A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Dia escuro, de vento, baixa temperatura… típico de mudança de estação. Era o inverno tentando resistir e ficar mais um pouco. Mas o equinócio não permite. É hora de acabar o inverno e começar a primavera.
Que estará conosco até dia 21 de dezembro, quando o solstício trará o verão.
E, por ser primavera, quero mais cores na minha vida, que tem sido muito cinza, muito bege, muito triste.
Quero as cores quentes, as cores variadas, de um alegre jardim florido.
Sair do casulo no qual passei o inverno e ganhar o mundo.
Andar nas praias, dançar nas praças, cantar nas madrugadas.
Primavera é a estação do namoro, do beijo apaixonado, das mãos dadas sem destino.
Na primavera quero amar. Ser amada. Descobrir novos lugares, provar novas comidas, apreciar novas bebidas.
Porque é primavera, renovação da natureza, quero também me renovar. E inovar.
Limpar as asas que o prolongado inverno enferrujou, e tirar o peso da bagagem excessiva que o início desse ano complicado adicionou à minha carga original.
Eu gosto do amor que sobra! Aquele amor que se derrama, Sem economizar. Amor que Se espalha, Enraíza, Só de olhar. Amor que dá sentido, que faz sentido, A tantas formas de amar. Gosto daquele amor cheio de intenção, Que faz o coração acelerar. Amor que dá água na boca, E depois secura, Para depois molhar. Gosto do amor, Remanso, calmaria, Um pouco de rebojo, Vento brando, sem assustar. Amor tempestade de verão, Chuva forte passageira, aroma de terra molhada no ar; Chuva fina com a sensação de vai-e-vem, Sem garoar. Gosto do amor sentido, Que alivia, mas tempera, Sem hora para acabar. Eu gosto do amor límpido, translúcido, farto, Sem medida ou receio de errar. Eu gosto do amor com jeito, cara e cheiro de amar. Amor que enobrece, cuida, dela, Amor para enfeitiçar. Amor que mata de rir, Que faz viver feliz, E meio sem querer Faz chorar. Amor atrevido, Que se faz presente, Para depois desembrulhar. Eu gosto daquele amor que pode-se chamar de “meu”, Sem medo de gritar. Amor frequente, que extasia, Amor da gente. Amor que faz (des)confiar. Eu gosto daquele amor que te puxa para o lodo e cochicha em meu ouvido, com voz rouca, dizendo: Meu bem, vem cá! Eu gosto daquele amor que usa, abusa E lambuza Com as mais diversas forma de amar. Eu gosto de amor farto, Sem resíduo. Para que economizar, Se amor é para viver de amar? Eu gosto!
Ouve, tão longe, os acordes de uma tarantella. Fecha os olhos e volta no tempo.
Houve um tempo em que foi feliz. Jovem, sorriso fácil e aberto, sempre dançando, levando, como única bagagem, a despreocupação.
Tan-tan-ran-tan-tan-tan-ran-tan-tan-tan-tan-tan-tan-tan… volta a sorrir.
Como era bom dançar a tarantella.
Ainda de olhos fechados, enxerga Napoli, Capri, Campania, Penisola sorrentina, Costiera Amalfitana, Mar Tirreno…
Sul da Itália, aquele lugar do mundo no qual Deus mais caprichou.
Caprichou no mar, na terra, nas praias, nas montanhas (até um vulcão ali Ele colocou para dar mais emoção), e caprichou nas pessoas.
Que sofreram, enfrentaram guerras, privações, erupções, inundações. Mas nunca deixaram de sorrir. De dançar. De cozinhar e criar os melhores doces do universo.
Caprichou quando deu o limão siciliano para esse povo inigualável, que, dentre inúmeras inovações, criou o maravilhoso limoncello.
O sol do sul. As paisagens que não existem em nenhum outro local conhecido. A beleza das pessoas. Os amores de verão.
Tudo ao som da tarantella.
Conclui, agora, já no final da melodia, que sua vida fora uma animada tarantella, às margens de uma praia da região amalfitana.
A grande roda que se fez, e onde rapidamente os dançarinos trocavam de par, sem perder o compasso do ritmo acelerado.
… principalmente pelas tenebrosas condições em que todos nós no encontrávamos, quando fomos surpreendidos pela cidade toda se alegrando com a esperança do fim da epidemia.
Nada, a não ser a intervenção imediata do dedo de Deus; nada, a não ser Seu poder onipotente poderia fazer isso. O contágio ridicularizava todos os remédios, a morte atacava em cada esquina e se continuasse como estava, mais algumas semanas e a peste teria limpado a cidade de tudo e todos que tivessem uma alma.
…
No exato momento que bem deveríamos dizer “é inútil a ajuda do homem” – digo, neste exato momento, para nossa agradável surpresa, Deus quis que a fúria da peste diminuísse, ainda que por si mesma.
…
É impossível expressar a mudança da própria fisionomia das pessoas naquela manhã de quinta-feira, quando foi divulgado o registro semanal de óbitos. Podia-se perceber nos semblantes um espanto secreto e um sorriso de satisfação estampados na face de todo mundo. Aqueles que antes não passariam pelo mesmo lado de uma rua onde viesse alguém apertaram as mãos uns dos outros. Nas ruas não muitos largas, as pessoas abriam suas janelas e chamavam de uma casa para outra, perguntando como estavam e se ouviram a boa notícia da diminuição da peste.
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Em meio a sua aflição, justamente quando a cidade de Londres estava em condições verdadeiramente calamitosas, foi do agrado de Deus – através da intervenção imediata de Sua mão – desarmar o inimigo, retirando o veneno de sua ferroada. Foi maravilhoso e até os médicos se surpreenderam.
…
Isso tampouco aconteceu pela descoberta de um novo medicamento nem por um novo método de cura ou por qualquer experiência em andamento que os médicos e cirurgiões estivessem testando; evidentemente, isso veio da secreta e invisível mão Dele que, primeiro, enviou a doença como um castigo sobre nós. … A doença perdeu seu vigor e consumiu sua malignidade; e deixai que isto venha de onde vier, deixar os filósofos procurarem razões na natureza para explicar o fato, fazendo tudo o que podem para diminuir a dívida que eles têm para com o Criador.
…
Foi então, como disse antes, que o povo perdeu todos os seus medos muito rapidamente. De fato, não tínhamos mais medo de cruzar com um homem de boné branco na cabeça ou com um pano enrolado no pescoço, ou arrastando uma perda devido às feridas na virilha e tudo que na semana anterior era apavorante no mais alto grau. Agora, porém, as ruas estavam cheias deles e estas pobres criaturas convalescentes, dando-lhes o que lhes é devido, pareciam muito sensibilizadas pela sua inesperada salvação.
…
Concluirei, então, o relato desse calamitoso ano com um vulgar, porém sincero verso de minha autoria, que coloquei no fim de minhas anotações cotidiana no mesmo ano em que foram escritas: