempo não saíam para dançar.

Sempre dançaram muito. Afinal, eles se conheceram em um baile. E ele a chamou para dançar, e desde então, dançavam.

Em bailes, em academias de dança de salão, em festas, e até mesmo em casa.

Mas, quando se preparavam para saírem especialmente para dançar, até os sapatos eram especiais, com o solado apropriado, salto adequado e outro predicados.

Com uma ansiedade de adolescente, ela tomou um longo banho, fez uma maquiagem leve, prendeu os cabelos e passou seu perfume reservado para grandes ocasiões.

Vestiu-se com capricho, um vestido leve, esvoaçante, que a tornava uma etérea visão quando rodopiava nos braços dele em torno da pista de dança.

Por fim, sentou-se na beira da cama, calçou os lindos sapatos de dança, afivelou as tirinhas de couro que os mantinham firmemente presos aos pés.

Foi até o grande espelho do corredor e olhou para conferir se estava tudo direitinho como deveria ser.

Ouviu um assovio de aprovação e olhou para ele sorrindo.

Abraçaram-se e começaram a dançar ali mesmo, no estreito do final do corredor.

Poesia da casa – Pedido

Sonhar com passarinho na mão: verde, amarelo, vermelho, preto e mais!

A você que me preenche de amor
e traz de volta nesse encanto
meu sorriso, minha alegria
eu peço apenas que me ame...

Nunca me tente prender
ou, assustada, tentarei voar
e, se acaso eu me for
poderei nunca mais voltar.

Não me segure, apenas me ampare
na palma da sua mão aberta:
ali eu pousarei, para sempre
pássaro cativo do seu carinho 

Estarei sempre à sua procura, 
à sua espera, no nosso ninho
meu lugar será sempre a seu lado
e você, meu aconchego de amor

Voaremos juntos pelo céu
nossas asas num mesmo ritmo
um único movimento sereno
buscando um mesmo chegar

E em todo alvorecer
quando a luz romper a noite
nos raios da madrugada
nos amaremos com paixão

E em todo anoitecer
quando a luz não mais se fizer
juntos regressaremos ao ninho
para tantas noites de amor

Seremos, sempre, companheiros,
sem nós, grilhões nem cadeados
apenas juntos, no amor,
no nosso ninho pousados

Vem, meu amor, vem logo
dividir todo esse amor comigo
vem viver essa vida de paixão
vem, meu amor, me fazer feliz

Se em minha alma houver mágoa
se em seus olhos lágrima brotar
nessa hora apenas nos abraçaremos
e nosso amor nos trará de volta a paz

E seus olhos falarão de amor
e amor brotará de suas mãos
e então, sempre, apenas, pedirei:
me ame... me ame... me ame...

(12.06.2021)
(Imagem: banco de imagens Google)


30 de janeiro – Dia da saudade

Republico, aqui, esse texto, de 10.10.2020 – “A dor da saudade” … para ser lido enquanto se ouve essa canção – “Saudade”, de Mario Palmerio

Carrego em mim todas as dores do mundo. As dores do corpo e as dores da alma.

Dores crônicas, agudas, lancinantes…

As dores físicas que já suportei levariam outras pessoas ao desatino. Mas eu sempre aguento. Uma hora a dor vai passar, eu sei.

Difícil aguentar as dores da alma. Doem mais do que prender o dedo na porta, do que cólica de rins, ou quebrar a perna…

Dentre elas as piores são as dores da indiferença e da saudade.

O contrário do amor não é o ódio. Ambos são sentimentos fortes e motivantes. O verdadeiro contrário do amor é a indiferença. Que machuca, marca fundo na alma. Dói intensamente. E não passa.

E a dor da saudade?

Abrir os braços para o vazio e abraçar a ausência de quem se foi?

Voar sozinho em seus sonhos porque o outro desistiu de voar com você?

Acordar de madrugada e não ter mais aquele alguém a seu lado, mas somente o frio e o nada?

Isso é saudade. Isso dói lancinante. De dar vontade de desistir de tudo e morrer. Essa dor eu não aguento. Ela não passa, jamais.

Saudade é tudo o que não há. É o nada. É o vazio. O buraco escuro onde nos debatemos sem a menor possibilidade de sair.

Saudade é a dor conjunta de todas as partes do corpo. Porque dói a alma, dói nossa essência, dói nossa vontade de continuar vivendo.

É sentir o toque de quem já se foi, ouvir a voz que não fala mais, sonhar o impossível que não acontecerá.

É mais que solidão. Porque solidão não é falta. E saudade é feita apenas de ausência.