Categoria: DeAlice
Dia de poesia – Marcia Etelli Coelho – Liberte!
Liberte os ecos dos gritos no escuro
e o sol que, recluso, demora a voltar.
Dissolva o temor de um passo noturno,
trocando a vida por um único olhar.
Libere o prazer de sorrir por bobagem
em cada jornada sem rumo algum.
Permita que eu leve comigo a coragem
de não aceitar uma vida comum.
Devolva-me o dom de falar o que penso
e as flores que um dia plantei em um verso.
Derrube as muralhas, restaure o bom senso,
escute o réquiem de Amor do universo.
Resgate a saga de heróis distraídos
e a pátria que, mesmo na prece, esqueci.
Desperte os sonhos que foram rendidos
e, mesmo no breu, eu não desisti.
Eu ouvi
Eu ouvi, Senhor, o rufar do batalhão indo para a guerra,
O pranto da mãe que se despediu de seu filho soldado
Eu ouvi, Senhor, o grito do menino refugiado ao cair no mar
Para morrer sozinho no meio da noite
Eu vi, Senhor, a lágrima que correu dos olhos da mãe enlutada
A tristeza na face das crianças famintas pelo mundo
Eu vi, senhor, a dor do idoso abandonado pelos filhos
E o corpo do bebê abortado aos quatro meses
Eu senti, Senhor, a angústia do doente que não foi atendido
O desespero do homem que perdeu seu emprego
Eu senti, Senhor, a agonia desse mundo abandonado
Que não mereceu o sacrifício do Seu Filho na Cruz
Se eu ouvi, Senhor, se eu vi e se eu senti, por que
Meu coração endureceu e já não sofro,
Já não sinto compaixão pelo irmão que sofre,
Não ajo contra a maldade humana tão exposta?
O que acontece, Senhor, conosco – estes seus filhos,
Que anestesiados assistem tanto horror e ignominia
E já não são capazes de intervir, de gritar BASTA!
E como um exército de cegos egoístas se encolhem
Caminhamos para onde, se deixamos os irmãos
Sofrerem os horrores da guerra, da fuga, do abandono
Da doença, do medo, da solidão intensa
E nada fazemos, como se pudéssemos nos dividir
Em dois tipos de humanidade – a que suporta e a que assiste.
E já não vemos, Senhor, em nós – humanos – a sua face divina…
Vírgula, ponto-e-vírgula, ponto final.

Quantas vezes tememos usar a pontuação adequada à nossa vida, e prorrogamos situações que se arrastam inutilmente.
A vida não volta.
Tudo o que aconteceu no passado, é lá que deve ser deixado: no passado.
O que foi nunca mais será.
O ontem é fato consumado.
Trazemos as mãos repletas de vírgulas e pontos de interrogação, mais alguns de exclamação e ainda alguns “dois pontos, travessão”…
Mas escondemos os pontos finais nos fundos dos bolsos para não os usarmos.
E assim vamos ora empurrando a vida, ora por ela sendo empurrados.
Precisamos de todos os sinais gráficos de pontuação para que a narrativa da vida tenha sentido.
A falta da pontuação é tão danosa quanto sua abundância desnecessária.
Por isso é de ser usada com cautela.
Timidamente colocamos um ou outro ponto final – geralmente lá em cima, em algo que há muito já ficou para trás. Sentimo-nos constrangidos em fazê-los nas situações presentes, por receio de causar mágoas e rupturas irrecuperáveis.
E não vemos quantos desses pontos são postos em nós, interrompendo sonhos, paixões, trajetórias de nossa vida.
Quantas vezes tentamos virar as páginas no existir, sem colocar um ponto final, porque temos a tênue esperança de que não houve um fim, mas mera pausa…
Difícil é chegar à conclusão e tomar a decisão, não apenas de colocar o ponto final e virar a página, mas de, definitivamente, fechar o livro que a releitura machuca mais que o esquecimento.
Odeio muita tecnologia

A facilidade da internet é inversamente proporcional à sua pressa e/ou à sua necessidade.
Há dias que só tenho problemas com toda essa – cara – porcariada que mantenho tentando conseguir acompanhar lives, seja aula, seja entrevista, seja lá o que for, entre outras coisas medonhas que esse isolamento desgraçado nos impõe.
Muitas vezes sequer conseguirmos ler um e-mail. E a explicação nunca é a falha do serviço porco que as operadoras nos entregam, mas sempre é culpa do consumidor: o chique da hora é alegar excesso de acesso.
Ou o computador não liga e o notebook trava.
Ou a bateria de um acaba ou o wi-fi desmaiou e não volta. Ou os milhares de programas que você ou seu técnico instala não funcionam mais.
Ou seja, você quer seguir uma aula, precisa entrar em contato com uma pessoa – a maioria agora só atende via whatsapp (o que, por si só, é o horror dos horrores) e tudo falha.
Você precisa dos resultados dos exames clínicos e o laboratório só fornece via internet – mas as senhas não funcionam ou o programa do laboratório requer um software diferenciado para fornecer o que você precisa.
E assim vai a vida, onde se perdem horas tentando fazer essas coisas funcionarem.
Ao longo de uns trinta anos de computação, pelo menos sei a diferença entre software e hardware: software é o que você xinga e hardware é o que você chuta.
Os programas hoje se assemelham aos médicos especialistas: enquanto estes sabem cada vez de cada vez menos, os softwares servem cada vez mais para cada vez menos.
Meu sonho de consumo hoje em dia não é um iPhone 12. Mas sim desconectar televisão e internet da minha casa e da minha vida.
Vou procurar um caverna para morar e tentar viver em paz.
Em testamento

Comigo eu trago mais de 23.000 ontens,
por isso sei que me restam poucos amanhãs
Fiz muitos de meus caminhos – nem sempre segui
aqueles já traçados por outros pés, porque
eu não queria atingir só os mesmos pontos de
chegada que outros, antes, já alcançaram
Viajei países, conheci o céu e, solitária,
atravessei o inferno; a tudo sobrevivi.
Foram tantas vírgulas nesta minha vida
tantos pontos finais e outros de interrogação…
Tive tantas perguntas sem conseguir respostas
Contei tantas estrelas, para esquecer logo depois
Mas sei que chegará, em breve, a hora de partir
para uma última viagem – esta, sem volta
Enfrentarei. Com coragem e sem lamentos.
Passei na vida por todos os ângulos vistos:
Agudos, retos, obtusos e rasos
Aparei muitas arestas pontiagudas
Escalei montanhas feitas de pura areia
Mergulhei em águas gélidas, rodei em tantas
correntezas, feri-me em pedras e sequei ao sol.
Junto de tantas linhas retas e duras que desafiei
também vi as curvas do mar e do infinito
ao se encontrarem no ponto mais distante do olhar
A mim, me foi dado contemplar o belo,
Ouvir os pássaros e o som dos violinos
E me emocionar com a arte, com a perfeição,
Conhecer o amor e viver a paixão infinita,
E, dentre todos – retas, ângulos e curvas,
nada eu amei mais, ou me fez mais feliz
do que o encontro sempre perfeito e ideal
de nossos côncavos e convexos se completando
nas curvas de um abraço tão apaixonado
no aconchego de nossas noites de amor.